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2. Contextualização

2.1 O Mercado, produto e cliente

2.1.4 Papel social do designer

“Pela participação direta e manual com as comunidades onde são desenvolvidos esses projetos, o seu papel passa a ser um papel eminentemente social. A sua efetividade no plano prático, pela resolução de problemas concretos e tangíveis de pessoas reais, o seu estímulo à criatividade e aos dotes ocultos da população profunda, a sua consequência sanitária pela atividade física e psíquica desenvolvida, a dimensão ocupacional, lúdica e artística, a criação de postos de trabalho e de um verdadeiro aproveitamento das capacidades disponíveis, conferem uma dimensão radical ao seu trabalho. Radical porque vai à raiz. Não apenas os artefactos mas o próprio designer tem agora uma função e uma prática” (Coxito 2013).

A abordagem do papel social do designer é introduzida com um pensamento de António Coxito. Conforme o autor, cabe ao designer configurar a cultura material da sua sociedade, com a transmissão de ideias, conceitos e valores que melhoram a qualidade de vida de todos, através da resolução de problemas concretos. Cabe-lhe também a ele, o aproveitamento das técnicas artesanais e o trabalho conjunto com artesãos com vista à reinserção num contexto contemporâneo. O designer deve, por isso, fazer uma observação intensiva das formas de fazer.

Nos dias de hoje, a mudança de abordagem nos conceitos próprios do design apoia a construção de um pensamento social voltado para a sua interação com o artesanato (Nunes 2011), onde a atividade projetual não objetiva a conceção de produtos efêmeros e onde o trabalho manual é valorizado, enquanto impressão de identidade no produto associado a um sentimento de identificação.

A necessidade de inovação é cada vez maior, tendo em respeito que as mudanças não criam apenas necessidades novas, mas também promovem o desenvolvimento de conhecimentos e meios que facilitam o diálogo entre a inovação e a sustentabilidade (Ferreira, Neves et al. 2012). Paralelamente a isso e à globalização dos mercados, a procura pela identificação pessoal e pelo status na sociedade leva á procura do fazer artesanal (da Silva 2007). Conforme aponta (Neto 2002), “O artesanato supre uma

lacuna deixada pela produção industrial que é a lacuna da identificação e da individualização simbólica dos objetos diante do grupo ao qual o indivíduo que consome artesanato pertence”.

O papel do designer num segmente artesanal, além do processo de criação do objeto, deve também tratar de questões éticas e de caráter social, com respeito

pelo meio ambiente, pela cultura enquanto valor agregado ao produto e pelo privilégio da mão-de-obra. Assim, o papel do design não atua apenas no contexto económico, mas aborda mudanças em relação a um design que se preocupa com a realidade de todos e que tem a capacidade de transformar a criatividade em progresso cultural e tecnológico.

Tendo em conta a abordagem requerida pela presente dissertação, que envolve os conceitos de design social, acha-se que o trabalho ideal é o participativo, dentro de uma lógica que procura um espírito de desafio, no contato entre pessoas com diferentes backgrounds que se unem para desenvolver uma ideia.

“Grande parte do êxito alcançado pela nossa cultura deve-se ao trabalho coletivo das pessoas, à especialização e à fragmentação coordenada do trabalho. Nenhuma pessoa isolada poderia por si só, alimentar a complexidade de um design avançado” (Dormer 1995).

Neste contexto, as relações entre artesãos e designers são importantes, sendo que estes últimos atuam como facilitadores no processo que procura soluções para problemas da comunidade, envolvendo-a no próprio processo de criação e desenvolvimento projetual (Mello, Pichler et al. 2011). Este processo não deixa de considerar os seus conhecimentos, necessidades humanas e capacidades, enquanto princípios de enquadramento (Figura 4).

Figura 4: Esquema descritivo dos principais princípios de enquadramento do design social (Grácio, Lopes

et al. 2013)

De facto, com base nestes princípios, é pretendido o melhoramento da qualidade social e da capacidade de participação na vida social. A própria abordagem do

design, na sua interdisciplinaridade e necessidade de trabalho coletivo, constitui a forma essencial do trabalho comunitário (Iamamura and Kanamaru 2013). O designer deve trabalhar ao lado do artesão de modo a aumentar a integração entre a produção e as fases conceptuais, devolvendo uma pesquisa experimental que direciona o conhecimento técnico para o resultado de uma solução inovadora. Este trabalho conjunto é um processo que vai muito além da simples criação de novos objetos, envolvendo várias outras disciplinas, ações e capacitações (Figura 5).

