EVENTOS EXTREMOS EM MACHANGA
MANDAUS AO RELENTO ENTRE O RIO E O OCEANO
Viajar de Maputo a Machanga não é uma aventura para debutantes. A viagem de machimbombo (autocarro) leva quase 16 horas entre paragens e aceleradas. São no total são 1212 quilômetros percorridos num autocarro de conforto animal (condições desumanas). Diferentemente da viagem de 2015, que tinha sido de reconhecimento, desta vez (2017) nos deslocamos a Machanga para cumprir com os protocolos de campo, nomeadamente: apresentar-se, conhecer e entrevistar as autoridades distritais e das localidades, inteirar-se sobre possibilidades de deslocamento aos postos administrativos (Maropane, Divinhe, Chiloane e Djavane), como e quais as distâncias a se percorrer de uma a outra localidade, possibilidades de meios para comunicação, transporte e hospedagem, e familiarizar-se com a língua local (NDAU).
Estávamos na vila sede de Machanga. Lá não há bancos ou serviços bancários, para se beneficiar destes serviços é necessário deslocar-se ao distrito de Guvuro, na província de Inhambane. A viagem dura em torno de 30 minutos, dos quais 20 caminhando pela margem do rio Save e 10 atravessando o rio de Canoa. Não existe ponte que ligue estes dois pontos e nem barcos a motor ou a vela que façam esta travessia de forma mais segura. Digo segura, pois quando há maré alta existe o perigo dos Crocodilos e Hipopótamos na travessia.
Nestas travessias pudemos notar que é possível encontrar muitas casas ao longo da margem do rio Save, numa distância curta, de aproximadamente 15 metros da margem. Estas populações são geralmente as que mais sofrem com os eventos extremos que aqui ocorrem, e quando atingidas ou em risco de serem atingidas por algum fenômeno ambiental extremo são aconselhadas a dirigir-se para as zonas altas, e para os abrigos designados pelo governo, através do INGC.
Todavia, as pessoas aqui não aceitam fácil mudar desta região, alegam questões econômicas e sociais. Há um tempo o INGC construiu 130 casas na zona alta, na vila nova, no sentido de abrigar as vítimas de desastres, mas as pessoas somente permaneceram lá o tempo necessário para o perigo passar e se negaram a permanecer por lá para sempre, visto que este local fica muito longe das suas zonas de produção agrícola, longe do rio e das terras propícias às plantações. Segundo dizem, o lugar não tem água potável e nem possibilidade de negócios ou de produção de comida, assim as pessoas voltam para estas regiões e abraçam o risco.
O caminho até ao rio Save é marcado por solos arenoso-fluviais e argilosos, e pudemos notar a existência de muitos buracos, fruto da extração de areia para a construção e para o comércio. Visto que têm muitas casas que se encontram bem próximo às margens do rio, estes buracos acabam
favorecendo as enchentes e a perda de culturas agrícolas ali praticadas, bem como propiciam transformações no ecossistema e no relevo.
Figura 07. Deformação do relevo dada a extração de areia. FONTE: Arquivo do autor.
Em Machanga a maior parte das casas é construída com material precário, argila, pedras, estacas e capim. As casas melhoradas são cobertas de chapas e construídas com Blocos, ferro e cimento. Não existe estrada asfaltada em Machanga. As deslocações são feitas por carros, principalmente 4x4, que geralmente pertencem às instituições do governo, por motorizadas, bicicletas e ainda por carroças de tração animal.
O arrendamento de um quarto, para hospedagem custa entre 500 a 2.000 meticais por dia (USD10 a USD 40 por dia), sendo que grande parte da população no distrito, vive com menos de USD1 por dia, estas hospedagens na sua maioria pertencem a indivíduos que não vivem em Machanga regularmente.
O período de Outubro a Dezembro é conhecido como época seca. Quem chega nesse período em Machanga, logo percebe os muitos sinais que a seca traz: muitos animais magros, e alguns já a
morrerem de fome e sede, visto que a água do rio nestes períodos saliniza-se, tornando-se imprópria para o consumo. Uma das estratégias locais nestes períodos de seca é soltar os animais domésticos pelas ruas da vila, pois por não ser tempo de plantação podem circular à vontade e encontrar alimento pelas redondezas, sem representar perigo para as machambas da comunidade.
A energia usada em Machanga vem da subestação de Vilanculos, e é produzida a base de gás natural, pela SASOL, uma empresa sul-africana a operar em Moçambique.
Na localidade Sede de Machanga existem três (03) antenas de operadoras de telefonia móvel. Isto permite aos cidadãos beneficiarem de todos os serviços prestados por estas operadoras, inclusive o uso de internet, sendo possível navegar pela web sem problema algum, desde que se esteja usando uma das telefonias como meio. Por este aspecto, em Machanga é comum o uso de
facebook, whatsap, email, entre outros aplicativos.
Não existe instituição de ensino superior em Machanga-Sede, somente 02 (duas) escolas secundárias, e uma primária. Quem termina o ensino médio tem de se deslocar a algum ponto do país para que possa gozar deste benefício público, a educação. Questionado sobre as cheias e seu impacto, nossos interlocutores davam resposta lógicas e direcionadas a um entendimento comum que julgamos interessante e problematizamos ao longo desta pesquisa.
Em conversas pela Vila logo percebemos que o assunto dos eventos extremos é cotidiano, faz parte da vivência cotidiana daquelas comunidades, a explicação para condição em que vivem encontra-se nas interações sociais que se estabelecem com os outros, dizem-nos, por exemplo, que o grande problema da comunidade não é a chuva, pois para eles as chuvas não causam cheias, as cheias são provocadas pela abertura das comportas em outros países, como o Zimbabwe.
