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O FENÔMENO AMBIENTAL EM MOÇAMBIQUE

A QUESTÃO AMBIENTAL EM MOÇAMBIQUE (1980 – 2000)

Segundo o relatório do programa nacional de gestão ambiental, a perspectiva ambiental foi um assunto inédito para Moçambique. No período antes da independência a questão ambiental em Moçambique jamais recebera a devida importância no conjunto das ações de desenvolvimento, limitando-se apenas a algumas medidas de conservação de florestas, fauna e ações esporádicas para proteção da costa, (PNGA, 1996).

Segundo Amaral (2014), a década 1980 foi um marco na história ambiental moçambicana, visto que as questões ligadas ao ambiente começaram a ter uma real atenção no nível do governo e da sociedade civil internacional presente no país. Assim, a preocupação ambiental em Moçambique despontou como consequência do processo de universalização da questão ambiental (inicio do Séc. XX), e como um dos requisitos para melhor adequação às exigências internacionais de financiamento ao processo de desenvolvimento.

Quer dizer, a visão governamental era marcadamente virada à necessidade de se alcançar uma solução para a vitória no combate à pobreza e a crise socioeconômica ora instalada, e foi com este objetivo que Moçambique envolveu-se na problemática ambiental global e ratificou as várias convenções relativas a proteção do ambiente e os diversos instrumentos políticos-ambientais no nível interno, pois estes protocolos internacionais vinham acompanhados de pacotes de financiamentos.

Moçambique enquadra-se no grupo dos países em vias de desenvolvimento, e como tal, a problemática ambiental em si nunca fora prioridade nacional, pois as prioridades centravam-se no combate à pobreza e a busca urgente de solução para a crise política, social e econômica instaurada no país. Desde o início da década 1980, o governo moçambicano instituído em 1975, adotou a perspectiva ambientalista dominante no nível internacional, segundo a qual as atividades do homem

17 Este capítulo da tese é em parte baseado na dissertação de mestrado intitulada: “O PROCESSO DE

INSTITUCIONALIZAÇÃO DA QUESTÃO AMBIENTAL EM MOÇAMBIQUE, 1980 – 2000”, defendida na Universidade Federal Fluminense (PPGS) no ano de 2014. Nela destacamos o fato de na década 80 em Moçambique, ter-se iniciado uma transição de um sistema econômico centralmente planificado para uma economia de mercado, e o fato de este processo ter sido marcado por uma gradual descentralização da administração pública e pela consideração transversal das questões ambientais. Fundamentados no fato de hodiernamente, as pesquisas e estudos ambientais apresentarem-se globalmente como primordiais para a multiplicidade de campos do saber, procuramos com esse estudo, refletir sobre o processo de institucionalização da questão ambiental em Moçambique, tendo como principal objetivo, entender os contornos políticos e econômicos, do que consideramos como tendo sido o início do processo de institucionalização da questão ambiental (de 1980 a 2000). Apresentamos aqui os resultados nela obtidos, por se mostrarem pertinentes e ricos em dados e fatos que nos auxiliarão a melhor explorar o objeto da tese pretendemos aqui defender.

constituíam uma crescente preocupação global, concretamente por causar danos ao ambiente e ao sistema climático, perigando a vida dos seres vivos na Terra, (AMARAL, 2014).

Com vista a reverter esta situação, o governo moçambicano aderiu às várias iniciativas mundiais, por forma a permitir que o planeta continue habitável para a presente e as futuras gerações, destacando-se como exemplos, as convenções do Rio-92 que contempla a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (em inglês UNFCCC), Combate à Seca e Desertificação (em inglês CCD) e a Convenção sobre a Diversidade Biológica (em inglês CBD), os princípios ratificados formalmente na CQNUMC (Convenção Quadro das Nações Unidas para Mudanças Climáticas) e o Protocolo de Quioto.

Nisto, fica claro que o fenômeno ambiental em Moçambique é sem dúvida resultado da interação entre dois grandes atores: por um lado o Estado e o Governo Moçambicano (de 1975 em diante) e por outro, as instituições transnacionais como a ONU, o Banco Mundial, o FMI.

