Capítulo 4 Grande estratégia ou caos? Desordem e militarismo entre 1889 e 1894
4.3 O recrudescimento dos conflitos intraelites
A elaboração da Constituição seria seguida da eleição indireta, pelo congresso, dos novos Presidente e Vice-Presidente da República. O ambiente político encontrava-se carregado. Havia clara intenção das lideranças paulistas de afastar os militares do poder, assumindo o controle do governo federal.367 Ao mesmo tempo, as chefias das Forças Armadas ainda não estavam convencidas de que deveriam voltar aos quartéis. As eleições mais uma vez demonstraram as fissuras existentes nos campos civil e militar. As duas candidaturas propostas contavam com apoiadores e detratores em cada campo. De um lado, a chapa formada pelo marechal Deodoro da Fonseca e o almirante Eduardo Wandenkolk; de outro, a de Prudente de Morais e Floriano Peixoto.368 Hélio Silva, ao tratar do contexto em que foram realizadas as eleições, narra cenas dignas de repúblicas bananeiras, entre as quais a presença no recinto do Congresso de capangas a mando de Deodoro e Wandenkolk com o objetivo de coagir parlamentares e destruir as urnas em caso de derrota.369 Da mesma forma, era generalizada a percepção de que, se Prudente de Morais vencesse, o Exército dissolveria o parlamento e Deodoro passaria a governar ditatorialmente.370 O resultado do pleito acabou não sendo de molde a desencadear o golpe planejado e a resistência que a ele se seguiria por parte de lideranças militares antagônicas, como o almirante Custódio de Melo.371 Dado o sistema de votação, acabaram eleitos os marechais Deodoro, Presidente, e Floriano, Vice- Presidente.
367 Hélio Silva. Nasce a República. op.cit., p.86.
368 Steven Topik menciona, corretamente, que os motivos para a escolha de Floriano Peixoto como vice na
chapa do paulista Prudente de Morais têm a ver com a influência que o general tinha sobre o Exército, além da percepção de que seria facilmente manipulável. Cf. Steven C. Topik. Trade and Gunboats. op.cit., p.97.
369 Ibid., p.88.
370 Ibid., p.87. Campos Sales teria alertado Prudente de Morais sobre a sua percepção de que o golpe seria
desfechado na hipótese de vitória deste último. Ainda segundo Sales, à tomada de poder inconstitucional de Deodoro, seguir-se-ia uma fratura dentro do Exército e o início de guerra civil.
371
ARIAS NETO, José Miguel. Em busca da cidadania: praças da Armada nacional, 1867 -1910. Tese de doutorado. Departamento de História, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 2001.p.189-190.
O ano de 1891 continuaria conturbado. A popularidade de Deodoro era cada vez menor, assim como a do ministério chefiado pelo Barão de Lucena, que substituiu o liderado por Rui Barbosa. Cabe notar que o ministério Lucena, também conhecido como gabinete dos “áulicos”, entrou em funções depois da renúncia coletiva dos ministros anteriores, motivada pela intransigência de Deodoro em forçar a aprovação de empréstimo em condições favorecidas a empreendimento capitaneado por amigo de longa data.372 Também não contribuía para a tranquilidade do governo o fato de Floriano Peixoto ser o segundo homem na hierarquia de poder, uma vez que era patente o estranhamento entre ele e Deodoro. O processo de erosão das bases de apoio do generalíssimo atingiu o ápice nos últimos meses de 1891, momento em que o Congresso aprovou projeto de lei sobre crimes de responsabilidade do Presidente da República. A interpretação de Deodoro, aliás correta, era de que o parlamento pretendia emparedá-lo com a ameaça de impedimento consubstanciada na nova lei. Tendo vetado o referido diploma em uma primeira oportunidade, ao velho líder militar pareceu intolerável saber que deputados e senadores haviam derrubado o veto no dia 2 de novembro. Em consequência, o generalíssimo determinou a dissolução do parlamento no dia seguinte.
