FENOMENOLOGIA E AMBIENTE: TEORIA E CONCEITOS
VULNERABILIDADE SOCIOAMBIENTAL
A vulnerabilidade é o grau pelo qual um sistema é suscetível ou incapaz de enfrentar efeitos adversos da mudança, incluindo a variabilidade e os extremos do clima; É função do caráter, magnitude, rapidez da mudança ambiental e da variação a que um sistema está exposto, sua sensibilidade e sua capacidade de adaptação (IPCC, 2001).
Assim, a vulnerabilidade também pode ser entendida como um conjunto de situações problemáticas, que posicionam o indivíduo em uma condição de carente, necessitado e impossibilitado de responder com seus próprios recursos a dado litígio que ele vive e que o afeta.
O conceito de vulnerabilidade tem suas raízes no estudo do risco de eventos naturais, podendo se definir ainda como as características de uma pessoa ou grupo em relação a sua capacidade de antecipar, de fazer frente a, de resistir e de se recuperar de um impacto e risco natural ou social. Implica uma combinação de fatores que determinam o grau no qual a vida e a forma de vida de alguém, são colocadas em risco por um evento discreto e identificável na natureza e na sociedade (BLAIKIE et al., 1994). Literalmente uma relação existente entre a possível intensidade do dano e a magnitude da ameaça, caso ela se concretize como evento adverso.
O estudo sobre vulnerabilidade de populações às mudanças climáticas e sua variabilidade , bem como a capacidade adaptativa, é um campo relativamente novo se considerarmos a interdisciplinaridade em voga. Todavia, vários são os pesquisadores que se têm dedicado ao estudo da relação entre os conceitos de vulnerabilidade e adaptação9.
Segundo Martins & Ferreira (2012) existem perspectivas diferentes quando se aborda sobre vulnerabilidade nas ciências sociais e nas ciências naturais. Defendem que as ciências naturais no geral entendem a vulnerabilidade a partir da possibilidade de ocorrência de danos ou perdas, que tragam impactos advindos de eventos hidrometeorológico num determinado espaço. Enquanto que as ciências sociais vêm vulnerabilidade como a representação de um contexto socio-histórico, influenciado por fatores socioeconômicos e culturais que em si representam uma capacidade de
9 Para aprofundar este tema ler: CUTTER S. L. 1996. Vulnerability to environmental hazards. Progress in human
Geography, V.20, n. 4, p. 529-539.
IPCC. 2007; Synthhesis Report. Cambridge: Cambridge Universit Press.
PELLING, M. 2010 Adaptation to Climate Change:From resilience to transformation. New York: Routledge.
ADGER, W.N.; HUQ, S.; BRON, K.; CONWAY, D.; HULME, M. Adaptation to climate change: Setting the agenda for development policy and research. Tyndall Center for climate change research working paper 16.
HOGAN D. J.; MARANDOLA Jr. E.; 2005; Towards na interdisciplinary conceptualisation of vulnerability. Population, Space and Place. V.11, n. 6, p. 455-471.
resposta. Para análise da vulnerabilidade e das potencias perdas e danos decorrentes dos perigos ambientais são necessárias condições gerais como uma unidade de análise (comunidade, país, localidades) e pela quantidade de recursos existentes para se responder a estes apelos.
Os estudos sobre vulnerabilidade socioambiental concentram-se em duas categorias. A que vê a vulnerabilidade em termos de extensão ou potencial dano, e a segunda visão que analisa a vulnerabilidade como um estado dinâmico de uma determinada comunidade. Como bem disse Marandola (2014), não existem comunidades 100% vulneráveis e nem 100% invulneráveis.
De acordo com Martins & Ferreira (2012), a primeira visão sobre vulnerabilidades surge a partir das avaliações de risco e impactos na década de 1980, onde se atribuía menor importância às atividades humanas na mediação das consequências dos eventos de origem hidrometeorológica, quer dizer, concentravam esforços em determinar a exposição humana aos perigos, dando pouca importância para consideração da capacidade adaptativa da sociedade e dos indivíduos, sua a capacidade de responder a estes perigos ambientais de forma antecipada e reativa.
