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Capítulo 5 A ascensão civil e o estabelecimento das bases da grande estratégia nacional

5.4 Canudos, navalismo e tensões internacionais

A repressão governamental serviu para reduzir o ímpeto do jacobinismo que, a despeito disso, não desapareceu completamente.477 De acordo com Edgar Carone, o que desaparece é a identidade entre jacobinos civis e militares, que a partir daí passarão a atuar independentemente uns dos outros.478 Contudo, o autor não explica por que essa identidade teria desaparecido de uma hora para outra. Pode-se supor que, além da repressão aos elementos suspeitos de apoiarem o atentado ao Presidente, terá contribuído para a suposta desarticulação entre radicais civis e militares o desastre sofrido pelo Exército em Canudos.479 A imensa dificuldade da força terrestre em subjugar sertanejos fanáticos no interior da Bahia, acusados de monarquistas para justificar as ações brutais das autoridades, demonstrou de maneira cabal como a politização do Exército tinha como contraparte a sua imensa debilidade como força combatente. No entender de McCann:

475 Ibid., p.160. 476

Apesar do desterro, logo seriam liberados por meio de habeas corpus impetrado no Supremo Tribunal Federal por Rui Barbosa. Ibid., p.167-168.

477 Entre as medidas adotadas estava o fechamento do Clube Militar. Renato Lessa. A invenção da república no

Brasil: da aventura à rotina. op.cit., p.40.

478 Edgar Carone. A República Velha (Evolução Política). op.cit., p.169. 479

Coincidentemente, a tentativa de assassinato de Prudente de Morais no Arsenal de Marinha ocorreu no dia em que o Presidente foi receber as tropas que retornavam da Bahia depois das cinco tentativas (quatro delas frustradas) de submeter o povoado de Canudos.

“Se alguns esperavam que Canudos ensejasse uma República dominada por militares, o resultado foi o oposto. O desastre reforçou o controle dos oficiais que almejavam reformar e profissionalizar o corpo de oficiais e dos políticos civis que desejavem reduzir a influência militar sobre o governo. O Exército encerrou a década quase em colapso. Os anos seguintes seriam devotados à sua reconstrução e ao estabelecimento do papel apropriado do Exército na sociedade e na política do Brasil.”480

A desarticulação das Forças Armadas, agravada pelas dificuldades financeiras enfrentadas pelo País, ocorria em um ambiente internacional de crescentes tensões. Os imperialismos europeu e norte-americano não podiam ser descontados como inócuos,481 tampouco as implicações dos maciços investimentos em defesa feitos pela Argentina.482 Essa nação, rival geopolítica do Brasil desde a Independência, vinha experimentando um notável processo de crescimento econômico. Entre 1870 e 1914, o Produto Interno Bruto argentino ampliou-se, em média, 5% ao ano.483 O rápido incremento populacional, por sua vez, deveu- se à imigração em grande escala – o que permitiu àquela nação saltar de 1.736.923 habitantes, em 1869, para 3.954.911, em 1895, e 7.885.237, em 1914, de acordo com os dados do censo portenho.484 Apesar do crash das finanças argentinas em 1890, o país retomaria, na segunda metade da década, a trajetória de robusto crescimento.485 A maior disponibilidade de recursos, acompanhada pelo recrudescimento da disputa com o Chile em

480 McCANN, Frank D.. Soldados da pátria: história do exército brasileiro, 1889-1937. São Paulo: Companhia

das Letras, 2007. p.101.

481 A questão da ilha da Trindade estava muito fresca na memória de todos, assim como a consciência de que

permanecia em aberto a definição da fronteira do Brasil com a França (Guiana Francesa), uma das potências imperialistas da época. Da mesma forma, ainda que os governos republicanos tenham buscado uma forte aproximação com os Estados Unidos, não foram poucos os analistas do período que apontaram o perigo representado pelo expansionismo norte-americano – como foi o caso de Eduardo Prado e Arthur Dias.

