2. A Condição Existencial
2.1 A Queda do Objeto
Por considerar que o mundo é feito de impurezas, corrompido pela sua própria materialidade, Rui Chafes recusa a matéria e não acredita na existência dos objetos.
Neste sentido, e numa tentativa de superar esta problema, atribui grande importância à elevação destes a um estatuto de pensamento, com a crença de que apenas deste modo é possível a sua validade e existência. Apesar de nunca referir explicitamente Platão, esta linha de pensamento, recorrentemente defendida pelo escultor, atribui à sua obra uma dimensão quase neoplatónica, aproximando-a à conceção do mundo apresentada pelo pensador grego.
Platão foi dos primeiros filósofos da antiguidade clássica a reconhecer a espiritualidade da alma e a existência de um ser superior, um demiurgo, responsável pela criação e organização do universo; de uma forma clara, o pensador concebeu ainda a distinção de dois mundos, o mundo sensível e o mundo inteligível, neste residindo a verdade.
O primeiro corresponderia ao mundo da corporeidade, material, físico, e o segundo ao mundo das Ideias, necessárias, invisíveis e eternas. Para o filósofo, as Ideias são realidades objetivas, puras, imutáveis e perfeitas.
Segundo também Platão, o mundo sensível é uma fonte de ilusões, a sua realidade é
“emprestada”, pois o princípio da sua existência encontra-se no mundo verdadeiro das Ideias, o inteligível, os objetos sensíveis são apenas uma cópia imperfeita deste mundo, uma mera aparência da verdadeira realidade. O mundo é criado a partir de paradigmas e através de modelos; como afirmou no diálogo Timeu, as coisas existem apenas por imitação, e a sua existência é o resultado da operação realizada pelo demiurgo que deu à matéria uma forma, ela própria incriada e eterna.
Desta forma, a nossa realidade objetiva, a do mundo sensível, é apenas uma cópia imperfeita daquela que é a verdadeira realidade, a do mundo inteligível. O filósofo acredita que as coisas que habitam o mundo sensível são corruptas no sentido em que são cópias de algo muito anterior à sua própria existência. Segundo Platão, para além do mundo sensível e do mundo inteligível, existe ainda um “espaço”, lugar, que apelidou de
Chora, e que repousa entre dois mundos, onde tudo passa e nada é retido. A Chora possui características do inteligível e do sensível, é invisível e amorfa, ao mesmo tempo que é tangível. Este espaço é responsável por receber e moldar as cópias sensíveis das Ideias, tornando assim possível a sua existência no mundo sensível.
Neste sentido, e como afirma Raymond Bayer, “a metafísica platónica é uma estética formada pelas Ideias que [...] verificamos, no termo da dialética, por um salto, por uma espécie de intuição intelectual, temos a visão das Ideias. Logo, a exerção suprema excede o intelectual e pertence à intuição da inteligência, domínio próprio da estética”.36 As Ideias são apreendidas pelo raciocínio e o intelecto, não pela opinião que, por sua vez, é associada à subjetividade individual e, acima de tudo, à sensação. As obras de Rui Chafes, ao requisitarem também uma inteligibilidade, dirigem-se inicialmente aos sentidos pare se consumar uma experiência de feição espiritual.
Anterior ao nascimento do nosso corpo e da nossa materialidade, Platão acredita que foi gerada a alma; esta foi gerada de maneira a cumprir uma única finalidade, a de conceder vida, desígnio e movimento ao corpo. A alma é anterior à criação do mundo sensível, feito a partir do mundo inteligível; é justamente no mundo sensível, criado pelo Demiurgo, que opera uma duplicação material do mundo ideal que a alma vai cair por efeito de uma degradação que Platão nunca explica, a passagem da alma pelo mundo do tempo e do espaço é considerada uma queda.
A prisão da alma é a materialidade do corpo, quando ela se depara com a Beleza, anseia, libertar-se e regressar ao mundo anterior à sua queda; Platão define a alma como eterna e imortal, sendo que a Beleza reside essencialmente nas almas, por estas participarem daquele que é o mundo das Ideias.
No diálogo Fedro, o filósofo explica a queda da alma humana, que após ter vivido no mundo superior, o inteligível, caiu no mundo sensível, onde se uniu a um corpo, materializando desta forma a sua existência. Platão refere também neste diálogo que, durante a sua vida terreste, os filósofos e os homens nunca conhecerão nada a não ser através da anamnese.