As cheias são vistas como parcialmente benéficas, pois elas dessalinizam a água do rio, pois no período de seca, as águas do oceano invadem o afluente do rio e tornam a água salgada, faltando assim água para alimentar os animais. Pelo fato da geomorfologia da região apresentar-se em forma de escadaria, baixando em direção ao ESTE e crescendo em direção ao continente, OESTE, entende- se que quando os países do interland que apresentam maior elevação na composição do seu relevo abrem as “comportas das barragens”, Machanga que se situa no limite com o oceano é inundada, visto que seus terrenos são arenosos argiloso-fluviais, quer dizer, tem pouca capacidade de infiltração.
Contudo, a percepção é que essas cheias são benéficas porque trazem a água doce de volta e empurram as águas do oceano (Salgadas) de volta ao seu lugar, apesar de destruir as plantações e
matar animais, e outros bens. A percepção que se tem é que as chuvas não são causadoras das cheias, as chuvas são desejadas. As inundações surgem da abertura de comportas, pelos países vizinhos.
No distrito existe um ponto focal do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades. Ele é responsável pelas localidades de Divinhe, Machanga-Sede e Chiloane, e ocupa também o cargo de secretário para Mobilização da Organização da Juventude Moçambicana. Ele foi quem auxiliou no trabalho de campo.
Em seguida fomos à localidade de Divinhe. Divinhe dista a 100 quilômetros da Villa sede, mais ou menos 2h: 30min. É possível encurtar esta distancia para 65 quilômetros, contudo as condições de viagem mudam drasticamente. A estrada é de terra batida, praticamente improvisada, um corta
mato típico e verdadeiro como localmente se diz. Ao longo da estrada, cruzamos afluentes
ocasionais do rio Save que são ocupados pelas águas salgadas do oceano Índico e desaparecem no período de seca.
Pela força das águas do oceano acabam surgindo lagoas ao longo do caminho, em função da vasta planície que aqui se apresenta. Cruzamos uma delas, que é a planície de Mafoia. Esta representa o celeiro do sal na província de Sofala. Daqui são extraídas grandes quantidades a serem e comercializadas diariamente. Esta é uma das principais atividades econômicas da região e envolve um número significativo de trabalhadores, ainda que sazonais.
Bom, o fato de cruzarmos 03 afluentes chamou nossa atenção para o fato de, no período chuvoso esta ser uma região padrão de vulnerabilidade socioambiental, visto que a atividade de extração de sal é interrompida, bem como inviabiliza a comunicação rápida via terrestre entre Divinhe e o resto do distrito, sobrando como opção percorrer os 110 quilômetros de estrada alcatroada e esburacada em grande extensão, e ainda assim com alta possibilidade de fracasso.
Não há asfalto em Divinhe e as casas seguem o mesmo padrão de Machanga-Sede, com exceção das casas do governo e alguns membros comunitários. Em Divinhe fica o cais que nos permite chegar a ilha de Chiloane. Este cais é de madeira, inteiramente precário, não oferecendo segurança alguma, e suas embarcações são canoas a remo, que levam 3 a 5 horas para chegar ao destino, se pretende ir mais rápido, 30 a 45 minutos, deve-se alugar um barco ambulância que ali se encontra. O pagamento do aluguer deste barco é feito a base de combustível, 30 litros para ir e voltar de Chiloane.
Chiloane é uma ilha grande que fica ao sul de Sofala. Conta com mais de 11.500 habitantes e é onde a riqueza pesqueira de Sofala “dorme”. Os problemas ligados à vulnerabilidade social se multiplicam na “calada da noite” e a erosão costeira avança solta.
Numa reportagem intitulada: “Chiloane: Muito dinheiro numa ilha em risco”, o escritor Eduardo Sixpence35, elucida sobre alguns pontos a levar em conta numa primeira abordagem a realidade de Chiloane e com a qual nos identificamos muito pelo fato de ter enfrentado semelhantes dificuldades e notado pontos de analises coincidentes em relação à percepção do risco ambiental e os aspectos culturais em Machanga.
Para chegarmos a Chiloane foi preciso percorrer mais de 100 quilômetros da vila-sede distrital de Machanga à localidade de Divinhe, com a rodovia a oferecer inúmeros problemas ademais que não dispúnhamos de transporte particular e nem o governo distrital de motorizada ou algum veiculo, tivemos que improvisar a viagem. 50 quilômetros do caminho é parte de um dos afluentes do ria Save totalmente seco dado à época.
Contudo, aquele ponto tornasse intransponível em tempo de chuva forte, fazendo com que se dê uma volta pela estrada principal que acrescenta uns 70 quilômetros à viagem. Nas primeiras considerações dos entrevistados surgiu a ideia da ilha como lugar de azar. Esse azar advém do fato de a ilha receber constantemente pesquisadores e inquiridores que vêm saber como é a vida dos residentes e se algo mudou, contudo depois disso nada muda e nada acontece.
Depois que se chega a Divinhe, atravessasse o oceano índico a barco, de um dá para lançar o olhar sobre um mangual abundante mais com sinais de impotência perante a fúria das águas. Logo a chegada à Ilha de Chiloane, A primeira coisa que desperta a atenção é o nível alto da erosão, que assim como para Sixpence (2009) foi o nosso cartão de visita. É sem dúvidas o primeiro problema visível, a ilha está a perder terreno devido à fúria das águas do Oceano Índico, ciclones e ventos fortes. Para muitos residentes tratar-se de um assunto que carece de uma intervenção de grande vulto, com o envolvimento do Governo Central apoiado pelos parceiros de cooperação.