É a clássica forma de ver a vulnerabilidade como fruto da combinação de 03 elementos: perigo, exposição e sensibilidade. A este tipo de análise pode se chamar avaliação de vulnerabilidade natural. A vulnerabilidade natural depende da frequência e da probabilidade ocorrência de um determinado tipo de perigo. A segunda visão vê na vulnerabilidade uma condição de vida de uma determinada comunidade, e surge a partir dos estudos que buscavam investigar os aspectos estruturantes que tornava o grupo susceptível aos eventos climáticos.
Nesta perspectiva a vulnerabilidade é vista como algo inerente ao sistema. É fruto das características históricas e que ficou conhecido. A vulnerabilidade social é determinada por diferentes formas de privação que envolve fatores como a pobreza, desigualdade e exclusão, Insegurança Alimentar, e falta de moradia adequada. A vulnerabilidade social não segue a mesma lógica, ela depende do nível de preparo para suportar e responder aos impactos advindos dos eventos extremos numa determinada população. Muitos fatores determinam o resultado de um perigo sobre uma comunidade, independentemente das características geofísicas da ameaça, segundo os autores isto inclui as variáveis ambientais e as diversas formas de exposição socialmente determinadas, como, por exemplo, a proximidade do rio e do mar, ou a disposição do relevo.
Quanto maior exposição e sensibilidade, maior será a vulnerabilidade e por outro lado, quanto maior a capacidade de adaptação de um sistema, menor a sua vulnerabilidade. Vale ressaltar que ter capacidade de adaptação nem sempre significa a utilização efetiva desta capacidade, influenciando
assim a determinação da vulnerabilidade (IPCC, 2001), quer dizer, existem outros fatores determinantes.
“Vulnerabilidade tem se apresentado como um conceito promissor neste sentido, por incorporar, para além das áreas e populações em risco, também suas capacidades e estratégias de enfrentamento de situações adversas, incorporando outros elementos além das condições materiais para a compreensão das situações das famílias e domicílios em risco. Mais do que isso, vulnerabilidade tem se mostrado um conceito heurístico para adensar o sentido de segurança e proteção na sociedade contemporânea, funcionando como seu reverso, permitindo assim que seu enfrentamento signifique a promoção de segurança e de sustentabilidade, no seu sentido virtuoso” (MARTINS E FERREIRA 2012).
Este conceito de vulnerabilidade é abrangente e envolve distintos fatores e processos, por exemplo, a suscetibilidade e a predisposição das comunidades a serem afetadas, as condições que favorecem ou facilitam que aconteça uma perda ou desastre frente a uma ameaça.
O principal conceito é que um indivíduo está em vulnerabilidade socioambiental quando apresenta indicadores de exclusão social como sinais de desnutrição, condições precárias de habitação e deficiente saneamento, não possui estabilidade social, não possui nem emprego e nem trabalho, enfim, quando sofre exclusão social. A vulnerabilidade socioambiental é formada na intersecção entre indivíduos e o espaço em que ele vive, e é um termo geralmente ligado a pobreza, quer dizer, existência de indivíduos que estão dependentes de favores de outros (SEADE, 2001).
Os indivíduos nesta situação tornam-se impossibilitados de partilhar dos bens e recursos oferecidos pela sociedade e pela natureza. Assim, a vulnerabilidade ambiental e o risco social podem ser entendidos como sinônimos de pobreza, porém, um é consequência do outro, uma vez que a vulnerabilidade ambiental coloca as pessoas em uma situação de risco social, e o risco ambiental conduz os indivíduos à situação de vulnerabilidade ambiental. É nesta ordem de ideias, que nesta pesquisa consideramos que a vulnerabilidade ambiental é também social na sua essência.
