2. Contextualização
2.2 Boa Safra, caracterização empresa parceira
2.2.3 A questão da identidade: Debate de ideias
A constante procura da harmonia entre a Natureza e o Design fez, desde sempre, parte de uma das maiores preocupações da marca, no âmbito da construção da sua identidade. Num mundo contemporâneo e globalizado, onde as pessoas procuram produtos capazes de as surpreender, a identidade torna-se um conceito ambíguo que se torna necessário definir, no contexto específico da marca Boa Safra, com referência a todas as suas singularidades.
Neste sentido, foi realizada, no dia 18 de Julho de 2014, uma produtiva sessão intitulada “TERTÚLIA-IDENTIDADE & EDIÇÃO” (Figura 13) com o objetivo de proporcionar um debate sobre o tema “identidade”, fornecendo importantes contributos para a presente dissertação. A identidade aqui analisada não se
concentra tanto na identidade da comunidade, mas na identidade que os objetos adquirem, refletindo questões como a atribuição de significado aos objetos, também pelo reconhecimento da importância da experiência que estes oferecem.
“Neste tópico sugerem-se eixos estruturantes de uma identidade para o design, ela mesmo decorrente da necessária coexistência com contributos de outras áreas de conhecimento caracterizadores dos novos valores emergentes da cidadania e da sustentabilidade que devem construir o futuro da atividade” (Aguiar 2011).
Com o intuito de se exporem e debaterem diferentes opiniões por parte dos participantes, foram delineadas, enquanto diretrizes para a sessão, algumas questões de apoio ao moderador:
→ O que é identidade?
→ Qual a importância da identidade na economia?
→ Existe uma identidade Portuguesa? Como se traduz no design?
Figura 13: Sessão “TERTÚLIA-IDENTIDADE & EDIÇÃO” (Fotógrafo: Rui Rocha)
Na sessão estiveram presentes 20 participantes, dos quais, alguns defendiam a não existência de uma identidade coletiva mas apenas uma identidade individual. Outros defendiam que, nos dias de hoje, a história seria a estrutura construtora da nossa identidade. O tema apresentou-se assim bastante complexo, embora no âmbito do design, todos os participantes concordaram que existem correntes de design, com identidades definidas, seguidas por muitos. Por outro lado e, numa abordagem de caracterização da identidade da marca Boa Safra, esta foi considerada por alguns como inserida totalmente na corrente nórdica. Outros concordaram a presença dessa visível influencia na construção da sua identidade, nomeadamente no uso de madeira
e materiais naturais, no entanto, realçaram também uma subtileza própria no desenho das peças e na escolha de materiais locais. Segundo o Eng. Rui Rocha, a marca procura encontrar características identitárias portuguesas que utiliza como guia para o desenvolvimento das suas linhas de produto:
“A cultura aberta portuguesa, capaz de realizar sínteses com outras culturas, aceitar influências do exterior e adaptar-se, vista como uma espécie de alteridade, anti-identidade. Esta característica foi já identificada, por Távora na arquitectura, F. Pessoa e Sofia M. Breyner na poesia. Os participantes estrangeiros confirmaram que é bem notada esta nossa alteridade. A história, a geografia e o clima podem servir de mote na escolha de materiais, cores, texturas e formas. A imagem do país, visto como um país de mar, de luz, de paisagem e cultura atlântica e mediterrânica. O Sal, o Sol o Sul do poema de Alexandre O'Neil com que abrimos o debate. A ponte com o “wabi-sabi” japonês foi sugerida como forma de expressar a simplicidade, a economia e a beleza da imperfeição que pode ser usada como contraponto ao perfeccionismo, mecanização e aceleração do quotidiano tão em voga na cultura ocidental e em especial na norte-europeia.”
No debate foi também expresso o ponto de vista da Boa Safra, por parte de Magda Alves Pereira, enquanto designer e diretora criativa da marca, que considera que a questão da identidade é, por vezes, sobrevalorizada no processo criativo Boa Safra. Afirma que a criatividade assenta em dois pilares principais: identidade(a) e inovação(b).
a) A identidade traduz a ordem, a memória - um padrão de informação pré- existente.
b) A inovação traduz a relação do acaso, com a desordem e com novos dados. Assim, a identidade é considerada como uma componente do processo editorial e não como um desiderato per si. Mediante esta relação, o tema da edição foi também ele expresso, sob o ponto de vista da Boa Safra que olha para o produto como informação atualizada (materializada). Sendo a edição, um sistema de entrega de valor ao cliente, implica a definição e operacionalização de um modelo de negócio para o produto. A Edição apresenta-se assim, uma atividade bastante complexa, podendo ser compreendida a partir da teoria da informação, com referência á teoria de informação de Shannon (Figura 14).
Figura 14: Diagrama esquemático do sistema de comunicação de Shannon e Weaver (Capurro and
Hjorland 2007)
Consiste na transformação de uma ideia/projeto num produto, minimizando a energia aplicada. Essa minimização de energia aplicada, referente á energia compreendida com o custo das operações, é obtida pelo princípio da navalha de
Occam que é um argumento heurístico segundo o qual, dentre várias possíveis
descrições de um fenômeno, deve-se preferir a que envolve o menor número de hipóteses (Saa 2005). Neste sentido, a mensagem/ ideia/projeto devem ser desenvolvidos de modo a implicar o menor número de premissas assumidas e o menor número de entidades/unidades.
Cabe ao editor assegurar a definição clara da mensagem, garantindo o levantamento sistemático dos atributos do projeto, a transmissão eficaz da mensagem via materialização, englobando nesta fase o controlo do processo de produção e a entrega ao cliente.
Em forma de conclusão e encerramento do debate, conclui-se que, em Portugal, embora a edição esteja bem integrada e compreendida em áreas como a literatura, comunicação social, cinema e televisão, no Design português, o conceito não se apresenta muito desenvolvido. A incipiente presença da edição foi considerada também ela, um fator que restringe a identidade e inovação do Design português.