CAPÍTULO I – FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
5. A teoria do apego de Jonh Bowlby
5.2. A Teoria do Apego
5.2.3. A Qualidade do apego: Algumas Considerações
De acordo com a teoria do apego (Bowlby, 1958; 1969/1984), todos os bebês vinculam-se a sua figura de apego principal – geralmente a figura materna - no início da vida. No entanto, a qualidade do vínculo construído entre o bebê e sua mãe irá depender da qualidade dos cuidados prestados por ela ao bebê neste período inicial, e as experiências vividas pelo bebê quanto à disponibilidade e sensibilidade materna às suas necessidades.
Inicialmente, Bowlby privilegia como método de investigação a observação direta dos comportamentos da criança em seu cotidiano, sendo descrita a qualidade da relação de apego. Foi a partir do final da década de 60 que a investigação do apego passou a ser realizada por meio da definição dos “estilos de apego” apresentados pela criança. O primeiro estudo empírico desenvolvido com a finalidade de definir e especificar as diferenças individuais na organização do apego apresentados pelos bebês no primeiro ano de vida foi desenvolvido por Ainsworth, em 1969. Essa autora desenvolveu um procedimento experimental padronizado, realizado em laboratório, denominado Situação Estranha. Este procedimento promove uma situação de estresse moderado no bebê, mediante situações de ausência e retorno de sua figura materna, e tem como finalidade ativar o comportamento de apego no bebê. A partir da análise de tais comportamentos, são observadas as estratégias utilizadas pelo bebê para manter a proximidade com sua a figura de apego. A finalidade última da análise de tal comportamento consiste na investigação de se o bebê utiliza a sua mãe como uma base segura que proporcione o desenvolvimento do comportamento de exploração por parte do bebê.
A partir da análise do comportamento dos bebês nestas situações, Ainsworth e Wittig (1969, citados por Neves, 1995) advogam ser possível identificar três categorias referentes
aos tipos de apego, são eles: Grupo A ou inseguro-evitante; Grupo B, ou seguro e Grupo C ou inseguro-ambivalente-resistente.
Grupo A ou inseguro-evitante. Os bebês característicos deste grupo apresentam
comportamentos de evitar suas mães, sobretudo nos momentos de retorno das mesmas, ignorando-a ou se afastando dela. Não são observados comportamentos de busca de proximidade ou de contato físico por parte do bebê. A ausência da mãe parece não perturbar muito o bebê e, na maioria das vezes, observa-se que o bebê trata de modo semelhante a mãe e uma figura estranha.
Ainsworth e Wittig revelam que, ao longo do primeiro ano de vida dos bebês classificados como inseguros-evitates, diante de suas necessidades e cuidados, eles vivenciaram respostas de rejeição e insensibilidade por parte de sua figura de apego principal. Estas experiências levaram à construção de modelos internos negativos de sua mãe, passando esta a ser concebida como indisponível e insensível às necessidades da criança, o que, segundo esta perspectiva, explicaria o comportamento de evitação por parte do bebê.
Grupo B, ou seguro. Os comportamentos apresentados pelos bebês classificados como
apresentando estilo de apego seguro são: procura de proximidade da figura de apego, sobretudo nos momentos de retorno desta; uma vez estabelecido o contato com a mãe, busca mantê-lo; demonstram desconforto com a ausência da figura materna; expressam claramente maior interesse em estar próximo à figura materna do que a uma figura desconhecida; utilizam a mãe como base segura para a exploração do meio ambiente.
Durante o curso do seu primeiro ano de vida, tais bebês parecem ter construído relações harmoniosas com suas figuras maternas, criando modelos internos positivos de suas mães, sendo estas concebidas como figuras sensíveis e disponíveis aos cuidados e necessidades de seus filhos. Segundo Ainsworth et al. (1979, citados por Neves, 1995, p. 26).
a contribuição da mãe para a interação, em particular, a sensibilidade, ou seja, a capacidade da mãe para perceber e interpretar corretamente e responder de forma adequada e imediata aos sinais e à comunicação do bebê, está diretamente associada à qualidade do apego do bebê, contribuindo para distinguir o grupo seguro dos inseguros.
Grupo C ou inseguro-ambivalente-resistente. Os comportamentos característicos dos bebês
que apresentam este estilo de apego consistem na existência concomitante de comportamentos de busca e resistência de proximidade e contato com a figura materna. Esta coexistência sugere uma espécie de ambivalência do bebê em relação a sua mãe. Nos momentos de
ausência da mãe, os bebês podem tanto apresentar comportamentos de irritação ou passividade. Diante do retorno da mesma, estes bebês não conseguem ser acalmados por ela e não apresentam comportamentos de exploração do meio. Desta forma, a figura materna não é utilizada pelo bebê como uma base segura e, ao mesmo tempo, a ausência desta figura pode tanto ameaça-lo como ser indiferente a ele. Ainsworth e colaboradores sugerem que estes bebês tendem a ter vivenciado momentos de incerteza quanto à disponibilidade materna, por meio do recebimento de respostas inconstantes ou imprevisíveis em suas experiências familiares. Desta forma, a incerteza quanto à disponibilidade materna levaria à hiper-ativação do sistema de apego e, ao mesmo tempo, à indiferença quanto à presença materna em outros momentos.
