Capítulo 5 A ascensão civil e o estabelecimento das bases da grande estratégia nacional
5.2 A questão da Trindade e a ameaça imperialista
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A paleontologia sugere que, a partir do ano 10.000 a.c., inicia-se o processo de sedentarização da espécie humana com o advento das sociedades baseadas na agricultura – em contraste com os grupos de caçadores- coletores até então hegemônicos. Esse processo está na base da construção das sociedades baseadas no Estado e das disputas por território em termos similares ao que conhecemos até os dias de hoje. Na realidade, se Gat estiver correto, as disputas (guerras) por território eram também endêmicas no período correspondente à hegemonia dos grupos de caçadores-coletores. Em suma, é possível argumentar que, desde que o Homo Sapiens existe, ele encontra-se em luta com outros grupos de hominídeos para preservar e adquirir território (e os bens a ele associados). Ver GAT, Azar. War in human civilization. Oxford: Oxford University Press, 2006. p.133-145.
444 Ver MENDONÇA, Salvador de. A Situação Internacional do Brazil. Rio de Janeiro: Livraria Garnier, 1913.
p.250-255.
445 Cabe notar que Blaine não era mais secretário de Estado em 1895, ano em que o laudo arbitral sobre a
questão de Palmas foi divulgado. No entanto, não resta dúvida de que aos EUA interessava naquele momento favorecer o Brasil, país que não competia com a sua produção agroexportadora – o que não era o caso da Argentina. Note-se também que Buenos Aires encontrava-se fortemente vinculada à órbita britânica, estando o Rio de Janeiro bastante mais aberto ao aumento dos vínculos comerciais com Washington do que o seu competidor sul-americano. Steven C. Topik. Trade and Gunboats. op.cit., p.69.
No mesmo ano em que o País vencia o diferendo das Missões, e Rio-Branco era entronizado como herói pelas elites letradas com acesso à informação,447 fato grave sensibilizou a opinião pública: a ocupação da ilha da Trindade pelo Reino Unido. Distante mais de mil quilômetros do litoral do Espírito Santo, o território representa o ponto mais oriental do Brasil. Em janeiro de 1895, quando foi tomado pelos britânicos, encontrava-se completamente despovoado. Somente cerca de seis meses depois, o governo recebeu a notícia de que a Grã-Bretanha tinha se apossado da ilha.448 Pretextando estar o território abandonado, e com o intuito de utilizar aquele ponto de apoio para a instalação de um dos trechos de cabo submarino que a ligaria diretamente à Argentina, Londres limitou-se a afirmar, quando questionada oficialmente pelo governo brasileiro, que já tivera a posse da ilha no século XVIII e que tomava posse dela novamente por encontrar-se desabitada. Ciente do perigo representado pela eventual perda da Trindade para a República recém instituída, o Ministério das Relações Exteriores expediu ordem para que o ministro do Brasil junto ao Reino Unido buscasse a devolução da ilha.449
Artur de Sousa Corrêa, a partir daí, entabulou conversações com o Foreign Office e com Lord Salisbury, primeiro-ministro britânico notável por sua profissão de fé imperialista.450 Durante as gestões de Corrêa, ficou patente que, se, por um lado, não havia intenção de simplesmente devolver Trindade, por outro, tampouco o Reino Unido
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O rádio ainda não tinha aplicações comerciais nessa época. As comunicações de longa distância eram feitas por meio do telégrafo, que dependia de linhas telegráficas e cabos submarinos. Uma vez recebida a
comunicação telegráfica escrita, esta era disseminada por intermédio de jornais impressos. Somente as elites letradas tinham acesso aos jornais.Mesmo considerando o efeito da transmissão oral, uma vez divulgada a informação pelos jornais, é altamente improvável que parcela substancial da população brasileira tenha sabido da vitória de Rio-Branco no arbitramento da questão de Palmas. De uma população adulta de cerca de 10 milhões de habitantes, em 1900, apenas 35% eram alfabetizados. Pode-se supor, que dentro desse universo, uma parcela bem menor teria acesso a meios de comunicação impressos. Cf. SOUZA, Marcelo Medeiros Coelho de. O Analfabetismo no Brasil sob o Enfoque Demográfico. Brasília: IPEA (texto para discussão No 639), 1999. p.7.
