CAPÍTULO III – APRESENTAÇÃO DE CASOS
2. Tendências e Vulnerabilidades
Neste subcapítulo apresentam-se as principais tendências no que concerne a furtos de obras de arte em Portugal, seguida da identificação das principais vulnerabilidades que proporcionam janelas de oportunidades para que esses mesmos furtos ocorram. As tendências, no que respeita ao furto, são determinadas pela lei da oferta e da procura.
Como já foi apresentado anteriormente na presente investigação, uma das principais tendências ao nível mundial é o furto de chifres de rinoceronte, negócio extremamente lucrativo a partir do momento em que um kilo deste material chega a custar 20 000€.
Tal crime justifica-se pela grande procura levada a cabo pela medicina tradicional chinesa, estando os chifres de rinoceronte associados a poderes afrodisíacos, sendo que estes já foram desmistificados pela ciência.
Portugal segue esta tendência, tendo-se registado dois furtos de chifres de rinoceronte, um no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra e outro no Museu da Caça de Vila Viçosa. Estes dois casos serão apresentados com mais pormenor no subcapítulo seguinte, sendo que a justificação para este tipo de crime foi apresentada exaustivamente na primeira parte do presente trabalho. O furto de Vila Viçosa, nas palavras do Inspetor entrevistado, é o mais conhecido deste género em solo nacional.
Passa-se, então, a apresentar umas das tendências de furto mais visíveis em Portugal que é o furto de azulejos, especialmente com o boom do turismo em Portugal, tendo atingindo proporções preocupantes já no ano de 2008, mas tendo-se agravado até números enormes de azulejos furtados no ano de 2019.
Fruto de uma história que remonta ao tempo que a Península Ibérica estava ocupada por povos muçulmanos do Norte de África, que introduziram esta arte em solo nacional, os azulejos portugueses apresentam uma grande riqueza em termos de tamanhos, cores, e
66 temas, sendo um dos maiores ex-libris no que concerne às artes decorativas nacionais, representando a cultura, memória e sociedade de Portugal (Menezes, 2015). Sabendo-se então, deste grande valor, os azulejos portugueses constituem um atrativo para redes criminosas, sendo que, de acordo com o Projeto SOS Azulejo, projeto criado pelo Museu da PJ, visando a proteção e conservação dos azulejos nacionais, os criminosos demonstram um conhecimento profundo do valor a que os azulejos podem chegar, tanto nos mercados nacionais como nos internacionais (Projeto SOS Azulejo, 2007).
Além da prevenção criminal, este projeto teve como objetivo desenvolver uma conservação preventiva ao mesmo tempo que sensibiliza a população portuguesa para a valorização do património azulejar português. Assim, e desde que o Projeto SOS Azulejo foi criado, destacam-se os seguintes resultados:
• Diminuição de 74,19% dos furtos registados na Polícia Judiciária de azulejos históricos e artísticos, entre o ano da sua criação em 2007 e 2019.
• Criação do Dia Nacional do Azulejo a 6 de maio.
• Nova legislação protetora do património azulejar português resultante das propostas do “SOS Azulejo” apresentadas à 12ª Comissão Parlamentar em fevereiro de 2016:
! Resolução da Assembleia da República n.º 144-2017, de 6 de julho, que cria o “Dia Nacional do Azulejo”;
! Resolução da Assembleia da República n.º 145-2017, de 6 de julho, que “Recomenda ao Governo a proteção e valorização do património azulejar português”;
! Lei n.º 79/2017, de 18 de agosto, que procede à 13ª alteração ao Regime Jurídico de Urbanização e Edificação, e que na prática interdita a demolição de fachadas azulejadas e a remoção de azulejos das mesmas (salvo em casos de ausência de valor patrimonial relevante avaliados pelos técnicos municipais) em todo o território nacional. Trata-se de uma viragem de 180º na abordagem da proteção do património azulejar português, estancando a
‘sangria’ destrutiva dos últimos 40 anos que fez desaparecer por via legal centenas, senão milhares de edifícios azulejados de valor relevante no nosso país.
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• Catalisação do “Projeto SOS Azulejo Brasil” na Universidade Federal da Bahia com a parceria da Universidade Federal do Pará a 31 de março de 2017.
