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– Entrevista ao Sr. Inspetor Domingos Lucas, Chefe da Brigada de Obras de

A presente entrevista tem como objetivo representar mais um testemunho no âmbito do furto de obras de arte em Portugal, de forma a servir de dados para a análise no âmbito desta dissertação de Mestrado.

Sr. Inspetor, há quantos anos chefia a Brigada de Obras de Arte da Diretoria de Lisboa e Vale do Tejo?

Entrei no dia 02/01/1997 para a BOA, há mais de 25 anos, e estou em funções de chefia desde 2018.

Na Polícia Judiciária sempre trabalhou com crimes relacionados a obras de arte?

Não, entrei para a Escola em 1989, tomei posse em 1990, e nessa altura lidava com todo o tipo de crimes de furto, roubo e recetação, mas sempre ligado ao património, excetuando as obras de arte.

E o que o levou a tomar a decisão desta área de investigação criminal?

R.: Podia dizer que é porque gosto de arte, cheguei a trabalhar em miúdo durante as férias no Convento de Mafra, numa exposição de arte antiga. Mas também porque o anterior chefe que tive foi convidado para chefiar a Brigada de Obras de Arte, e surgiu o convite dele para mim, porque tinha um projeto interessante para eu desenvolver.

Qual a ideia que tem sobre os indivíduos que praticam estes crimes, são maioritariamente criminosos especializados no furto de arte, ou são praticantes de um furto ocasional?

Quem pratica o crime de furto pode ser um indivíduo qualquer, mas tem de existir uma caraterística que é a recetação. Ou seja, tem de ter contactos num sector comercial, ou então ir um pouco mais longe saber quem são os colecionadores, ir diretamente a esses colecionadores que de outro modo iriam comprar a um comerciante.

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O Sr. Inspetor acha que se tratam de furtos encomendados?

Não vou dizer que não seja verdade alguns casos, aqui há uns anos prendemos dois antiquários que eram os autores morais. No demais, havendo compradores para as peças, não conseguimos fazer este nexo causal. A maior parte dos furtos não se pode dizer que são encomendados, mas sabendo que a procura daquele objeto tem oferta, promove este tipo de crime.

Os bens culturais furtados acabam de imediato à venda, ou são temporariamente mantidos em “reserva” para dificultar o seu rasto, até à altura que o criminoso considere ideal a sua colocação no mercado?

Depende do objeto. Há uma grande mobilidade de quem transaciona este tipo de objetos, passam-nos uns aos outros, podem ser furtados no Norte e serem levados para o Sul, e vice-versa.

Mas há interesse em manter os bens furtados muito tempo em reserva. No caso dos colecionadores, existindo já contactos com o autor moral, pode acontecer já o contacto direto entre eles e aí não chegam a ser colocados no mercado. Não são reserva, mas só são colocados no mercado muito tempo depois.

Este mercado, é principalmente o chamado mercado negro ou não só, existe uma

“zona cinzenta” que procede à venda das obras de arte de forma legítima?

É assim, não sei se mercado negro é o termo correto, há de facto um mercado paralelo.

Se a peça tem proveniência ilícita a sua venda nunca pode ser legítima, porque há uma ilicitude logo no início.

Se a pessoa que comprou a peça, e não teve o cuidado de saber da sua licitude também a sua responsabilidade é diferente, dependendo do sítio onde a comprou. Se comprou na Feira da Ladra pressupõe-se que conhecia a sua ilicitude; diferente se comprou num antiquário com loja aberta. E tanto num caso como no outro o preço que pagou diz muito sobre a ilicitude ou não.

O aumento e a facilidade do fluxo de bens beneficiou o crescimento do mercado internacional, deste modo tem-se conhecimento se as obras de arte furtadas

121 permanecem em território nacional, ou na maior parte dos casos atravessam fronteiras?

Nós, PJ, não temos controlo do que sai para o estrangeiro, quem tem esse controlo é a DGPC, porque a lei obriga a que os bens sejam acompanhados do relatório de exportação e expedição. Quanto aos furtos, nós somos uma polícia mais proactiva do que preventiva. Ao longo dos anos temos visto que a nossa arte sacra, por exemplo, mais bonita que a arte sacra espanhola, ainda que ambas se tratem de arte ibérica, encontra mercado no exterior. Mas, na maior parte dos casos os objetos ficam por cá.

Muitos dos furtos de arte também ocorrem com o intuito de enriquecer coleções particulares, não se destinando somente à venda, é assim?

Não podemos separar uma coisa da outra, claro que concordo que ocorrem com o intuito de enriquecer coleções particulares, mas entre o colecionador particular e quem pratica o furto, existirão vendas, uma ou mais.

Destaca-se alguma região do nosso país, onde esta incidência criminal seja maior e porquê?

A Diretoria de Lisboa e Vale do Tejo era de longe a Diretoria onde havia mais participações, perdendo o Alentejo, ainda continua a ser, logo a maior incidência criminal de furtos de obras de arte será na zona da grande Lisboa.

Considera que o furto de obras de arte e de bens culturais se trata de um fenómeno em ascensão, ou tem vindo a diminuir nos últimos anos?

