PARTE I CONTEXTUALIZANDO E PROBLEMATIZANDO
2. A história como progresso
2.1 A questão da felicidade
A filosofia kantiana da história não é mais uma versão panglossiana da história caracterizada por uma ingenuidade infantil, ou por uma exigência lógica do “melhor dos mundos possíveis”. Kant reconhece que ao se contemplar o palco do mundo, apesar da “esporádica aparição da sabedoria em casos isolados, tudo, no entanto, se encontra em seu conjunto, tecido de loucura, vaidade infantil e, com muita frequência também de infantil maldade e ânsia destruidora”.65 Também concorda com Rousseau, preferindo o estado dos selvagens ao estado atual de civilidade, caso a humanidade não progrida moralmente, pois é neste ínterim que ela “padece os piores males sob a aparência enganadora do bem-estar exterior”.66 Assim, pode-se observar que o
desenvolvimento humano está historicamente associado ao crescimento da miséria, da violência e da pressão social.67
Isso significa que o progresso na história não assume a felicidade como seu fio condutor. “A natureza quis que o homem tire totalmente de si tudo o que ultrapassa o arranjo mecânico da sua existência animal, e
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IaG,AA 08: 18.
66IaG,AA 08: 26.
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que não participe de nenhuma outra felicidade ou perfeição exceto a que ele conseguiu para si mesmo, liberto do instinto, através da própria razão”.68 Em outras palavras, “à natureza não lhe interessava que ele
vivesse bem, mas que se desenvolvesse até o ponto de, pelo seu comportamento, se tornar digno da vida e do bem estar”.69 À natureza interessa mais a autoestima racional do homem do que qualquer bem estar. Se não fosse assim, ela não teria colocado no ser humano aquela propriedade da insociabilidade “e os homens, tão bons como as ovelhas que eles apascentam, dificilmente proporcionariam a esta sua existência um valor maior do que o que tem este animal doméstico; não cumulariam o vazio da criação em vista do seu fim, como seres de natureza racional”.70 Uma formulação muito semelhante é usada dois
anos mais tarde, em 1786, num debate com Herder:
O senhor autor [Herder] realmente pensa que se os felizes habitantes do Taiti jamais tivessem sido visitados por nações civilizadas e estivessem destinados a viver em uma tranquila indolência por milhares de séculos, poderia-se dar uma resposta satisfatória à pergunta: por quê eles realmente existem, ou ainda, por quê a ilha não teria sido povoada por felizes ovelhas e bezerros, ao invés de homens envoltos na felicidade dos meros prazeres?71
A recusa da felicidade é acentuada por Kant em diversos escritos e sob diferentes perspectivas. Pode-se sumarizar a recusa da felicidade como o objeto central de consideração da filosofia da história em seis argumentos:
i. Contraria o princípio da parcimônia de uma natureza teleologicamente organizada, pois se a felicidade fosse o fim da natureza, seria muito mais fácil deixar o homem sob o comando do instinto do que dotá-lo de uma faculdade racional de volição;72
ii. Não é possível estabelecer um conceito determinado de felicidade, pois ele é um produto da imaginação, apenas uma ideia vaga e cambiável de um certo estado e que, por isso não pode servir para
68IaG,AA 08: 19. 69
IaG,AA 08: 20.
70IaG,AA 08: 21.
71RezHerder,AA 08: 65. Tradução própria. 72
35 estabelecer de modo seguro e determinado a meta do progresso na história. Por isso a felicidade é comparada a uma “figura de sombra”;73 iii. Mesmo que se fixasse o conceito de felicidade como satisfação das necessidades naturais, nesse caso, não se iria alcançar aquilo que o homem entende por felicidade, pois não é da natureza do homem se satisfazer com a posse do gozo empírico;74
iv. Com base na observação dificilmente se pode sustentar que o objetivo da natureza fosse a promoção da felicidade do homem, visto que ela não poupou o ser humano nos seus efeitos destrutivos, tal como a peste, a fome, as inundações além de catástrofes e perigos de toda espécie;75
v. Mas, mesmo que houvesse uma natureza benfazeja fora do ser humano, como explicar a existência dos males produzidos pelo próprio ser humano e fomentados pelo antagonismo de suas disposições (desejos de honrarias, de domínio e de posse), tal como as guerras e os vários tipos de misérias sociais;
vi. E, por fim, a felicidade não pode ser considerada como fim último da natureza pelo fato de que o gozo não pode ser visto como algo que a natureza faz para promover o fim terminal, em outras palavras, não é possível compreender como a felicidade pode ser considerada um meio para o fim terminal.76
Contudo, isso não significa que o progresso necessariamente precisa trazer consigo a infelicidade, pois ela é fruto de um mau uso das forças racionais humanas, e não uma consequência necessária do uso da racionalidade.77
73Cf. RezHerder, AA 08: 64; KU, AA 05: 430; GMS, AA 04: 399. 74
Cf. KU, AA 05: 430.
75Cf. KU, AA 05: 430. É provável que Kant esteja pensando aqui no terremoto
de Lisboa de 1755, o qual foi causa de um ardente debate em torno do tema da teodiceia. O próprio Kant escreveu três textos sobre terremotos logo após o sinistro e ainda um texto discutindo a questão do otimismo.
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Sobre a distinção conceitual entre “lezter Zweck” e “Endzweck” {Cf. 4.3.ii}.
77Cf. “Rousseau reclama, com bastante razão, sobre a desigualdade inerente à
cultura que progride sem um propósito (o que é igualmente inevitável durante um longo tempo). Entretanto, a natureza certamente não determinou o homem a tal desigualdade, visto que ela lhe deu liberdade e uma razão para limitar aquela liberdade por nada além de sua própria legalidade externa e universal, a qual se denomina direito civil. O homem deveria trabalhar para sair por si próprio do estado de natureza em que se encontram suas disposições naturais e, saindo de tal estado, ainda ter cuidado para não prejudicá-las; uma habilidade, que ele pode alcançar apenas tardiamente e após muitas tentativas frustradas. Nesse
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