482 Ao ser questionado pelo chanceler Thomas Anchorena, em fins de 1892, a respeito de relatório do

Ministério da Marinha no qual se apontava a Argentina como provável adversário a ser enfrentado, o ministro brasileiro Assis Brasil afirmou tratar-se apenas da necessária cautela que todo país deve ter com seus vizinhos – não havendo intenção hostil alguma do governo brasileiro em relação a Buenos Aires. O diplomata gaúcho aproveitou a oportunidade para mencionar que ninguém no Brasil compreendia os “aprestos” bélicos levados a cabo pela Argentina, uma vez que excederiam em muito o que parecia razoável. AHI, Ofício reservado de Buenos Aires, 27 dez. 1892. apud Clodoaldo Bueno. A República e sua Política Exterior (1889 a 1902). op.cit., p.244.

483 CONDE, Roberto Cortés. The growth of the Argentine economy, c. 1870-1914. In: BETHELL, Leslie (edt.).

Argentina since independence. Cambridge: Cambridge University Press, 1993. p.49.

484 Ibid., p.55. 485 Ibid., p.62-63.

torno da demarcação das fronteiras dos dois Estados, parece ter sido o foco principal do investimento militar capitaneado por Buenos Aires.486

Essa circunstância, acoplada à devastação da Marinha depois da Revolta da Armada, levou à perda da preeminência naval brasileira na América do Sul para a Argentina e o Chile,487 o que representava, no mínimo, um duro golpe no prestígio internacional do País. Para que se tenha ideia mais precisa desse fenômeno, por ora basta mencionar dois aspectos: um ideológico, outro material. No plano ideológico, vivia-se sob o impacto do navalismo de Alfred T. Mahan, cuja obra The Influence of Seapower upon History, 1660-1783 havia sido publicada em 1890.488 Se é fora de dúvida que o capitão-de-mar-e-guerra norte-americano não foi o primeiro, tampouco o único, a defender a preponderância do poder naval como fator crítico para a grande estratégia das nações, 489 o seu livro teve o mérito de surgir em momento especialmente favorável. Basta mencionar o exponencial prestígio adquirido por ele, um simples oficial superior da marinha dos Estados Unidos.490 Em 1894, Mahan, de passagem pelo Reino Unido, foi recebido por ninguém menos do que a Rainha Vitória, o Kaiser Guilherme II (em visita à sua avó), o Príncipe de Gales, o Primeiro-Ministro Lord Rosebery e o Barão Rothschild – sem mencionar o fato de que foi o primeiro estrangeiro a entrar no restrito Royal Navy Club.491 No Japão, sua obra foi traduzida em 1897 e, por édito imperial, distribuída a todas as escolas de nível intermediário, intermediário-superior e

486

De acordo com Scheina, terá contribuído para a corrida naval entre Argentina e Chile o recrudescimento dos desacordos relacionados à demarcação da fronteira da Patagônia aliado ao fato de, na chefia de governo chilena, encontrar-se o almirante Jorge Montt – um dos líderes da revolução que opôs Marinha e Parlamento, de um lado, e o Presidente Balmaceda e o Exército, de outro. A vitória dos primeiros e a assunção da

presidência por Montt, entre 1891 e 1896, teriam contribuído para intensificar a disputa por supremacia naval. SCHEINA, Robert. Latin America: A Naval History, 1810-1987. Annapolis: Naval Institute Press, 1987. p.46- 47.

487 No final do governo Floriano, apesar da rivalidade entre Exército e Marinha, o governo aprovou a

contratação de empréstimo de £ 2.000.000 junto à casa N.M. Rothschild & Sons para a aquisição de meios navais junto a estaleiros franceses. Certamente deve ter contribuído para tanto a percepção da vulnerabilidade do País e a tentativa de apaziguar a Marinha. Cf. Brasil. Ministério da Fazenda. Relatório do ano 1895 apresentado ao Presidente da Republica dos Estados Unidos do Brazil. 1896. p.5.

488 Marder salienta que Mahan exerceu influência no pensamento estratégico equivalente à de Copérnico no

domínio da astronomia. Mahan foi um dos primeiros autores a tratar a estratégia naval de modo sistemático, de forma independente da estratégia (terrestre) lato sensu. Ver MARDER, Arthur J.. From the dreadnought to Scapa Flow: the Royal Navy in the Fisher era, 1904-1919 (vol.I). London: Oxford University Press, 1961. p.4.

489 Utiliza-se aqui o sentido contemporâneo do termo, que naquele momento histórico ainda não fazia parte do

léxico corrente dos estrategistas.