Eu acho que estabilizou porque quando falamos em furtos de obras de arte nos anos de 1990, eram fundamentalmente arte de cariz religioso e começou a ter-se um maior e especial cuidado, sobretudo em capelas ou igrejas mais ermas. Agora passam-se anos em que não há furtos, muito pelo contrário, passam a ser recuperados objetos já furtados há muitos anos. Depois há os azulejos e também há alguns anos os furtos de estátuas em jardins, mas prendemos alguns ladrões e também alguns recetadores, e abrandou.

122 Este tipo de criminalidade ocorre em maior número em coleções particulares, ou em âmbito museológico?

Atualmente ocorrem mais em coleções particulares.

Existindo uma ideia de exposição à vulnerabilidade, crê-se que todos os furtos de bens culturais ocorridos em Museus são denunciados às autoridades policiais?

Creio que sim, se faltar algum será uma franja muito reduzida; o museu tem o especial dever de comunicar. Mas temos alguns casos, como a “Coleção SEC”, distribuída por vários organismos, vários museus pertencentes ao Estado, com vários inventários diferentes, em que passados uns anos o Estado começou a dar por falta de peças suas, e ao ter-se feito a conferência verificou-se que faltam 94 peças, podem não faltar, podem só estar mal catalogadas. Houve de facto furto ou somente os objetos não estão localizados? - Não se sabe.

Um dos flagelos atuais prende-se com o furto de chifres de rinoceronte, não só a nível nacional, mas também internacional. No nosso país, estes artefactos culturais são o maior alvo por parte dos ladrões de museus, ou destacaria outros?

Dos chifres de rinoceronte só tenho conhecimento de dois, o do Museu de Vila Viçosa e o do Museu de Coimbra. De resto não, a ocasião faz o ladrão, e por isso não há um alvo concreto.

E quanto às investigações, as mesmas são maioritariamente bem-sucedidas, ou a taxa de recuperação dos objetos furtados é relativamente baixa?

A taxa de sucesso ao longo dos anos é muito boa, têm sido recuperados muitos objetos furtados há mais de 25 anos; haja fotografias das peças e crê-se que mais tarde ou mais cedo vão ser recuperadas. Os objetos, passados estes anos, habitualmente voltam a entrar no mercado, ou porque as pessoas que os detêm perdem o interesse, ou os filhos que ficam na posse dos mesmos, não têm interesse em mantê-los.

O que acha que pode estar a falhar em termos de segurança nos Museus, se é que existe alguma falha?

123 As igrejas continuam a ter falta de segurança, por vezes só têm voluntários. Em relação aos museus era sempre bom haver mais segurança e mais câmaras, porque vemos alguns furtos ocorrer por descuido, o segurança não estava a ver. Por exemplo, o que aconteceu com a Nossa Senhora da Ajuda, no Mosteiro dos Jerónimos, foi de facto uma falta de segurança.

A catalogação, o inventário, os registos fotográficos das coleções, fazem realmente a diferença no combate e na prevenção deste tipo de criminologia?

Exatamente, tudo isto é essencial para combater e prevenir este tipo de criminologia.

Mas há antecedentes, por exemplo, no caso das igrejas, com a extinção das Ordens Religiosas, o Estado incorporou os bens da Igreja, com a Concordata viu-se obrigado à restituição, por isso nem sempre houve muito interesse da Igreja em catalogar.

Quais as recomendações que pode deixar, no caso a pergunta dirige-se principalmente às instituições museológicas, para a diminuição do furto de bens culturais?

É a aplicação do previsto na pergunta anterior e depois com especial cuidado com a instalação de Câmaras CCTV, que são essenciais em qualquer museu.

E para os colecionadores e compradores de arte, quais os conselhos que podem evitar a propagação deste tipo de crime?

Os colecionadores, ou qualquer comprador de arte devem ter especial cuidado com o local onde estão a comprar a peça. E também tem a ver com o preço pelo qual está a comprar, se barato e bom... comprar sempre no circuito comercial daquele tipo de objeto.

Tendo em conta a sua longa carreira, devem ser imensas as histórias que tem relativamente a estes crimes, à sua investigação e à sua história subjacente. Pode descrever um dos crimes que mais o marcou?

O Museu de Vila Viçosa marcou-me pelo profissionalismo de quem o praticou. O furto aconteceu de domingo para segunda-feira de madrugada, temos imagens do casal que falavam inglês, mas não serão ingleses; pelas câmaras vimos que foram os últimos a

124 entrar para dentro do Castelo de Vila Viçosa, onde fica o Museu da Caça. O elemento feminino está em cima da ponte elevatória e o elemento masculino vê-se a fotografar, e depois verificou-se que o que fotografava era a fechadura da porta. Não há vestígios de que os chifres tenham sido oferecidos a alguém para venda nacional, mas os autores seriam intermediários, sem dúvida nenhuma, saíram em 54 segundos. Este sim foi um crime encomendado.

125 Anexo III – Entrevista à Sra. Inspetora Teresa Esteves da Brigada de Obras de