36 BAYER, Raymond – História da Estética. Lisboa: Editorial Estampa, 1978, p.37.
Em grego, anamnese significa reminiscência, é um ato de recordação da alma, à semelhança de uma memória esquecida, associada a um estado prévio da sua existência, ao período anterior à queda. Através da anamnese, o indivíduo reencontra a Verdade dentro de si, ascendendo a alma ao mundo inteligível, recordando, deste modo, o lugar onde viveu antes de habitar o mundo sensível. Ao ver as coisas sensíveis, a alma é capaz de reencontrar, pela semelhança entre a forma física dos objetos e as ideias que lhes serviram de modelo, a essência inteligível, isto é, a Verdade. Para Platão, a perceção da Beleza desencadeia um processo anamnésico no qual se atualiza a recordação de um conhecimento prévio ou seja do verdadeiro real.
O único ser capaz de conseguir transformar objetos em Ideia é o Homem, o seu conhecer é, deste modo, um recordar de algo que se encontra no interior da alma humana; esta, através dos sentidos, desloca-se até ao seu cerne, onde confronta os dados da experiência vivenciada com as ideias que originalmente nela residem, tornando possível atingir o conhecimento, através da recordação de arquétipos. O conhecimento reside no re-conhecimento que a alma faz da Ideia, quando, nos objetos, re-conhece a semelhança que estes mantêm com o mundo inteligível, que foi o modelo da sua conceção, como já referimos.
Numa sociedade materialista e presa à sua condição mundana, as obras de Rui Chafes surgem como sombras, negativos que se tornam presenças enigmáticas em colisão com o mundo onde se encontram, ansiando pelo lugar imaterial de onde vieram e para onde
“regressarão”, por via da experiência estética. Na realidade a única escultura que interessa ao artista é precisamente a “não escultura”, aquela que “é apenas uma sombra, que existe entre, que é um negativo, um negativo do mundo, a escultura fugitiva, que não quer pertencer ao mundo”.37
O artista acredita que a humanidade se encontra prisioneira daquele que é o seu próprio corpo; na realidade os seus corpos são “apenas resquícios que habitam um mundo mal feito, incorrecto, mal construído, desconfortável, errado”.38 Enquanto matéria também a escultura é impura, suja e errada, Chafes defende que a nossa única esperança recai nos objetos que tenham um estatuto de pensamento, só estes poderão ser uma “uma criação
37 CHAFES, Rui in MATOS, Sara Antónia – Rui Chafes - Sob a Pele. Lisboa: Documenta, 2018, p.124.
que ignore o erro, o peso, a sujidade, a impureza”.39 Para o escultor, todos os objetos que não advêm de uma ideia, são sujos e errados, como refere.
Ao considerar a própria matéria impura, suja e errada, surge na sua prática escultórica uma contradição, pois apesar de o artista a elevar a um estatuto de pensamento, não é possível impedir que esta seja um objeto, sujeitando-se ela própria à materialidade que a prende. Neste sentido, resta-lhe apenas a “esperança do objeto”, onde a palavra aparece como a única salvação possível, da redução do objeto à ideia, por via da transcendência.
O objeto apenas é necessário para provar a sua não-existência, a “escultura é apenas uma hipótese; não é um momento absoluto, é apenas um exemplo. Um objeto é apenas uma ausência não se pode acreditar nele”.40
A verdadeira dificuldade do escultor reside na impossibilidade de fugir à matéria, fato que o leva a afirmar: “construo objectos em ferro sem acreditar na existência de objectos, sem acreditar em matérias. Por isso todos estes objectos têm de ter um estatuto de ideia.
É essa a dificuldade, o eterno paradoxo: criar objectos de matéria para provar que eles não existem. Não acredito em objectos, mas sei que só posso demonstrar a sua ideia por meio de objectos. É tudo que me é possível fazer”.41 É necessário que o objeto tenha o estatuto de ideia, já que o objeto artístico é apenas uma possibilidade, nunca uma certeza, só uma tentativa:
A distância angustiante entre a matéria e o nome, entre a nossa vontade perceptiva e o estado real do objecto, testemunha a fuga do objecto: deixa de ser para querer ser. Rigorosamente, os objetos tornam-se discursos de ausência, de deslocação. Não há objecto, há a todos os níveis a esperança do objecto. Ele é a especificação da fuga. A ausência é a forma de consciencializar uma afeição. Os objectos estão na sua deslocação. Não são produtos mas estados de movimento: existências em fuga. A ausência torna-se válida como forma criada.