De referir, de acordo com as palavras da Inspetora entrevistada que, a venda de azulejos encontra-se regulamentada por um quadro legal que cobre as antiguidades e velharias, sendo que, os azulejos têm que ter uma origem conhecida e os seus vendedores devem ser devidamente identificados.
Quando se questionou, durante a entrevista, ao Inspetor da Brigada de Obras de Arte da Polícia Judiciária, se o furto de obras de arte e de bens culturais se trata de um fenómeno em ascensão, ou se tem vindo a diminuir nos últimos anos, este considera que a tendência é a diminuição, tendo havido um pico na década de 1990, nomeadamente no que concerne ao furto de obras de arte de cariz religioso. No entanto, hoje em dia passam-se anos sem que haja nenhuma ocorrência, verificando-se sim a recuperação de objetos que foram furtados há muitos anos atrás. Hoje em dia, refere, que mais do que em museus, verifica-se que este tipo de criminalidade ocorre mais em contexto particular, ou seja, em coleções particulares.
Para que a procura possa ser suprimida, os criminosos e as redes criminosas analisam as principais vulnerabilidades das instituições.
Enquanto os ladrões de obras de arte são retratados nos filmes como sendo mestres criminosos, altamente inteligentes e com a capacidade de derrotar sistemas de segurança dispendiosos, instalados nos mais famosos museus, a realidade revela-se muito mais prosaica. O que acontece é a que segurança dos museus tende a ser pobre, sendo que muitos dos roubos de arte são crimes de oportunidade (Chen & Regan, 2016).
Uma das grandes vulnerabilidades prende-se com o facto de, quando as obras de arte são furtadas, frequentemente, os museus e galerias hesitam em notificar as autoridades, uma vez que a denúncia pode também servir de informação para outros criminosos sobre o débil sistema de segurança que permitiu o furto (Chen & Regan, 2016).
Neste sentido, os museus necessitam de considerar como é que os ladrões podem agir, tendo em conta a sua realidade, de forma a tomarem as decisões de segurança mais
68 adequadas, visto que os ladrões vão sempre fazer um cálculo custo-benefício do assalto, tendo em conta o nível de segurança do museu. Em Portugal, e de acordo com a conservadora do Museu e Arquivos Históricos da Polícia Judiciária, Leonor Sá, em declarações à Agência Lusa, em mais de 70% dos furtos realizados os assaltantes entram pelas portas e pelas janelas dos museus públicos portugueses. Tendo em conta esta realidade, é necessário que portas e janelas sejam diminuídas ao mínimo indispensável, ao mesmo tempo que estas devem ser muito bem vigiadas, dificultando, também o seu arrombamento. Dentro dos dispositivos de segurança mais tecnológicos e físicos, Leonor Sá, destaca dispositivos mecânicos e eletrónicos de segurança, barreiras físicas, alarmes e circuitos internos de televisão (Agência Lusa, 2008).
Também nas palavras do Inspetor entrevistado, existe uma ideia de vulnerabilidade associada aos museus, dando mesmo o exemplo que, há uns anos atrás a Coleção de Arte Contemporânea do Estado, conhecida como Coleção SEC, foi distribuída por vários organismos e museus públicos, tendo-se começado a reparar a falta de 94 peças.
A questão que se põe é, se, efetivamente houve furto, ou as peças estão mal catalogadas e, por isso não são passíveis de ser corretamente localizadas.
Uma boa gestão das coleções é, então, essencial para que se previna os furtos de obras de arte. Na publicação Como gerir um museu do ICOM (2004), a gestão de coleções é definida no seu glossário como sendo a “gestão e o tratamento do acervo, com preocupação pelo seu bem-estar físico e segurança, a longo prazo. Inclui conservação, acesso e utilização, inventário e registo, assim como também a gestão da composição global do acervo em relação à missão e objetivos do museu" (ICOM, 2004, p. 226). O Inspetor refere que para esta investigação e registo das peças é essencial que estas sejam fotografadas. Em caso de furto, existindo fotografias, as peças mais cedo ou mais tarde acabam por ser recuperadas, uma vez que passados tantos anos, este tipo de objetos voltam a ser reintroduzidos no mercado, ficando debaixo do radar das autoridades.