De acordo com Amaral (2014), a história de Moçambique nesse período iniciado na década 1980, foi marcada por redefinições aos mais diversos níveis das esferas sociais, evidenciadas por uma série de movimentos (econômicos, políticos), com o intuito de modificar as políticas públicas, os processos produtivos e o estilo de vida da sociedade, em favor de um modelo de desenvolvimento que se pretende sustentável em todos os níveis das esferas sociais, com o objetivo de incorporar práticas ambientalmente sustentáveis em todas as componentes da vida humana moçambicana. Estas transformações sofridas no quadro político-econômico moçambicano enquadram-se no nível global num contexto histórico marcado por controvérsias ambientais no nível político e econômico.

Moçambique viveu as consequências da mudança de paradigmas de desenvolvimento no nível global, onde se passou de uma visão do mundo que pregava a ideia de um desenvolvimento baseado no crescimento econômico contínuo, na conquista e transformação da natureza, na utilização excessiva dos recursos, na produção industrial em massa, para uma nova visão marcada pelo paradigma da sustentabilidade.

De fato a política pública ambiental de Moçambique sofreu influência direta das consequências globais da conferência de Estocolmo (1972) e da abordagem do Eco- desenvolvimento (SACHS, 1976). Onde o ambiente passou a ser entendido como aspecto transversal de um modelo de desenvolvimento que somente se tornava possível pelo equacionamento do trinômio: equilíbrio ecológico, eficiência econômica e equidade social (CARVALHO, 1987).

Esta proposta reformou a trajetória socioeconômica global, fazendo com que medidas a todos os níveis fossem acionadas para substituir o modelo de produção crescente pelo do equilíbrio global,

lançando mão desta via intermediária surgida em junho de 1973, acrescentando para além das questões ambientais, as sociais, as de gestão participativa, ética e a cultural, (GONÇALVES, 2005; ONU, UICN, WWF: Relatório Brundtland).

De acordo com Amaral (2014) as convenções uma vez ratificadas abriram portas para o alcance de vários benefícios, sobretudo econômicos e políticos, que devido ao contexto moçambicano se tornaram verdadeiras boias de salvação, na medida em que se apresentavam como pacotes completos não só instruindo sobre como implementar as convenções, mas também acompanhados de programas de financiamento, educação, treinamento, informação e formação pública, participação do público, acesso do público à informação e cooperação internacional, justamente para incentivar ações que facilitariam a implementação das convenções ambientais, de modo a favorecer o desenvolvimento e a transferência de tecnologias para os países menos desenvolvidos, através de fundos das convenções, fundos dos protocolos, entre outros (CQNUMC, art.º 4 e 6, Cop7, 8).

Num compito geral as instituições ambientais moçambicanas apresentam hoje uma estrutura, regulada por normas, regras e códigos de conduta sancionados pelo Estado, e que demandam uma organização hierárquica (autoridade e subordinação). Este quadro institucional ambiental moçambicano cristalizou-se consideravelmente na década 1990, anos nos quais a questão ambiental foi alargada a quase todos os sectores do Estado moçambicano, por um lado como forma de realizar várias das recomendações surgidas na conferência de Estocolmo e por outro, como forma de apetrechar e modernizar o quadro político ambiental nacional (AMARAL, 2014).

Com este estudo foi possível observar uma crescente institucionalização ambiental em Moçambique, contudo, apesar de estar estabelecido um quadro burocrático eficiente, em termos de possibilidade de associativismo em prol do ambiente, consideramos uma forte necessidade de articulação de meios a todos os níveis, desde o governamental, movimentos sociais, parceiros nacionais e internacionais, e outros envolvidos, de modo que a demanda ambiental se torne institucionalizada ao nível da consciência do cidadão moçambicano, garantido assim maior êxito na implementação das políticas públicas ambientais e, funcionando como verdadeiros meios através dos quais o cidadão moçambicano pode ajustar-se ao ambiente natural, social e/ou sobrenatural18.