A oposição, no entanto, rapidamente se articulara para resistir. Mais uma vez, estabeleceram-se coalizões civis-militares antagônicas. As principais lideranças paulistas conseguem escapar da prisão tomando trens em Cascadura e em outras estações mais afastadas do centro do Rio de Janeiro. São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Pernambuco formaram o núcleo básico de resistência. O generalíssimo decidiu pela prisão de Quintino Bocaiúva, dos almirantes Wandenkolk e Custódio de Melo e do general José Simeão.373 Oficiais de Marinha, entre eles o deputado pelo Distrito Federal, José Augusto Vinhais, e o administrador das docas, José Carlos de Carvalho, passaram a instigar os trabalhadores a paralisarem a Estrada de Ferro Central do Brasil e o Porto de Santos, respectivamente.374 O almirante Custódio de Melo, que, nas palavras de reputado historiador, estava “aflito por projetar-se na mêlée política, à sombra do prestígio da Marinha (…)”,375 conseguiu escapar da ordem de encarceramento expedida contra ele e sublevou a maior parte
372 Ibid., p.80-81. 373
Ibid., 101.
374 Idem.
da esquadra. Saldanha da Gama, contudo, permaneceu fiel ao governo.376 Ao movimento encabeçado por parcela da Marinha, juntar-se-iam unidades do Exército. Enquanto isso, Floriano Peixoto conspirava em silêncio contra o generalíssimo. Concomitantemente, o Rio Grande do Sul era tomado por conflitos intestinos extremamente graves.377 Diante desse quadro, sem ânimo para lançar o País em uma guerra civil,378 Deodoro renunciou em favor de Peixoto.379
Em 23 de novembro de 1891, o marechal alagoano assumiria as rédeas do Poder Executivo. Nesse mesmo dia, o decreto 685 anulou a dissolução do parlamento e reafirmou a impossibilidade de o Executivo suprimir o Legislativo. Igualmente, reiterava a excepcionalidade da decretação de estado de sítio – justificada apenas em caso de agressão externa ou grave comoção interna.380 No entanto, Floriano iniciaria uma escalada de intervenções nos estados para substituir os governadores que declararam apoio ao golpe do generalíssimo (todos, à exceção de Lauro Müller). A “revolução de 23 de novembro”, como seria chamada por Floriano e seus acólitos, constituiu aliança tática entre a parcela da elite paulista representada por homens como Campos Sales e Prudente de Morais e setores da força terrestre ora no poder. Era também uma composição temporária entre o Marechal de Ferro e as oligarquias excluídas dos governos estaduais pela gestão anterior. As “salvações” de Peixoto iriam aprofundar a já intensa politização das Forças Armadas. Pedro Calmon narra da seguinte forma a relação prevalecente entre as frações oligárquicas excluídas e os representantes florianistas (quase sempre oficiais do Exército de confiança):
“Reproduziu-se, do norte ao sul, uma cena equivalente: escudados na parceria dos batalhões, os políticos, ferventes de entusiasmo constitucionalista, se
376 CALMON, Pedro. História do Brasil (Vol.V). São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1956. p.52. 377
Clodoaldo Bueno. A República e sua Política Exterior (1889 a 1902). op.cit., p.211-219.
378 Não terá escapado a nenhum dos contendores o recentíssimo exemplo do Chile, em que a marinha, aliada ao
parlamento, conseguiu vencer a coalizão formada pelo presidente Balmaceda e o exército, tomando o poder em setembro de 1891 depois de oito meses de guerra civil.
379 A constituição de 1891 era relativamente ambígua quanto à possibilidade de assunção do cargo pelo vice-
presidente Floriano Peixoto. Dois artigos distintos, com interpretações muito diferentes, foram utilizados por apoiantes e opositores de Floriano para legitimar ou denunciar a entrega de poder àquele que viria a ser conhecido como Marechal de Ferro. O problema relacionava-se ao caráter imperativo ou não de dispositivo que previa que novas eleições deveriam ser realizadas em caso de o presidente encontrar-se impedido de governar antes de completar a metade de seu mandato, isto é, dois anos de governo. Ver CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA DOS ESTADOS UNIDOS DO BRAZIL (24 DE FEVEREIRO DE 1891). op.cit.
