CAPÍTULO II – FUNDAMENTOS CRIMINAIS
3. A Psicologia do Furto
59 Concretizando um paralelismo entre a Convenção UNIDROIT e o direito interno português, evidencia-se que a LBPC prevê no seu Art.º 69º o regime de restituição de bens culturais, que se encontrem em território nacional em resultado da violação da respetiva lei de outro Estado Membro, não podendo, por isso, descurar-se que os direitos dos particulares demandam de ser garantidos, ditando-se um necessário equilíbrio dos interesses em comparência8. Este normativo faz uma remissão para os regimes de direito comunitário e internacional que vinculem o Estado português.
Lei-Quadro dos Museus Portugueses
No contexto que aqui assume importância, cumpre referenciar o quadro legislativo através do qual se institucionaliza a demarcação de responsabilidades por parte dos museus nacionais e do Estado. Sintetizada na perspetiva de criar um regime jurídico geral, abrangente da realidade museológica nacional, fundamentada no conhecimento da realidade portuguesa, na experiência incrementada pelo Instituto Português de Museus (IPM) de criação da Rede Portuguesa de Museus (RPM) e, alicerçada nas decursivas orientações internacionais, surge-nos no panorama jurídico interno, de modo preponderante, a Lei n.º 47/2004, de 19 de agosto, que aprova a Lei-Quadro dos Museus Portugueses (LQMP).
60 Comecemos pela Teoria da Escolha Racional. A origem e evolução desta teoria deu-se durante a década de 1980, tomando um lugar central no estudo da ciência comportamental aplicada à criminalidade, nomeadamente aos furtos (Dassan et al., 2016). O pressuposto desta teoria, passa, em linhas gerais, na tomada de decisão individual perante as várias alternativas disponíveis, tendo em conta os possíveis ganhos ou retornos que podem assumir a dimensão monetária, mas também a dimensão emocional, como acontece com a arte (Martinho et al., 2013).
Esta teoria, nas palavras de Newburn (2007, p.281) estuda a “razão pela qual determinados indivíduos decidem comportar-se de determinadas formas, em determinadas circunstâncias”. Em termos comportamentais, o crime pode ser definido de acordo com quatro premissas (Baert, 1997): i) a intencionalidade; ii) a racionalidade, onde o indivíduo junta todas as informações necessárias para que as possíveis consequências do crime sejam menores, como por exemplo, estudo do museu e obra de arte a furtar; iii) diferenciação entre risco e incerteza, onde o indivíduo vai realizar um
“estudo” das probabilidades associadas à concretização do crime e, por fim, iv) fazer a distinção entre ação estratégica e ação independente, onde, durante o desenrolar do crime, o indivíduo opta livremente por diversas estratégias ou é obrigado a atuar de acordo com uma opção única.
Facilmente se compreende que a Teoria da Escolha Racional se relaciona diretamente com o estudo da razão aplicada à área do crime, sendo que o comportamento criminal se encontra associado às diversas escolhas realizadas pelo autor do crime (Tonry, 2018).
Ao mesmo tempo, este comportamento também é influenciado por vários fatores psicossociais que influenciam o processo racional, tais como algum tipo de perturbação da personalidade, contexto social, os pares, entre outros, que acabam por facilitar um possível envolvimento deste no mundo do crime (Tonry, 2018).
A outra teoria relevante para a psicologia do furto de obras de arte é a Teoria dos Padrões Criminais. A premissa em que esta teoria se sustenta é que o crime não acontece aleatoriamente ou uniformemente no tempo, espaço e na sociedade (Brantingham & Brantingham (2017). Ou seja, tanto os alvos como os próprios
61 criminosos são variáveis de acordo com as situações, com as especificidades do que pretendem subtrair, com a hora do dia, entre outros fatores (Rebocho, 2016).
Deste modo, pode-se destacar três elementos fundamentais para que um crime ocorra: o tempo, o espaço e a sociedade, sendo que na sua tradução para termos criminais, observa-se, que a concentração do crime em janelas temporais específicas, assim como locais, estão na génese dos três conceitos elementares da Teoria dos Padrões Criminais:
i) Hotspots, definidos pelos locais com maior incidência criminal (no caso do furto de arte, os museus e galerias); ii) Hot Times, que dizem respeito às janelas temporais onde o crime tem maior probabilidade de acontecer (no caso do furto de obras de arte, a noite mostra-se como janela temporal privilegiada) e, por fim iii) Hot products, que se refere, tal como o nome sugere, aos produtos ou alvos mais atrativos (no caso das obras de arte esta atratividade vai depender do mercado, dos artistas mais valiosos, das obras mais em voga) (Cozens, 2014).
Para que um furto de obra de arte ocorra, é necessário que a vítima (neste caso considera-se o museu e tudo o que ele encerra e significa) e o criminoso se cruzem uma vez na vida, no tempo e no espaço. Neste sentido, Santos (2017) refere que os crimes normalmente ocorrem em locais onde o espectro de atividades do criminoso coincide.
No entanto, no crime de obras de arte, a padronização criminal revela-se um trabalho mais complicado de executar, devendo-se olhar para o contexto social e ambiental de forma mais ampla, de modo a determinar se efetivamente o padrão está presente (Brantingham & Brantingham, 2017).
Falta ainda falar nas motivações psicológicas associadas ao furto, nomeadamente ao furto de obras de arte. Num artigo publicado pela Art Market Monitor (2010), intitulado The Mind of an Art Thief9, foram colocadas várias questões a psicólogos de forma a perceber quais as motivações por trás deste tipo de crime.
A primeira motivação que Joel Silberber, Director da Divisão de Psiquiatria Forense da Northwestern University refere, é a motivação idiossincrática. E para exemplificar esta
9 A Mente de um Ladrão de Arte (tradução livre)
62 motivação, dá o exemplo do furto da Mona Lisa, realizado em 1911, por um patriota italiano que, alegadamente, não conseguia aceitar que uma das maiores obras de arte italianas estivesse a ser exibida em França. A outra motivação que refere é o dinheiro e os lucros que derivam deste crime, referindo que o furto de obras de arte encontra-se muito ligado a grandes sindicatos de crime organizado, sendo que a arte é vendida e revendida num mercado negro cada vez maior. Por fim, refere uma motivação individual e epicurista, que o ladrão pode apenas querer usufruir da arte e das emoções que esta lhe transmite.
No mesmo artigo, foi ainda colocada a questão sobre se existe algum perfil específico de ladrão de obras de arte, ao que, Dan Ariely, Professor de Psicologia e Economia Comportamental na Duke University, respondeu que ao longo das suas pesquisas descobre-se que muitas pessoas estão dispostas a ser desonestas, mesmo aquelas que aparentemente estão mais aptas e suscetíveis de assumir posições de liderança na sociedade. Identifica, então, dois tipos de pessoas passíveis de ser ladrões de arte, tendo em conta que o ser humano apresenta, uma psicologia bastante flexível: o tipo comum de criminoso que o faz apenas quando pode racionalizá-lo para si próprio, e o tipo não comum que o faz para a análise custo-benefício.
Na entrevista realizada a um dos Inspetores da Brigada de Obras e Arte (Anexo II), quem pratica um furto desta natureza pode ser qualquer indivíduo. No entanto, este tem que ter uma característica muito especifica: a recetação. Ou seja, nas palavras do Inspetor é essencial que este tenha contatos no meio de forma a conseguir vender a peça furtada. Pela sua experiência a maior parte dos furtos não são encomendados, mas a procura de um determinado objeto de arte faz com que esse crime aconteça.
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