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3. Levantamento do Estado da Arte

3.4 Levantamento de casos exemplo

3.4.2 Projetos coletivos

3.4.2.1 The chair that rocks

Figura 57: Imagem gráfica do projeto The chair that rocks (DelaO 2013)

Nome do projeto: The chair that rocks Autores: Estúdio José de la O

Ano: Início em 2013

Descrição: The Chair that Rocks é um projeto que surge com o objetivo de estabelecer uma ligação entre o design contemporâneo e os artesãos locais de Tlacotalpan, no México. O nome do projeto vai buscar a sua inspiração à cultura da cadeira de balanço de Tlacotalpan, sendo esta uma cadeira típica da cidade que faz parte da mobília de casa da maioria dos seus habitantes.

Deste trabalho conjunto de designers e artesãos, resultou o projeto de construção de um produto, onde apenas se utilizaram os recursos locais e ofícios tradicionais da região.

Quanto aos principais objetivos da sua concretização pode-se considerar, o desejo de resgate e preservação do artesanato local e das técnicas da região, as quais rapidamente tenderiam a desparecer; a revitalização da economia local através da conceção de novos produtos, produzidos na região e comercializados pelo Estúdio

José de la O e, por último, a criação de um "Designer Tourism" em Tlacotalpan, onde

profissionais criativos poderiam viver experiências novas e aprender um novo ofício, com a produção de novas peças e a troca de conhecimento com os artesãos locais.

Os únicos carpinteiros mais velhos desta cidade não têm ninguém na família para continuar com a tradição, como a maioria dos jovens abandonam Tlacotalpan, este projeto pretende procurar outras oportunidades capazes de transmitir e dar continuidade ao seu saber característico.

O ponto de partida do projeto passou pela criação de uma versão contemporânea da cadeira mais popular da região, a cadeira de baloiço. Partido do seu desenho antigo, com mais de cem anos, o estúdio pretendia um retorno da cadeira á sua pura essência, com foco no estudo do conforto e da eficiência, deixando de lados, os elementos ornamentais. Outro desafio residia no encontro de uma solução de cadeira que fosse desmontável, para embalagem plana, facilitando o transporte (Figura 59).

Tradicionalmente, a cadeira era montada recorrendo ao uso de cola, o que tornava a peça muito robusta e difícil de transportar. A problemática do transporte refletia-se também na dificuldade da comunidade local em vender os seus produtos.

Com o próprio re-design do sistema de marcenaria, a cadeira pode ser facilmente desmontada, facilitando o transporte e garantindo que a sua força estrutural se matem intacta, as ligações das peças em vez de utilizarem cola são aparafusadas (Figura 60). Por outro lado, a solução proposta usa menos cerca de 15% da madeira que a cadeira de balanço tradicional tornando-se, por isso, mais leve. Todos estes fatores, tornam possível a sua comercialização fora do México.

Dimensões: -

Materiais: Madeira cedro vermelho | vime natural, produzido inteiramente à mão.

Processo: Trabalho manual de carpintaria e marcenaria.

Outras informações: No Verão de 2014, The chair that rocks organizou uma oficina de verão para designers, com a duração de sete dias, que pretendia interpretar outros objetos antigos de Tlacotalpan e resgatar as suas técnicas, tão antigas quanto a própria cidade.

Figura 58: Esquema representativo dos princípios em que assenta o projeto (DelaO 2013)

Figura 59: Componentes da cadeira, desmontável (DelaO 2013)

3.4.2.2 Rede de Carpintarias de Lisboa

Figura 61: Logótipo Rede de Carpintarias de Lisboa (Jara, Correia et al.)

Nome do projeto: The chair that rocks

Autores: Artéria – Atelier de Arquitetura e Reabilitação Urbana (Criadores do conceito do projeto)

Ano: Início em 2013

Descrição: Nos dias de hoje, as carpintarias locais estão a desaparecer e com elas um saber técnico especializado. Com foco nesta problemática, surge a Rede de

Carpintarias de Lisboa que pretende reabilitar a cultura de carpintarias locais como

impulso regenerador para a cidade, através do resgate do seu saber, valorizando estas oficinas como parte da programação da cidade.

Através das artes e ofícios é gerado um forte contributo para a qualidade e sustentabilidade da reabilitação urbana de Lisboa. A dificuldade em licenciar as pequenas indústrias no centro histórico de Lisboa, levou ao afastamento destas oficinas para a periferia da cidade, onde ganharam escala e se industrializaram. Estas oficinas geridas por mestres, estão enraizadas no território e muitas respondem a necessidades locais- reparações, substituições e conservação de elementos construtivos fundamentais para a reabilitação e preservação da identidade da cidade.