380 BONAVIDES, Paulo, AMARAL, Roberto. Textos Políticos da História do Brasil (Vol.III). Brasília: Senado
reuniam num comício agressivo; atestava-se de povo a praça; defensivamente, o governador se cercava em palácio da polícia desmoralizada pela ameaça da tropa de linha; uma comissão ia levar-lhe o ‘ultimatum’; intervinha, intimidativo, o oficial encarregado de liquidar a pendência; (…) fosse corajosa ou acomodada, a condenada autoridade acabava rendida, fugitiva ou expulsa.”
381
Se é certo que a retórica florianista proclamava o respeito à Constituição, adicionada aqui e ali de tintas antirrestauração monárquica, as ações empreendidas pelo seu governo eram flagrantemente inconstitucionais. Calmon nota que os alvos preferenciais da repressão não eram os ditos sebastianistas, mas os partidários de Deodoro – ou seja, aqueles que mais direta e imediatamente poderiam ameaçar o regime.382 Custódio de Melo, ministro da Marinha de Floriano, seria inicialmente favorável à política de salvações por acreditar não haver alternativa à violação da Carta Magna:
“E se a nossa constituição, no entender de V.Exc. é um obstáculo para que se pacifique o Rio Grande do Sul, o Poder Executivo, a quem compete manter a paz interna e velar pela tranquilidade pública, não podendo, portanto, deixar entregue à luta armada o destino desse Estado inteiro, deve, em minha opinião, tratando-se da salvação pública – porque este é o caso – lançar mão de meios extraordinários, mesmo fora da lei, para a todo transe consegui-la.”383
Muitas das salvações ocorreram, contudo, em detrimento de oficiais do Exército anteriormente incrustrados nos governos locais.384 As rivalidades, as rixas, os ódios entre companheiros de corporação dilaceravam as Forças Armadas de per si perpassadas por aguda politização.385 Embora em intensidades distintas, Marinha e Exército foram tragados pelo torvelinho de facciosidade característico da política brasileira naquela quadra histórica. Seguramente não contribuiu para serenar os ânimos o fato de os governos Deodoro e Floriano terem concedido aumentos de salário muito mais elevados para a força terrestre, deixando a força naval para trás. Conforme Carvalho, entre 1889 e 1895, o Exército teve os
381
Pedro Calmon. História do Brasil (Vol.V). op.cit., p.56.
382 Ibid., p.62.
383 MELO, Custódio José de. O Governo Provisório e a Revolução de 1893 (V.2). Rio de Janeiro: Companhia
Editora Nacional, 1938. p.63-69. Apud José Miguel Arias Neto. Em busca da cidadania. op.cit., p.207.
384 Ibid., p.57. 385
Deve-se notar que a Marinha também participou do salvacionismo florianista. Carlos Baltasar da Silveira foi nomeado governador do Rio de Janeiro (na verdade, um interventor) por Floriano e exerceu o cargo entre dezembro de 1891 e maio de 1892.