Este procedimento de Situação Estranha foi – e continua sendo – bastante utilizado pela literatura que visa investigar os estilos de apego em bebês entre doze e dezoito meses de vida. Neste sentido, destacam-se, por exemplo, os trabalhos desenvolvidos por (Bell, 1970; Farnkel & Bates, 1990; Levitt et al., 1984; Paradise & Curcio, 1974; Slade, 1987; Waters et al., 1979; Wilson, Meins & Turner, 2000).
Ao longo do tempo, e devido à necessidade de pesquisas subseqüentes que tinham como objetivo investigar a influência da qualidade do apego em momentos posteriores da vida da criança, novos instrumentos foram desenvolvidos. Dentre eles adquiriu um grande espaço na literatura a Metodologia Q-sort, desenvolvida e aperfeiçoada por Waters e colaboradores (por exemplo, Waters, 1995; Waters & Deane, 1985; citados por Meins, 1997; Waters, Vaughn, Posada & Kondo-Ikemura, 1995). A metodologia Q-sort consiste em uma escala composta por 90 itens, que buscam descrever a interação mãe-criança através de comportamentos, atitudes e sentimentos. Estes itens são distribuídos em cartões, que são respondidos pelo pesquisador a partir da observação da interação mãe-criança, sendo particularmente investigado se a criança utiliza sua mãe como base segura para exploração do ambiente. Geralmente, este instrumento é utilizado para acessar o estilo de apego de crianças com mais de 5 anos de idade.
Posteriormente, outros procedimentos de pesquisa foram desenvolvidos, com a finalidade possibilitar a investigação dos estilos de apego de crianças entre 2 e 6 anos e visando superar as limitações identificadas nos procedimentos tradicionalmente utilizados (como a Situação Estranha e a Metodologia Q-sort). Um destes instrumentos refere-se às
Histórias de Apego Incompletas, desenvolvidas por Bretherton, Ridgeway e Cassidy, (1990).
estilos de apego de crianças de 3 e 4 anos. Para maiores informações a respeito deste procedimento, ver neste trabalho o item Método, no Capítulo II.
Estabilidade dos estilos de apego
Bowlby (1969/1984) defende que, assim como os modelos internos de funcionamento, os padrões de apego tendem a ser estáveis no tempo, estando relacionados a dois aspectos: 1. à estabilidade dos cuidados prestados à criança ao longo de seu desenvolvimento e ao estilo de comportamentos parentais e 2. a tendência à estabilidade dos modelos de representação de apego construídos pela criança a partir de suas experiências com as figuras de apego. Vale ressaltar, no entanto, que é possível que haja modificações tanto nestas representações como nos padrões de apego das crianças, devido às novas experiências vivenciadas, seja com as figuras de apego iniciais, seja com novas figuras de apego.
Desta forma, mesmo considerando uma tendência à estabilidade dos padrões de apego – estilos de apego –, não se afasta a possibilidade de modificações e re-elaborações de tais padrões de apego. Situações como acidentes, perdas permanentes - como a morte -, a ocorrência de períodos prolongados de separação, ameaça de abandono, situações de doença, ou mesmo modificações no comportamento das figuras de apego podem levar a transformações nos estilos de apego. Tais modificações podem ocorrer, quer devido à modificações reais na qualidade do apego, quer por modificações na percepção da criança acerca da acessibilidade e disponibilidade da figura de apego.
A partir do exposto, tal como anteriormente mencionado, na literatura recente, inúmeras pesquisas têm sido desenvolvidas com o objetivo de investigar a relação entre as interações sócio-afetivas e o desenvolvimento cognitivo. Para muitos destes estudos, a qualidade da primeira relação de apego estabelecida entre o bebê e a sua figura materna tem se mostrado de grande importância, podendo, inclusive, influenciar no desenvolvimento de alguns aspectos cognitivo, social e afetivo (e.g., Beck, 1995; 1996; Bell, 1970; Belsky et al., 1984; Field et al., 1985; Hazen, & Durret, 1982; Izard, 1989; Levitt et al., 1984; Matas et al., 1978; Meins, 1997; 2000; Paradise, & Curcio, 1974; Sharp, et al. 1995; Slade, 1987; Spitz, 1987; Winnicott, 1971/1996).
Seguindo nesta direção, o presente trabalho tem como objetivo investigar: (1) a partir de que idade uma criança mostra-se capaz de compreender e inferir acerca de estados mentais de outras pessoas? (2) pode ser estabelecida alguma relação sistemática entre “estilo de apego” e a “aquisição da teoria da mente”? (3) Que aspectos relacionais podem estar subjacentes ao estilo de apego apresentado pela criança? (4) Que peculiaridades
características das relações mãe-criança podem influenciar a aquisição precoce da teoria da mente?
Com a finalidade de lançar algumas hipóteses explicativas para tais questões, o presente trabalho foi dividido em dois estudos. O Estudo 1 foi composto por 40 participantes – crianças de 3 e 4 anos, que apresentam estilos de apego diferentes – e teve por finalidade investigar as duas primeiras questões acima apresentadas. O Estudo 2 caracteriza-se como um estudo microgenético-processual, no qual foram investigadas duas díades mãe-criança. Este estudo buscou lançar algumas possibilidades de resposta para as questões 3 e 4, acima. Nos capítulos a seguir, serão apresentados cada um desses estudos.