A Rede de Carpintarias de Lisboa é assim, uma plataforma virtual que conta com o apoio da Camâra Municipal de Lisboa e que assume como seu principal compromisso a divulgação das oficinas da cidade, de modo a promover a utilização dos serviços, por parte dos seus cidadãos. Esta plataforma pretende estimular o cruzamento de diferentes práticas, de modo a se desenvolverem trabalhos de colaboração e parcerias entre carpinteiros, marceneiros, designers, arquitetos e outros profissionais.

A partir do seu website, qualquer uma destas entidades ou qualquer cidadão pode efetuar uma pesquisa para encontrar o seu parceiro de trabalho ou a maquinaria necessária. A área de pesquisa avançada encontra-se dividida em quatro diferentes categorias, sendo:

→ Tipo de Oficina → Tipo de Trabalho → Maquinaria → Freguesia

Dentro de cada uma destas categorias é feita uma divisão por cores, de forma a ajudar na escolha do serviço pretendido e respetiva localização da carpintaria. Outra importante particularidade desta plataforma consiste na secção “Glossário” que contém a definição de conceitos essenciais para quem trabalha e projeta com madeira.

De interações resultantes desta plataforma fez parte, por exemplo, o projeto de Tomaz Viana - Deframed Reconstructed Figura 64). Este projeto inseriu-se no programa “Tangenciais” da Experimenta Design ‘13, no formato de “work in progress” em oficina aberta. Deframed Reconstructed funcionou como um exercício de design e execução que utilizou como mote a matéria-prima, velhas portadas, janelas e portas Pombalinas que foram transformadas em peças de mobiliário. Tendo como base a descontextualização e reconversão destes objetos propôs-se a utilização das técnicas de assemblagem da alta marcenaria clássica através da utilização dos encaixes como pormenores decorativos. Desenhos novos, contemporâneos, sem perder de vista a raiz das peças.

Dimensões: - Materiais: Madeira

Processo: Trabalho manual de carpintaria e marcenaria.

(Jara, Correia et al. 2013)

Figura 63: Glossário de conceitos relacionados com o trabalho em madeira (Jara, Correia et al.)

Figura 64: Velhas portadas e janelas como matéria-prima para a construção de mobiliário com recurso a

técnicas de assemblagem clássica (Viana 2013)

3.4.2.3 Un-desirables

Figura 65: Logótipo do projeto Un-desirables (Gothenburg 2014)

Nome do projeto: Un-desirables

Autores: Estudantes de Licenciatura e de Mestrado, Escola de Design e Artesanato da Universidade de Gotemburgo

Ano: 2014

Descrição: Un-desirables é o nome de um projeto desenvolvido por alunos da Escola de Design e Artesanato da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, cujo principal objetivo era o de transformar objetos indesejáveis em algo que fosse capaz de despertar o desejo das pessoas. Neste sentido, foi feita uma investigação e um novo olhar foi lançado sobre materiais que por algum motivo entraram em desuso, materiais indesejados, sobras ou resíduos de material. A partir deles, foram desenvolvidos novos materiais e projetados objetos, com base em todo o trabalho de investigação desenvolvido, utilizando sempre processos produtivos de pequena escala. A transformação a partir de processos simples constituía o objetivo principal do projeto.

A corda foi um dos materiais em estudo, cujo fabrico faz parte de um conhecimento ancestral comum a todas as culturas do mundo, feito com ferramentas bastante simples. Constitui um elemento de transformação de outros materiais de descarte. Ao fazer corda, uma nova perspetiva e uma segunda vida é dada ao desperdício de materiais. Seguindo esta filosofia de pensamento, a designer Laetitia Fortin investigou o processo de fabrico de corda, utilizando resíduos da indústria têxtil, lençóis de um hospital local e plástico usado (Figura 66). Desenvolveu um método que permite parar e retomar o processo de fabrico, criando um motivo orgânico que traduz, de maneira simples, a essência do processo. Esta técnica, envolvendo muitas pessoas que trabalham ao mesmo tempo, e neste sentido é proposta uma atividade social em que as pessoas poderiam transformar o seu material indesejado em móveis e ter uma experiência agradável e de colaboração partilhada.