As instituições moçambicanas voltadas para o ambiente desempenham um papel fundamental no processo de socialização enquanto instituições culturais, na medida em que definem

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Na medida em que muitas das áreas conservadas ou de conservação ambiental em Moçambique, são também determinadas em função de práticas mágico-religiosas ligadas ao território, são espaços sagrados.

as posições, status e os papéis das partes envolvidas no processo de institucionalização ambiental, ou seja, elas têm igualmente como objetivo fazer com que um indivíduo se torne membro da sociedade na sua totalidade, abarcando também o aspeto ambiental. Podemos ainda considerar que as instituições ambientais moçambicanas se propõem a assegurar que os atores individuais, particulares e coletivos no contexto moçambicano, atuem sobre uma base de interesses, mas sempre resguardando o interesse pelo ambiente, daí a importância do papel do Estado e das políticas públicas, que incidam na fiscalização e regulação da persecução destes interesses.

Em Moçambique as iniciativas e alternativas de desindustrialização com vista a limitar a depredação ambiental são aplicadas somente com um alcance marginal, devido a fatores ligados a limitada viabilidade econômica e ao seu escasso suporte político-ideológico, pois que ainda que velado ao nível dos discursos político da sustentabilidade, coexiste ainda que como resquício do paradigma anterior de desenvolvimento, a ideia da exploração e perpetuação da dominação da natureza e do alcance de um crescimento econômico a todo custo.

Os processos de reestruturação ambiental em Moçambique estão se desenvolvendo num contexto de maior interdependência entre as instituições, especialmente nas dimensões política e econômica, onde os atores econômicos privados, os mecanismos econômicos e de mercado exercem papel cada vez mais relevante neste processo de (re) estruturação ambiental, buscando a substituição do modelo ambiental top-down, como inicialmente se adotou, para um modelo de normatização ambiental participativa, através do qual o desempenho e a avaliação dos processos ambientais em todos os níveis do social moçambicano, passaram a ser assentes em critérios ecologicamente desejáveis.

Existe ainda uma dependência das instituições ambientais, principalmente no que tange a economia, mas a existência de um sector ligado ao ambiente em todos os órgãos do estado Moçambicano, já revela a consideração do ambiente como uma esfera que se pretende autônoma, capaz de influenciar o desempenho de todas as outras esferas sociais.

Este processo de “ecologização” da economia, da política e do sistema sociocultural, apesar de marcado por diferentes interesses, conflitos, lutas sociais e debates ideológicos, devido à complexidade dos processos em andamento e os diferentes atores envolvidos, não representa de modo algum, e nem seria a manifestação do anseio de supremacia sobre as outras esferas sociais moçambicanas, mas seria a busca pelo gozo de legitimidade social, de modo relativamente independente das outras esferas. Em outras palavras, as práticas ambientais seriam concebidas e avaliadas de acordo com todas as esferas sociais, com todas as racionalidades incluindo a

racionalidade ambiental, visando como resultado o justo reconhecimento dos interesses de todas racionalidades e esferas da ação social de acordo com critérios e fins peculiares.

O nosso recorte temporal permitiu identificar a primeira ação governamental em prol da questão ambiental nos anos 80, o que não quer indicar que de 1975 a 1980, não tenha existido nenhuma ação em prol do ambiente, como por exemplo, o regulamento para proteção das florestas e a necessidade da dinamização da agricultura, estas e outras ações eram favoráveis ao ambiente, mas não tomadas e realizadas com a visão sobre a problemática ambiental, introduzida a partir de 1980 sobre a questão ambiental global e seus imperativos a escala global e local, contudo observamos que o grau de institucionalização ambiental em Moçambique no período de 1980 a 2000 foi insipiente e marcado pela grande necessidade do aprimoramento dos recursos humanos e da capacidade de autos sustento em termos de recursos financeiros.

Apesar de toda influência externa que possa ter existido neste processo de institucionalização ambiental, é importante não colocar em causa a soberania do Estado moçambicano nestas negociações com as instituições multinacionais, na medida em que a adesão do governo Moçambicano à agenda ambiental global foi uma ação racional e hegemônica, visando a incorporação da componente ambiental global, para análise e resolução de problemas no nível local.

Além disto, independentemente do modo como surgiu à questão ambiental em Moçambique, esta representou um ganho e um avanço na medida em que permitiu uma maior tomada de consciência em relação a necessidade de uso sustentável do ambiente ainda que no nível institucional, conquanto o fato dos fatores exógenos terem influenciado o processo de surgimento da questão ambiental em Moçambique, não significa que tenha sido por imposição, mas sim através de um processo negociado.