CAPÍTULO I – FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
5. A teoria do apego de Jonh Bowlby
5.2. A Teoria do Apego
5.2.2. O Desenvolvimento do apego
Desde muito cedo, aproximadamente no terceiro mês de vida, o bebê já é capaz de distinguir sua mãe de outras pessoas, respondendo a ela de modo diferenciado da maneira que responde a outras pessoas. Diante de sua mãe, um bebê desta idade tenderá a sorrir, vocalizar e acompanhar seus movimentos com o olhar, muito mais do que o faria diante de qualquer outra pessoa. No entanto, para Bowlby (1969/1984) não é suficiente que o bebê reconheça sua mãe para se afirmar que existe uma relação de apego. É necessário também, que o bebê dê indícios de que deseja manter a proximidade com ela, ou seja, que apresente comportamentos de apego. Segundo Ainsworth (citado por Bowlby, 1969/1984), a partir do sexto mês de vida pode-se dizer que o comportamento de apego está presente e é manifestado tanto pelo choro
do bebê quando a mãe o deixa sozinho no quarto, como pelos sorrisos, agitação dos braços e vocalizações de prazer, expressas pelo bebê, quando a mãe retorna para o cômodo.
Ao longo do desenvolvimento, os comportamentos de apego irão proporcionar o estabelecimento de relações de apego, inicialmente entre a mãe e o seu bebê e, posteriormente, entre criança-criança, adulto-criança e adulto-adulto. Desta maneira, o processo de formação de vínculos afetivos embora se inicie e seja de fundamental importância para a sobrevivência do bebê no início da vida, não se limita a este período ou à primeira infância, mas estará presente durante toda o ciclo da vida do indivíduo (Bowlby, 1969/1984; Araújo e Kato, 1983; Neves, 1995; Soares, 1996; Meins, 1997; entre outros).
Segundo Bowlby (1969/1984), todos parecem concordar com o fato de que, durante o primeiro ano de vida, quase todos os bebês desenvolvem um forte vínculo afetivo com a figura materna. Autores como Klaus e Kennel (1976, citados por Lewis & Wolkmar, 1993) destacam a importância do contato precoce entre o bebê e seus pais para a formação de laços afetivos. Ao nascer, todos os sistemas sensoriais do bebê entram em funcionamento e parecem contribuir para o estabelecimento de uma relação mãe-bebê próxima e para a formação de laços afetivos entre estes parceiros. Nas palavras de Lewis e Wolkmar (1993, p. 19) “Em essência, o bebê parece estar programado para responder, aprender e tornar-se apegado àquele aspecto de seu ambiente com maior probabilidade de garantir sobrevivência, isto é, outra pessoa, particularmente a figura materna”.
Seguindo nessa direção, Bowlby (1969/1984, p. 193) define apego – ou o vínculo da criança com sua mãe – como “um produto da atividade de um certo número de sistemas comportamentais que têm a proximidade com a mãe como resultado previsível”. Pode-se dizer que, segundo esse autor, o apego entre mãe e bebê apresenta-se como o primeiro vínculo afetivo estabelecido pelo bebê e a qualidade deste apego poderá influenciar as futuras relações afetivas estabelecidas por este bebê ao longo de sua vida. Mas como se estabelece este priveiro vínculo afetivo e que aspectos influenciam no desenvolvimento do mesmo?
Segundo Bowlby (1969/1984), ao nascer, o bebê não pode ser concebido como uma
tábula rasa. Pelo contrário, ele nasce munido de uma série de competências sensoriais e
comportamentais que irão favorecer o estabelecimento de relações sócio-afetivas com as figuras mais próximas ao bebê, tal como dito anteriormente. Este autor destaca algums sistemas comportamentais particularmente relacionados à formação de vínculos afetivos no início da vida, tais como o choro, agarramento e orientação do recém-nascido, a sucção, o sorriso, a balbuciação e posteriormente, o engatinhar e andar. No princípio, estes
comportamentos assumem uma forma mais simples, assumindo prograssivamente formas mais complexas e elaboradas de organização apresentação.
Bowlby (1969/1984) ressalta que a formação de vínculos afetivos não se dá de modo abrupto e imediato, mas sim de modo gradativo, sendo necessária à evolução paulatina dos sistemas comportamentais e a construção de modelos internos de funcionamento. Esse autor destaca quatro fases no processo de construção de vínculos afetivos entre o bebê e a sua figura de apego principal no início da vida; no entanto, reconhece que não existem fronteiras nítidas entre estas fases. São elas:
(1) Orientação e sinais com discriminação limitada de figura - Esta fase estende-se, aproximadamente de 0 a 3 meses de vida do bebê. Nela, o bebê responde de forma diferenciada aos diversos estímulos, sem, no entanto, diferenciar pessoas. A capacidade do bebê de diferenciar pessoas será auxiliada pelos órgãos da audição e olfato. As suas ações diante do outro social incluem orientação para a pessoa, movimentos oculares de acompanhamento, sorriso, balbucio, ação de estender os braços e agarrar-se. Neste momento, é freqüente o bebê parar de chorar quando ouve uma voz ou vê um rosto. Tais comportamentos podem influenciar no tempo de proximidade entre o bebê e uma pessoa, uma vez que tende a influenciar o comportamento daquele responsável pelos cuidados com o bebê, fazendo-o aumentar o tempo destinado a tais cuidados.