Deste modo, e tendo em conta as definições dos autores assim como a definição contida no manual Como gerir um museu, pode-se afirmar que a gestão de coleções constitui um elemento central em qualquer museu e na sua função museológica, representando o fator central para que qualquer coleção seja devidamente desenvolvida, organizada e
69 preservada. Nas palavras do Inspetor as fotografias são uma ferramenta “essencial para combater e prevenir este tipo de criminologia”.
Alves (2020) completa a definição anterior com a norma PAS 197, do British Standards Institute e a publicação da Colletions Trust sobre Gestão de Coleções, fazendo referência à importância das estratégias, dos processos e procedimentos, assim como, as políticas para o desenvolvimento, acesso, preservação e informação acerca das coleções.
A autora realça, deste modo, a importância estratégica que a gestão de coleções tem para a atividade museológica e para que esta seja devidamente desenvolvida. Assim, e como completa a autora, o papel da gestão de coleções é, portanto, central para qualquer museu que contenha uma ou mais coleções sob a sua alçada, podendo a sua atuação ser resumida do seguinte modo: “o museu deve saber o que tem, onde encontrar o que tem e em que estado de conservação está” (Alves, 2020, p.37).
A divisão do museu em setores é, também, nas palavras de Leonor Sá, uma forma de prevenir furtos, uma vez que se vai atribuir diferentes tipos de acessibilidade e segurança. Como refere Ladkin (2004) relativamente ao acesso controlado às coleções museológicas, um das missões do museu, além de se comprometer em expor e investigar o conteúdo da coleção, inclui a proteção da mesma. O acesso controlado a uma coleção é uma importante ferramenta de estruturação de uma política de gestão de coleções e acervos museológicos.
Outra importante ferramenta de prevenção referida por Leonor Sá, em declarações à Agência Lusa relativamente ao furto de obras de arte em museus, é uma formação adequada dos seus funcionários, nomeadamente ao nível da segurança. Ser formado num campo particular da história da arte, arqueologia, ou qualquer outro campo científico, não satisfazem os requisitos do trabalho num museu nos dias de hoje. Deste modo, a formação destes trabalhadores deve incluir uma variedade de competências essenciais para o dia-a-dia de um museu, nomeadamente, gestão e administração, empreendedorismo e marketing, entre outros, de modo que as suas coleções sejam devidamente protegidas e preservadas, encorajando ao mesmo tempo o financiamento das instituições pelos stakeholders associados (Legget, 2011).
70 Por fim, Leonor Sá refere, também, a importância de existirem planos de segurança, divididos em duas áreas principais: prevenção e emergência. A proteção de objetos sem preço é um desafio particularmente difícil para os museus e galerias públicas. Estas instituições enfrentam o dilema conflituoso de manter os objetos seguros ao mesmo tempo que dão a oportunidade a milhões de visitantes de os admirar, sendo que o objetivo da segurança de um museu não é fechar as suas portas, mas sim garantir a sua abertura de uma forma responsável (Rehnberg, s/d). Sistemas de alarme dentro e fora do museu, e em todos os andares do edifício, aliados a uma rede de câmaras de segurança e scanners, devem ser prioridade para a segurança de todos os museus. Esta ideia é corroborada pelo Inspetor entrevistado, referindo que é “sempre bom haver mais segurança e mais câmaras, porque vemos alguns furtos ocorrer por descuido, o segurança não estava a ver” e que “a instalação de Câmaras CCTV, que é essencial em qualquer museu”, tendo dado de seguida o exemplo do furto da Nossa Senhora da Ajuda, no Mosteiro dos Jerónimos, que após investigação ficou provado que houve falta de segurança que permitiu que o furto acontecesse.
De um modo geral, e nas palavras da Inspetora entrevistada, os museus reconhecem as suas fragilidades, sendo que os museus públicos geralmente alegam a falta de dinheiro no que concerne à modernização dos seus sistemas de segurança. No entanto, este é um problema transversal a todos os museus nacionais e não só os públicos.