490 Mahan foi presidente do United States Naval War College. Deve-se notar, contudo, que a marinha dos EUA

estava naquela época longe de ter o prestígio que possui hoje.

491 CROWL, Philip A.. Alfred Thayer Mahan: The Naval Historian. In: PARET, Peter (edt.). Makers of Modern

normal do país.492 No Brasil, Rui Barbosa utilizou o trabalho de Mahan como um dos fundamentos de seu ensaio Lição do Extremo Oriente – em que defende a necessidade premente de o País construir poder naval indispensável à sua defesa.493 O texto de Barbosa seria logo reproduzido em uma das edições da Revista Marítima Brasileira (maio de 1895).494 Esta, por sua vez, publicaria tradução da obra do oficial estadunidense também em 1895.495

Do ponto de vista material, a decadência naval do Brasil era patente. De acordo com o relatório do Ministério da Marinha de 1895, dos 27 navios que constituíam o núcleo combatente da esquadra apenas 12 tinham condições mínimas de serem empregados.496 Desses, apenas dois eram modernos e três mais poderiam ser razoavelmente úteis em combate. De acordo com o ministro Elisiario Barbosa:

“Pela descrição já feita de todos os navios se verifica, Sr. Presidente da República, que apenas dispomos atualmente, para combate, de um encouraçado de oceano; de três cruzadores, sendo um de 2a, um de 3a, e um de 4a classe, todos sem a velocidade e o raio de ação necessários, qualidades hoje essenciais e levadas a alto grau nos navios de todas as potências; de uma caça-torpedeira de marcha de 18 milhas. Isso quer dizer, que nos achamos desarmados, impossibilitados não somente de aceitar qualquer batalha naval como mesmo para opor a menor resistência à guerra de corso, que o nosso comércio marítimo pode ser repentinamente paralisado; que nossos portos se acham sujeitos a serem tributados e bombardeados impunemente.”497

Ao requisitar recursos para a aquisição imediata de dois encouraçados e dois cruzadores- encouraçados adicionais, Barbosa enfatiza a necessidade de os políticos atenderem à defesa nacional sob pena de exporem o País a grandes perigos. De maneira dúbia, finaliza seu relatório com a seguinte afirmativa: “Reorganisar a esquadra é garantir a paz externa e quiçá

492

Ibid., p.475.

493 Rui Barbosa afirma que o poder naval é a forma preponderante de poder militar e que o Brasil deveria dar

máxima atenção à sua Marinha. Para fundamentar tal assertiva, utiliza as lições emanadas da guerra sino- japonesa de 1894 – em que o Japão triunfara porque obtivera o controle do mar. O antigo ministro da Fazenda de Deodoro refere-se a Mahan como “grande autoridade americana” e cita o seu The Influence of Seapower. Rui Barbosa. Cartas de Inglaterra. op.cit., p.163.

494 Periódico editado pela Marinha do Brasil.

495 A Revista Marítima Brasileira publicou tradução do mencionado livro de Mahan em 1895. Cf. MARTINS

FILHO, João Roberto. A marinha brasileira na era dos encouraçados, 1895-1910. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010. p.44.

496

Brasil. Ministério da Marinha. Relatório do ano 1895 apresentado ao Presidente da Republica dos Estados Unidos do Brazil. 1896. p.68-73.

tornar estável a tranquilidade interna da República.”498 Enquanto a Marinha do Brasil encontrava-se em frangalhos, inclusive com aguda carência de pessoal,499 a Argentina caminhava a passos largos para obter equivalência naval com o Chile. Ambos os países encontravam-se envolvidos no que muitos analistas classificavam como corrida naval ou paz armada.500 Entre 1891 e 1902, a Argentina encomendou 21 navios de guerra (2 encouraçados, 1 cruzador-encouraçado de 1a classe, 5 cruzadores de 1a classe, 4 cruzadores de 2a classe, 4 destroyers, 1 fragata, 2 caça-torpedeiras e 2 navios de transporte) – cuja tonelagem total excedia as 80.000 toneladas.501 Isso sem falar em 22 torpedeiras, incorporadas entre 1880 e 1893.502 Santiago, a seu turno, fez um enorme esforço para manter vantagem sobre Buenos Aires no plano naval. Em 1900, as suas marinhas encontravam-se entre as 10 maiores do mundo em tonelagem.503Depois de assinados os Pactos de Mayo de 1902,504 por meio dos quais os dois países aceitavam o arbitramento de suas divergências fronteiriças e estabeleciam um dos primeiros acordos de limitação de armamentos do mundo, houve uma temporária redução da incorporação de novas unidades. Os dados de Lacoste são

498 Essa frase comporta diversas leituras, inclusive a de que o reforço da Marinha serviria à contenção do

Exército no plano doméstico. Certamente, sinaliza ao Poder Executivo a necessidade de reconstituir a esquadra com o fito de evitar agitações como a que deu origem à Revolta da Armada. Ibib., p.73.