448 ARRAES, Virgilio Caixeta. A república insegura: a disputa entre o Brasil e a Grã-Bretanha pela posse da
ilha da Trindade (1895-1896). Revista Cena Internacional, 2 (1), 2000. p.54-78.
449 Dadas as circunstâncias em que o poder político foi restituído aos civis, seria ruinoso para a gestão Prudente
de Morais permitir a anexação por potência estrangeira de parcela do território nacional – sobretudo tendo em vista que o Brasil ainda mantinha pendências de fronteira com outros Estados e a própria Grã-Bretanha (a questão do Pirara).
450 Arthur Dias menciona o famoso discurso de Salisbury na Primerose League, em que este afirma, com base
em ideologia de extração darwinista e organicista, sua crença nadisjuntiva nações vivas versusnações moribundas: “O que é fóra de dúvida é que as nações debeis se vão debilitando cada vez mais, e as nações fortes se vão robustecendo. As nações vivas hão de se ir apoderando dos territorios das nações moribundas, e este é um viveiro de conflictos que, mais ou menos brevemente, poderão brotar.” Arthur Dias. O Problema Naval: Condições actuaes da marinha de guerra e seu papel nos destinos do paiz. op.cit., p.14.
emprestava grande valor estratégico à ilha para além do interesse em instalar o cabo submarino e da proteção das empresas locais, que lucrariam com o empreendimento.451 Como tática dilatória, Salisbury mencionou não poder simplesmente revogar medida adotada por administração anterior (a ocupação) e deu conta de estar procedendo a uma ampla pesquisa arquivística para ter todos os elementos históricos sobre a posse do território pela Grã-Bretanha.452 Em determinado ponto da interlocução, depois de Sousa Corrêa ter afirmado que a demora em se chegar à solução satisfatória causava agitação popular e pânico no Brasil, Salisbury sugeriu o arbitramento – foram também aventadas as hipóteses de arrendamento da ilha e de compensação brasileira pelo desvio do traçado do futuro cabo submarino.453 O ministro das Relações Exteriores, Carlos de Carvalho, manteve-se irredutível em sua posição: o País não aceitaria a arbitragem nem ofereceria nenhum tipo de compensação por território que lhe pertencia de direito. Isso apesar de o Itamaraty ter consultado o departamento de Estado a respeito do caso e ter ouvido deste posição favorável ao arbitramento.454
Vale mencionar que Sousa Corrêa, por entender que a proposta de arbitramento era apenas uma forma de a pérfida Albion não perder a face com a simples devolução, fez reveladoras considerações sobre a eventual escolha de árbitro. De acordo com Arraes:
“Para ele, a posição de Salisbury pelo arbitramento era a justificativa necessária para devolver o território. Caso o Brasil optasse por essa resolução, Corrêa recomendava cuidado na escolha do árbitro de modo que não houvesse revés. Descartou, de início, a Rússia, a qual seria contrária ao Brasil, ante o conhecimento de suas posições internacionais. Preferia a Espanha, que seria favorável ao país, pelo fato de ter tido um caso análogo ao do país: as ilhas Carolinas.”455
451 Virgilio Caixeta Arraes. A república insegura: a disputa entre o Brasil e a Grã-Bretanha pela posse da ilha
da Trindade (1895-1896). op.cit., p.63.