salários reajustados em 122,5% e a Marinha em 53,0%.386 Talvez mais deletério do que a flagrante diferenciação entre as duas forças em termos salariais tenha sido a ingerência, ou a ameaça de ingerência, do Exército nas promoções da Marinha. Wandenkolk, ainda ministro da Marinha de Deodoro, pediu a intercessão de Rui Barbosa, ministro da Fazenda, para convencer o generalíssimo a não interferir no processo.387
Os inevitáveis sobressaltos decorrentes do salvacionismo motivaram a apresentação de uma carta-manifesto por parte de 13 oficiais-generais da Marinha e do Exército, em 31 de março de 1892, pela qual solicitavam ao chefe do Executivo em funções que convocasse eleições presidenciais conforme o disposto na Constituição Federal.388 Pediam, igualmente, que Floriano fizesse cessar a “(…) desorganização em que se acham os estados, devido à indébita intervenção das Forças Armadas nas deposições dos respectivos governadores (…).”389 Pouco depois, Peixoto reagiu, fazendo publicar um manifesto seu em que rejeitava liminarmente o teor do pedido dos oficiais-generais, acusava-os de indisciplina e falta de patriotismo e atribuía punições a todos eles. Custódio de Mello apoiou a ação do presidente, o que diz muito sobre sua relação com Wandenkolk.390 Dos quatro almirantes e nove generais, quase a totalidade foi compulsoriamente reformada. Rui Barbosa foi o responsável por denunciar a arbitrariedade na imprensa e defender os ofendidos perante a justiça.
O vice-almirante Eduardo Wandenkolk, ex-ministro da Marinha, candidato a vice- presidente na chapa de Deodoro, senador constituinte pelo Distrito Federal e um dos principais líderes navais da época, encontrava-se entre os militares apenados. Mais ainda, Wandenkolk foi preso e desterrado para Tabatinga, no estado do Amazonas, juntamente com outros inimigos políticos do regime, acusado de tomar parte em suposta conspiração levada a
386 Segundo Carvalho, os aumentos para os servidores civis foram, em média, de 11,4% no mesmo período.
José Murilo de Carvalho. Forças Armadas e Política no Brasil. op.cit., p.56.
387 Não é possível, com os dados disponíveis, afirmar que houve interferência sistemática do Exército nas
promoções da Marinha. No entanto, os termos duros utilizados por Wandenkolk em sua comunicação com Rui Barbosa sugerem que algo nessa linha foi ao menos sugerido ou esboçado. Qualquer um que conheça
minimamente a psicologia militar sabe que esse tipo de ação – a ingerência externa nas promoções – tem consequências potencialmente explosivas e pode, sim, ser considerada um fator de atrito sério entre Exército e Marinha. Ver LOPES, Murilo Ribeiro. Rui Barbosa e a Marinha. Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa, 1953. p.13-14. (Carta de Wandenkolk a Rui de 10 de janeiro de 1890).
388
Pedro Calmon. História do Brasil (Vol.V). op.cit., p.333.
389 Idem.
efeito no dia 10 de abril de 1892.391 Em agosto do mesmo ano, os presos políticos seriam anistiados pelo congresso.392 Wandenkolk, decidido a trabalhar pela derrubada do governo, seguiu para o Prata com a intenção de juntar-se aos revoltosos gaúchos. Logo ele protagonizaria o evento do Júpiter (navio mercante artilhado pelo ex-ministro da Marinha de Deodoro e seus seguidores), em que tentou, sem sucesso, desembarque de tropas em Rio Grande (RGS) com o objetivo de tomar a cidade. Por problemas de coordenação, não houve apoio das forças terrestres comandadas por Gumercindo Saraiva, o que acabou resultando na captura do Júpiter pelo cruzador República.393
Wandenkolk foi então detido e levado para a fortaleza de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, pertencente ao Exército. Rui Barbosa faria a defesa de Wandenkolk e dos demais militares e civis capturados no navio, solicitando habeas corpus ao Supremo Tribunal Federal (STF). Como Wandenkolk era senador, entendia o tribuno baiano que somente a justiça civil poderia julgá-lo, após autorização do Senado. Floriano, no entanto, pretendia julgar o almirante rebelde em um tribunal militar. O STF, ao contrário do que fizera quando do desterro dos elementos supostamente envolvidos na sedição de 10 de abril de 1892, momento em que fora pressionado pelo aparato repressivo florianista, aprovou o pedido em 2 de setembro de 1893.394 Quatro dias depois, a Revolta da Armada seria desencadeada por Custódio de Melo, quando se encontrava em pleno andamento a Revolução Federalista no Rio Grande do Sul.