“Vulnerabilidade social como o resultado negativo da relação entre a disponibilidade dos recursos materiais ou simbólicos dos atores, sejam eles indivíduos ou grupos, e o acesso à estrutura de oportunidades sociais econômicas culturais que provêm do Estado, do mercado e da sociedade. Esse resultado se traduzem debilidades ou desvantagens para o desempenho e mobilidade social dos atores” (AMBRAMOVAY, 2002, p.13).
Carvalho, Souza e Santos (2003) e Li, Wang, Liang e Zhou (2006), relacionaram vulnerabilidade a características do meio físico e biótico (declividade, altitude, temperatura, aridez, vegetação, solo), à exposição a fontes de pressão ambiental (densidade populacional, uso da terra, ocupação irregular) e à ocorrência de impactos ambientais (erosão).
A vulnerabilidade ambiental está relacionada ao grau de suscetibilidade de um sistema aos efeitos negativos provenientes das mudanças ambientais. Assim, ela pode ser definida como uma situação em que o meio físico está vulnerável às pressões humanas. Geralmente, estão presentes três fatores: exposição ao risco; incapacidade de reação; e dificuldade de adaptação diante da materialização do risco (TAGLIANI, 2002; METZGER et al. 2006).
Nesta perspectiva, a vulnerabilidade socioambiental pode ser entendida como dificuldade que uma comunidade enfrenta para resistir e/ou recuperar-se, após sofrer impactos decorrentes de eventos extremos, considerados normais ou atípicos, pois a vulnerabilidade ambiental está ligada a processos intrínsecos que ocorrem em um sistema natural, decorrentes do seu grau de conservação (característica biótica do meio), e a resiliência ou capacidade de recuperação após um dano; além de processos extrínsecos, relacionados à exposição a pressões ambientais atuais e futuras (VILLA E MCLEOD, 2002; VEYRET, 2007).
Uma das opções apontadas como eficazes para reduzir a vulnerabilidade socioambiental é o aumento da escolaridade e da qualidade educacional e cultural, pois se entende que com uma melhor e maior bagagem educacional e cultural as outras carências poderão ser supridas (KATZMAN, 1999a; 2001).
Este trabalho não pretende fazer uma análise exaustiva do conceito de vulnerabilidade, mas apresentar aspectos que permitam ao leitor ter uma noção em relação ao debate existente em torno do conceito e apresentar a perspectiva que este trabalho adota ao utilizar a noção de vulnerabilidade10.
Para se entender a questão do enquadramento das estratégias formais e informais na política ambiental, é preciso levar em consideração a distinção entre vulnerabilidade natural e social e o conceito de capacidade adaptativa. Cabe por fim ressaltar que em Moçambique a Estratégia Nacional de Adaptação e Mitigação de Mudanças Climática (ENAMMC, 2013-2025) define
10 Para aprofundar este tema ler: HOGAN D. J.; MARANDOLA Jr. E.; 2005; Towards na interdisciplinary
conceptualisation of vulnerability. Population, Space and Place. V.11, n. 6, p. 455-471.
ADGER, W. N. 1999. Social vulneraility to climate cange and extremes in coastal Vietnam. World Development, v. 27, n.2, p 249-269.
WISNER, B.; BLAIKIE, P. M.; CANNON, T.; DAVIS, I.; 2004. At Risk: Natural hazards, People´s vulnerability and Disaster. 2nd ed. London: Routledge.
VEYRET, Y. 2007. Os Riscos: O homem como agressor e vítima do meio ambiente. São Paulo: Ed. Contexto.
MOSER, C. 1998, The asset vulnerability Framework: Reassessing Urban Poverty Reduction Strategies. World Development, v.26, n.1, p. 1-19.
vulnerabilidade climática como sendo o grau de reação dos sistemas humano e ambiental ao experimentarem uma perturbação ou stress. Normalmente é descrita como sendo função de três características principais: grau de exposição a fenômenos climatérios, sensibilidade ao clima e capacidade adaptativa.