Uma outra peça que integra o projeto, usa restos de papel de uma fábrica local que são empilhados uns sobre os outros, colados e, posteriormente, trabalhados num torno. A partir desta técnica, o designer Sindre Bjerkli criou alguns bancos de formato simples, mas com um efeito altamente gráfico (Figura 67). Ao utilizar os resíduos de uma fábrica de papel local, o seu principal objetivo era o de questionar os recursos e a forma como os preservamos. No seu processo foi importante não saber e ir aprendendo com as incertezas que surgiam no decorrer do processo experimental.

Já o designer Frej Grönkvist Wichmannfrej, com o desejo de estender a vida útil dos sacos plásticos, desenvolveu um armário que utiliza os sacos plásticos transformados para fazer a ligação dos seus componentes, considerando-os,

provavelmente, um dos produtos mais fabricados do século XXI. A ideia desta peça (Figura 68) era a de esta poder ser construída com poucos meios, o que tornava possível a sua produção mesmo em lugares sem eletricidade, sendo possível de ser desenvolvida por artesãos locais.

Dimensões: Variável Materiais: Variável Processo: Variável

Outras informações: A preocupação e abordagem de problemas globais fez sempre parte das abordagens dos diferentes designers que fizeram parte deste projeto, tornando-o por isso, tão inspirador.

Figura 66: Woven Link, projeto da autoria de Laetitia Fortin que utiliza corda feita a partir de resíduos

e desperdícios da industria têxtil (Gothenburg 2014)

Figura 67: Wasteland , projeto da autoria de Sindre Bjerkli com matéria-prima feita a partir de restos

Figura 68: Bubble Cabinet, projeto da autoria de Frej Grönkvist Wichmannfrej que utiliza corda feita a

partir do reaproveitamento de sacos plásticos (Gothenburg 2014)

3.4.2.4 Burel Factory

Figura 69: Logótipo Burel Factory (Burel)

Nome do projeto: Burel Factory

Tipo de produto: Peças que utilizem o tecido burel

Descrição: A Burel Factory nasce em 2010, fruto da vontade de criar um projeto sustentável, onde cada peça produzida conta a história de um saber e de uma indústria (Figura 70). Hoje, já com fábrica e marca própria, está localizada na vila Portuguesa de Manteigas, na Serra da Estrela. De origem serrana, o burel é um tecido artesanal português, feito totalmente de lã e que se apresenta bastante resistente e versátil, o que permite conseguir uma vasta gama de texturas, padrões e cores.

Era objetivo da empresa manter vivo e, ao mesmo tempo, reinventar o valor das riquezas da região, através da combinação do design com o saber-fazer dos tecelões da vila, num trabalho conjunto de criação de peças.

O trabalho em parceria com alguns designers Portugueses permitiu à empresa criar um centro criativo, responsável pela dinâmica do fazer e da experimentação. De entre os vários projetos desenvolvidos pelos designers, onde maioritariamente foi

empregue o burel, importa referenciar os projetos de Sofia Machado e Tiago Silva, por se tratarem ambos de soluções de design de mobiliário que combinam a madeira e o burel.

A peça desenvolvida pela Sofia Machado foi um berço para bebé. Segundo a autora, o burel é aqui entendido como uma herança cultural, capaz de dar o conforto pretendido ao bebe, graças às propriedades do material (Figura 71).

Quanto à peça desenvolvida pelo designer Tiago Silva, surge no âmbito do concurso “Burel e a Casa”, do qual foi vencedor, com o seu banco designado “Ovelha”. O designer foi, precisamente, encontrar a sua inspiração na própria matéria-prima que constitui o burel – a lã de ovelha. O design da peça não se baseia apenas na sua funcionalidade mas procura também potencializa-la enquanto peça decorativa, pela referência à imagem ícone de uma ovelha e, consequente, associação à lã do burel. Era pretendido que o burel fosse valorizado e reconhecido através da peça, e que a ele se associasse uma parte importante da sua manufaturação. Esta é, sem dúvida, uma peça de design com uma forte componente simbólica (Figura 72).

Outras informações: Embora estae outras peças façam uso, maioritariamente do burel, na Burel Factory, a partir da Lanifícios Império, são também produzidos outros tipos de tecidos únicos e de grande qualidade. O grande desafio da Burel Factory consiste portanto em fazer progredir uma tradição e um ofício, no interior do país, tendo em plena consideração o atual contexto cultural e económico que o caracteriza.

Figura 71: “De Lã e de Serra, para dormir e sonhar “, Berço de Sofia Machado (Burel 2014)