3.1 A Teologia como História
3.1.1 A questão do sofrimento como sujeito objeto e finalidade da teologia
A reflexão sobre a fé, segundo Forte, deve responder as questões: qual o sujeito da Teologia? Qual o objeto que ela reflete? Qual a finalidade da Teologia? Ao responder essas questões queremos encontrar também respostas para a questão do sofrimento humano. Essas questões devem ser respondidas a partir do encontro do êxodo e advento. O sujeito é aquele que proporciona o encontro: o Deus vivo. “É ele que, vindo ao homem, suscita também a abertura da criatura ao mistério, é ele que, amando, nos torna capazes de amar, e, conhecendo, abre os olhos da mente de quem por ele é conhecido”.72
Aquele que torna possível essa inciativa divina do encontro é o Espírito. “Ele que falou por meio dos profetas e desceu em plenitude sobre o Cristo e foi prometido e dado aos apóstolos e neles à Igreja, para fazê-los testemunhas do Senhor ressuscitado até os confins da terra e da história”.73 Logo, o sujeito a ser
estudado é ação do Espírito na vida do mundo. Ele tem a responsabilidade de atualizar essa iniciativa divina que proporciona o encontro entre êxodo e advento. O sujeito visível da ação do Espírito é a Igreja. Nela acontece a recepção do advento divino e a sua transmissão. Sendo assim, todos em comunhão eclesial são
71 FORTE, Bruno. A Teologia como companhia, memória e profecia p. 132. 72 FORTE, Bruno. A Teologia como companhia, memória e profecia p. 134. 73 FORTE, Bruno. A Teologia como companhia, memória e profecia p. 135.
convidados a refletir sobre a fé, a fazer teologia de maneiras diversas. A comunidade que é a Igreja é convidada à luz do Espírito Santo a dar esperança aos que sofrem e estar ao lado deles da mesma maneira que Deus está.
Diferente são as formas da comunidade de fé estar ao lado dos que sofrem. A primeira forma, Forte intitula de contemplação ou popular: ela não é necessariamente sistemática, mas nasce da intuição da contemplação, da oração e da experiência de fé de todo batizado. A essa liga-se a forma profissional: que é “a via da reflexão da fé, elaborada mediante atividade crítica, analítica e inquisidora, à maneira de pesquisa ativa, intencional, movida pelo amor, mas articulada segundo as formas do compreender”.74
Estar ao lado dos que sofrem pode fazer com que o crente desanime por defender suas posições e não obter respostas satisfatórias. As reflexões devem ser um esforço sincero de perceber no êxodo humano a novidade do advento que caminha ao lado dos que sofrem. Também deve evitar uma atitude de fuga dos desafios presentes. Une-se a essas tentações de medo e evasão a impaciência em relação ao futuro, a respostas que necessitem de um exercício de paciência maior.
Outra via de afirmação da comunidade: estar ao lado dos que sofrem cabe aos pastores da Igreja. O magistério da Igreja tem a função de receber as reflexões feitas e discernir sob a guia do Espírito Santo a veracidade dos sinais do advento e de que forma pode-se tornar mais eficaz essa presença junto aos que sofrem.
O Papa Francisco na Carta Encíclica Lumen Fidei ao falar da relação entre fé
e Teologia e destas com os mais simples destaca a importância do bom relacionamento entre elas resumindo e reafirmando o que já foi explanado neste ponto.
a teologia partilha a forma eclesial da fé; a sua luz é a luz do sujeito crente que é a Igreja. Isso implica, por um lado que a teologia esteja ao serviço da fé dos cristãos, [...] sobretudo dos mais simples; e, por outro, [...] a teologia não considera o magistério [...] como algo de extrínseco, um limite à sua liberdade, mas, pelo contrário, como um
dos seus momentos internos constitutivos, enquanto o magistério assegura o contato com a fonte originária.75
Sabendo que o sujeito da Teologia é todo batizado em níveis de responsabilidade diferentes o objeto é o próprio Deus vivo que se revela, que se dá a conhecer em sua plenitude em Cristo. De que forma Deus está diante dos que sofrem? A Teologia estuda esse mistério e tem a responsabilidade de transmití-lo para um amadurecimento da compreensão da relação entre advento e êxodo. O desafio da Teologia é compreender a História e perceber a ação do advento na História. “Nada do que é humano pode ser estranho ao interesse do teólogo: tudo ele investiga com simpatia e intenção de amor, na verdade de quem lê, com as expectativas e os caminhos abertos, a dolorosa fadiga das veredas interrompidas”. Segundo essa ideia a Teologia deve pensar o êxodo e advento conjuntamente. Conhecendo o sujeito e objeto da Teologia podemos definir suas finalidades.
A primeira finalidade da Teologia é pensar o advento diante do sofrimento. Como a iniciativa é sempre divina, cabe a Teologia especular este mistério que se revela para que todo ser volte sua face para esse mistério. Outra finalidade é pensar o êxodo para que este possa ser iluminado pelo advento. Cabe a comunidade de fé ter ciência das inquietações mundanas para que possa confrontá-las com o advir divino. Nisso abre-se a possibilidade da terceira finalidade: pensamento da aliança que é a acolhida do advento e a solidariedade com o êxodo humano.
Essa tríplice finalidade proporciona à comunidade de fé dar-se conta da árdua tarefa de ser sempre um viajante aberto ao novo, com os pés no presente recordando o testemunho do passado: “O vento sopra onde quer e ouves o seu ruído, mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todo aquele que nasceu do Espírito.” (Jo 3,8) O Espírito motiva a caminhada da reflexão da fé para que ela possa ser sinal da presença de Deus na humanidade primeiro junto aos que sofrem.