(2) Orientação e sinais dirigidos para uma figura discriminada (ou mais de uma) - De modo geral, esta fase dura até os 6 meses e o bebê já é capaz de discriminar entre figuras familiares e aquelas relativamente desconhecidas. O bebê comporta-se amistosamente com as outras pessoas, no entanto, o faz de modo particularmente mais intenso com a figura materna, expressando determinados comportamentos que parecem ter por finalidade a manutenção da proximidade com esta figura, como por exemplo, sorriso, vocalização, choro diferencial. Neste momento, a mãe tornou-se um objeto internalizado, uma lembrança que pode ser evocada e utilizada como futura base de comparação.
(3) Manutenção da proximidade com uma figura discriminada por meio de locomoção ou de
sinais - Tendo seu início por volta do sexto a sétimo mês, esta fase deve perdurar até,
aproximadamente, a metade do terceiro ano de vida do bebê, quando ele se torna ainda mais discriminatório na maneira de interagir com as pessoas e o seu repertório de atividades amplia-se, de modo a incluir ações de seguir a mãe que se afasta e recebê-la de modo efusivo quando de seu regresso. É neste momento que também se observa à utilização da mãe como uma ‘base segura’, permitindo ao bebê explorar o seu meio ambiente próximo, sem, no entanto, perder sua mãe de vista. Observa-se, ainda, que o
comportamento amistoso indiscriminado com pessoas estranhas decresce, sendo algumas pessoas escolhidas para tornar-se figuras substitutas de apego, enquanto outras não o são. Os estranhos começam a ser vistos com crescente cautela, podendo, inclusive, provocar alarme e retraimento. Nesta fase, torna-se evidente o apego entre o bebê e a figura materna.
(4) Formação de uma parceria corrigida para a meta - Na terceira fase, não se pode afirmar que a criança compreenda que suas ações poderão influenciar o comportamento de sua mãe, mesmo que isso aconteça. Já na quarta fase, a partir da observação do comportamento materno e do que pode influenciá-lo, a criança parece começar, mesmo que ainda de modo impreciso, a inferir algo a esse respeito e a adotar determinadas estratégias para obtenção de um fim específico. Neste momento, a percepção da criança torna-se muito mais refinada e o seu comportamento potencialmente mais flexível. Ainsworth (199, citado por Bowlby, 1969/1984) ressalta que estar nesta fase implica um certo nível de desenvolvimento cognitivo por parte da criança, sugerindo que a mesma tenha vivenciado experiências sociais significativas com algumas figuras de apego. Waters et al. (1990, citado por Soares, 1996, p. 47) por sua vez, chamam a atenção para a particularidade das relações de apego, ressaltando que “porque o apego é construído na interação, as diferenças nas histórias particulares de interações devem ser consideradas para a emergência de diferentes relações de apego”.
Segundo Bowlby (1969/1984), não se pode afirmar com precisão a fase a partir da qual a criança torna-se apegada, sendo esta uma tarefa extremamente difícil e arbitrária. Pode-se apenas afirmar que ainda não existe uma relação de apego construída na primeira faPode-se e que já existe na terceira. Quanto a afirmar se uma criança está apegada durante a segunda fase, depende do conceito de apego adotado. No que se refere ao tempo de duração de cada fase, este é um critério aproximado, podendo prolongar-se em cada uma das fases, desde que a interação mãe-bebê ocorra em condições desfavoráveis. No entanto, este autor ratifica que o apego entre mãe e bebê apresenta-se como a primeira relação de apego estabelecida pelo bebê, e a qualidade desta relação poderá influenciar as futuras relações afetivas estabelecidas por este bebê ao longo de sua vida. Bebês que sofrem alterações no curso do desenvolvimento de vínculos afetivos podem vivenciar futuros problemas no estabelecimento e manutenção de laços afetivos, podendo apresentar aumento indiscriminado da sociabilidade, porém de baixa qualidade, como também podem apresentar distanciamento e isolamento social (Bowlby, 1969/1984).
Padrões perturbados do comportamento de apego ocorrem, sobretudo, sob duas formas: (1) o apego ansioso, que consiste na rápida apresentação do comportamento de apego, quando é identificado o menor indício de ausência da figura de apego e (2) desativação parcial ou completa do comportamento de apego, que consiste na diminuição ou ausência de comportamentos que objetivam o estabelecimento ou manutenção da proximidade e do contato com a figura de apego (Araújo e Kato, 1983).
Vale ressaltar que, em sendo o desenvolvimento do apego um processo ativo, dinâmico e presente durante todo o curso da vida de um sujeito, é possível que o mesmo estabeleça uma outra qualidade de apego afetiva ao longo de sua vida, modificando a organização previamente realizada.