No entanto, a falta de realidade sofrida pelo objecto nunca nos faz aproximar dele. Pelo contrário, é sempre a aparência de realidade que nos faz desconfiar dele. Mas, realmente o que amamos é a deslocação, a ausência, a esperança do objecto.42
Quando Rui Chafes constrói os seus objetos não o faz com o intuito destes serem admirados ou contemplados, mas, antes para serem pensados e transformados por parte do observador elevando-os a um estatuto de Ideia, numa tentativa de re-encontro com a
39 CHAFES, Rui – A Vocação do Medo. Porto: Galeria Atlântica, 1990.
40 CHAFES, Rui – O Silêncio de... Lisboa: Assírio & Alvim, 2006, p.41.
41 Ibid., p.119.
42 CHAFES, Rui – A Vocação do Medo. Porto: Galeria Atlântica, 1990.
Verdade, a Bondade e a Beleza desaparecida, intangível e absoluta. Com as suas esculturas, oferece ao espectador a possibilidade de se transformar e, por alguns momentos, evadir-se deste nosso mundo corrompido, proporcionando-lhe assim uma experiência estética ímpar. Os transcendentais da Verdade, da Bondade e da Beleza surgem então como universais que condicionam e tornam possível a experiência estética.
Fora deste contexto da experiência purificadora através da Arte, o objeto acaba por se tornar matéria, pois sem a existência de um observador o fim estético do objeto não é completado nem cumprido. Este facto revela a importância determinante da necessidade de ativação da escultura pelo espectador.
Para habitar este mundo, onde existe matéria os seus objetos assumem formas, as quais, apesar da sua estranheza acabam por demonstrar uma certa familiaridade com o espectador, acabando por captar a sua atenção. Acontece que quando tentaram evadir-se durante a queda, para regressarem ao lugar onde pertencem, um lugar onde não existe a corporeidade, ou seja o lugar do Espírito, da Beleza, onde reside apenas a Verdade, os objetos ficaram encarceradas neste mundo, cobertos de cinza.
O escultor fere-nos, desperta-nos, confronta-nos com a nossa queda, e acima de tudo com a nossa finitude. As suas esculturas transmitem também uma sensação de fragilidade e leveza, encontram-se em situações limite, de um grande risco, na iminência da sua permanente queda, num estado de equilíbrio instável entre a presença e a ausência.
Ansiando para que sejam reconhecidas, o encontro com o observador dá inicio e desencadeia aquele que é considerado como um processo analogamente anamnésico. Ao depararmo-nos com as esculturas de Rui Chafes, constatamos que estas funcionam como uma espécie de catalisadores que parecem relembrar o processo gnosiológico platónico, e o lugar no qual a alma residia antes da queda; de modo análogo, o espectador, parece lembrar-se da verdadeira identidade dos objetos artísticos, das ideias, do pensamento que lhes deu origem.
Através deste processo, o espectador “relembra-se”, reencontra a verdadeira Beleza, transformando assim o objeto em ideia, libertando também a alma, que pretende reencontrar o mundo anterior à queda, e escapar, assim, à prisão que é o mundo material e impuro que a acolheu. Na verdade, o trabalho do escultor “é um trabalho de recusa e de ocultação do individuo e (do individual) através da única e mais nobre demonstração
do espírito: a forma pura. Só a forma pura guarda em si a força suficiente para superar o individual e tender para o universal”.43
Rui Chafes acredita que a salvação do homem se encontra na Arte, como forma da sua purificação e transformação: aqueles que recusam aceitar estes fatores estão condenados a ver a escultura como uma forma material e a continuarem presos a um mundo contaminado e corrupto. A Arte é um enigma, provoca um apelo ao pensamento, é um meio que nos liga ao espírito, não é explicável, só afeta quem realmente se encontra disponível para receber essa transformação. “A arte será sempre a fricção entre o mundo interior e o mundo exterior. A capacidade de transformar esse conflito numa forma possível é o trabalho dos artistas e dos poetas”.44
43 CHAFES, Rui – O Silêncio de... Lisboa: Assírio & Alvim, 2006, p.39.
44 CHAFES, Rui – Entre o Céu e a Terra. Lisboa: Documenta, 2014, p.42.