Pode-se constatar que este processo funciona como um mecanismo de aprendizagem conjunta, onde ambos os lados trocam conhecimentos. Nesta relação, embora satisfatória, há sempre a necessidade de se fazerem certos ajustes, quer na produção, no desenho das peças ou até mesmo na linguagem utilizada para comunicar as nossas ideias a quem tem a capacidade de as executar. Este cuidado exigido, estimulará o aconselhamento e orientação e exigirá padrões configurados numa linguagem que possa ser entendida por qualquer pessoa (Sennett 2009). O projeto de um objeto não deve chegar ao artesão já com o desenho fechado, estando aberto a alterações e sugestões de melhoramento. Deve existir um consenso entre a nossa opinião e a dos artesãos, devem ser levantadas questões quanto ao modo de fazer com vista a que todas as partes envolvidas no processo se sintam motivadas. Outro aspeto importante que o designer deve considerar é o respeito pelo ritmo de trabalho do artesão e, consequente, respeito por todo o sistema que envolve o artesanato.

Figura 5: Processo de trabalho conjunto no âmbito do Design Social. Adaptado de: (Costa 2009)

A oportunidade de ter participado na workshop sobre a Olaria Pedrada de Nisa, no âmbito da cadeira de Laboratório de Projeto do Curso de EDDP (Especialização em Design e Desenvolvimento de Produto) da FEUP, foi um excelente contributo neste sentido, o de perceber as claras diferenças de linguagem designer/artesão e no conhecimento dos princípios em que esta relação se deve reger, para que o trabalho

final seja conseguido. O artesão não deve ser visto como um simples recetor de interações, sem opinião sobre o que será desenvolvido. O diálogo efetivo entre as partes é o principal ingrediente para o sucesso.

Por outro lado, este projeto proporcionou também uma enriquecedora aproximação á sociedade local. O acolhimento em famílias da comunidade, durante os dias em que decorreu a workshop, permitiu uma experiencia do contexto na sua totalidade. O conhecimento da valorização e da qualidade de um produto local é melhor percecionado quando existe um pré-conhecimento referente aos recursos utilizados pela comunidade tradicional e local, bem como conhecimento dos modos de fazer. Além de beneficiar a comunidade local, integrando os ofícios tradicionais e materiais locais nos projeto desenvolvidos, esta experiência constituiu uma excelente troca de saberes de onde trouxemos o conhecimento da técnica e deixamos a proposta de novas peças de design, produzidas segundo o fazer artesanal da região, com a utilização de materiais locais, apresentado a possibilidade de ampliação da Olaria Pedrada de Nisa como atividade presente.

Mediante esta abordagem e, segundo uma linha de pensamento mais radical, importa referir o livro de Victor Papanek, intitulado Design For The Real World, enquanto uma obra pioneira que aborda o papel social do design e que, ainda hoje, se mostra visionária.

Papanek propunha que os designers procurassem a solução de problemas sociais, em favor de uma abordagem mais solidária capaz de abandonar a política de design pelo lucro.

“Necessidade: o design mais recente tem apenas satisfeito vontades e desejos evanescentes, enquanto as reais necessidades humanas têm sido muitas vezes negligenciadas. As necessidades económicas, psicológicas, espirituais, sociais, tecnológicas e intelectuais dos seres humanos são geralmente mais difíceis e menos rentáveis de satisfazer do que cuidadosamente arquitetados e manipulados «quereres» inculcados pela novidade e pela moda” (Papanek 1992). O autor defendia a necessidade de resposta às reais necessidades humanas, e não aos seus desejos. Embora esta ideia seja, muitas vezes, esquecida pela nossa sociedade de consumo, Papanek vê nos designers a responsabilidade social de evitar a criação excessiva de produtos inúteis e que não nascem da necessidade de responder a uma falha concreta. Ele defendia também o recurso às condições e materiais disponíveis localmente, não baseadas em tecnologia de ponta. Defendia

ainda uma aproximação às tradições, proporcionando um design que não provocasse a ocidentalização das culturas locais, ocidentalização que poderia ser considerada, em parte, responsável pelo estado de degradação económica e social dos países.

Assim, podemos concluir que a questão social pertinente na presente dissertação, abrange uma série de questões que se interligam e completam em vários pontos, com vista ao encontro de um posicionamento para o trabalho artesanal, numa das fases de desenvolvimento de produto. Considera-se que esta abordagem envolve vários valores e comportamentos que não podem ser dissociados das práticas humanas. Os produtos estão conectados aos sistemas sociais, históricos, culturais e ecológicos onde se inserem.