499

De acordo com o relatório do ano de 1895, a necessidade mínima de marinheiros para guarnecer os navios da esquadra era de 2916 homens. No entanto, o quadro contava com apenas 1708. Em idêntico sentido, o Corpo de Infantaria de Marinha que, em 1852, dispunha de um efetivo autorizado de 1216 praças, possuía em 1895 tão somente 212 homens de um efetivo autorizado de 360. Isso sem falar na confusão prevalecente no quadro de oficiais, por força das reformas, promoções meteóricas e anistias que se seguiram à Revolta da Armada. Ibid., passim.

500 A corrida naval nada mais significava do que o polêmico conceito de corrida armamentista aplicado à

marinha. A paz armada, por sua vez, refere-se à situação estrutural em que dois ou mais Estados encontram-se diante de dilema de segurança – em que as aquisições de armamentos por parte das demais unidades estatais fazem com que sejam obrigadas a igualar ou ultrapassar aquelas aquisições sob pena de verem a sua segurança comprometida. Como o conceito indica, no entanto, o equilíbrio na disputa por armamentos mantém a paz – a despeito da suposição implícita de que desequilíbrios podem levar a agressões. Ver LACOSTE, Pablo. Chile y Argentina al borde de la guerra (1881-1902). Anuario del Centro de Estudios Históricos Profesor Carlos S. A. Segreti, Universidad Nacional de Córdoba, año 1, N° 1, 2001, p. 301-328.

501

Ibid., p. 326.

502 Idem.

503 Lacoste afirma, baseado em dados de Paul Kennedy, que as forças navais da Argentina e do Chile tinham

cerca de 100.000 toneladas em 1900, o que as colocaria empatadas na oitava posição entre as marinhas do mundo em tonelagem – à frente da marinha do Império Austro-Húngaro, mas bem atrás do Japão, cuja esquadra seria a sétima maior com 187.000 toneladas. Apesar de a tabela organizada pelo pesquisador argentino ser instrutiva, ela apresenta erros como o relativo à apresentação da França como segunda maior potência naval com uma esquadra de 99.000 toneladas. Em qualquer circunstância, a tonelagem representa apenas uma medida – imprecisa, é verdade – das capacidades de uma força naval. Ela não dá conta da qualidade do material flutuante nem dos homens que guarnecem os navios. Ibid., p. 328.

504

De acordo com Lacoste, em 1902 e 1903, como decorrência dos Pactos de Mayo, ambos os países

concordaram em desfazer-se de navios em construção. A Argentina vendeu os cruzadores Moreno e Rivadavia para o Japão; e o Chile os encouraçados Constitución e Libertad, para o Reino Unido. Ibid., p.324.

corroborados por Bueno. Este refere-se a ofício confidencial da embaixada em Buenos Aires para a Secretaria de Estado das Relações Exteriores, datado de 7 de agosto de 1900, no qual se relata o crescimento espetacular da esquadra argentina em perspectiva histórica e suas implicações para o Brasil:

“(...) de 6.114 toneladas em 1875, passou para 12.377 em 1880, 15.975 em 1885, 17.481 em 1890, 39.121 em 1895 e 94.891 em 1900. A possibilidade de uma guerra com o Chile explicava o grande aumento havido no último quinquênio referido, da ordem de 55.770 toneladas. Gonçalves Pereira ao ponderar as decorrências de tal aumento – que colocava a esquadra argentina em posição superior à do Brasil – reportou-se às palavras de Duferin, embaixador da Grã-Bretanha em Paris: ‘a força e não o direito ainda é o fator mais eficiente nos negócios humanos.’ (...) a inferioridade naval brasileira seria ‘uma débil garantia de paz para a América do Sul, especialmente para o Brasil...”505