452 Ibid., p.64. 453 Ibid., passim.
454 A posição do secretário de Estado Olney sobre o assunto era coerente com a pressão que os EUA exerciam
sobre a Grã-Bretanha para que aceitasse o instituto do arbitramento no caso do diferendo com a Venezuela sobre a região de Essequibo, na fronteira com a Guiana Inglesa. A crise venezuelana, ocorrida também em 1895, teve como desfecho a aceitação pelos britânicos da arbitragem – o que não deixou de produzir grande efeito simbólico, ao demonstrar a determinação dos EUA em sustentar uma versão expansiva da Doutrina Monroe. Com esse evento, o Reino Unido simbolicamente abandonava o hemisfério ocidental e transmitia o bastão imperial aos EUA no que se refere à região. Sobre o assunto, ver KENNEDY, Paul M.. The Rise and Fall of British Naval Mastery. Amherst: Prometheus Books, 1998. Passim.
455 Virgilio Caixeta Arraes. A república insegura: a disputa entre o Brasil e a Grã-Bretanha pela posse da ilha
Ao expressar essa opinião quase em simultâneo ao arbitramento da questão de Palmas, o ministro-plenipotenciário do Brasil tornava patente sua crença na preponderância da política sobre o direito. Não seriam os títulos presumivelmente irrefutáveis do País sobre o território que garantiriam a vitória, mas a escolha de árbitro favorável aos interesses brasileiros. A política continuaria operando também no plano doméstico, em que setores jacobinos se valeram do contencioso para desgastar o governo civil de Prudente de Morais.456
Depois de discursos inflamados no parlamento e na imprensa nacionais, de visões contraditórias produzidas pela imprensa britânica, em que não faltou quem apontasse a superioridade militar do Reino Unido como fator suficiente para a manutenção da ilha,457 e de uma série de marchas e contramarchas, os dois países acabaram chegando a uma solução de consenso: a intermediação portuguesa. Não se tratando de arbitragem, mas apenas de bons ofícios, a solução era aceitável aos olhos do Brasil, pois, em caso de derrota, a decisão não teria caráter vinculante. Uma conjunção de fatores, entre os quais a descoberta de que a ilha ofereceria dificuldades técnicas para a instalação do tronco do cabo submarino, diminuiu o interesse bretão por Trindade.458 Assim, não houve contestação quando o Reino de Portugal se pronunciou, em 1896, favoravelmente ao retorno da soberania do território contestado ao Brasil.459 De maneira pouco surpreendente, terá contribuído para esse resultado a determinação lusitana de reaproximar-se da sua ex-colônia depois do rompimento das relações diplomáticas levado a cabo por Floriano Peixoto no contexto da Revolta da Armada.460
456 KAMPF, Martin Normann. A ocupação britânica da Ilha da Trindade (1895-1896): uma questão de
suscetibilidades. Dissertação de mestrado em diplomacia – Instituto Rio Branco, 2011. p.116.
457 Virgilio Caixeta Arraes. A república insegura: a disputa entre o Brasil e a Grã-Bretanha pela posse da ilha
da Trindade (1895-1896). op.cit., p.62-63.
458 Ibid., p.69. 459 Ibid.,p.70.
460 O comandante das unidades navais lusitanas estacionadas no Rio de Janeiro, Augusto de Castilho, concedeu
asilo aos marinheiros rebelados. Sendo as duas unidades pequenas corvetas, não seria possível atravessar o Atlântico com centenas de passageiros adicionais. Houve necessidade de escala em Buenos Aires para abastecimento, momento em que inúmeros oficiais e praças brasileiros desembarcaram e por lá ficaram – alguns deles, como Saldanha da Gama, retornando à contenda junto aos federalistas do Rio Grande do Sul. Em função das decisões tomadas por Castilho, alegadamente em nome da humanidade, Floriano determinou o rompimento das relações diplomáticas entre os dois países. Segundo Heinsfeld, 254 brasileiros se evadiram quando as corvetas lusitanas fundearam no Rio da Prata. Ver HEINSFELD, Adelar. A ruptura diplomática Brasil-Portugal: um aspecto do americanismo do início da República brasileira. Texto apresentado no XXIV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA, Associação Nacional de História – ANPUH, 2007. p.4.