4 TRAJETÓRIA DA CONCEPÇÃO DE AVALIAÇÃO
4.6 A QUINTA DIMENSÃO: A MELHORIA DO PROCESSO
Os autores Vieira e Tenório (2010), com base nos estudos apresentados, desenvolvidos por Guba e Lincoln (1989), trazem suas contribuições à avaliação, identificando algumas lacunas, destacando principalmente duas: a insuficiência do próprio conceito de gerações e a não-garantia da sustentabilidade dos resultados pela quarta geração, que incorpora a negociação. Tal constatação os leva a prognosticar a construção de uma nova teoria da avaliação. O novo conceito inclui todas as outras dimensões da avaliação, ampliando a ação avaliativa para depois da tomada de decisão, ou seja, a Melhoria do Processo, para além dos resultados da avaliação.
Os autores recomendam uma nova forma de pensar os valores dos interessados, observando os resultados da avaliação após a própria avaliação. Os resultados finais não podem se abster de outros interessados, a exemplo da abrangência ao meio ambiente, comunidade, sociedade, numa perspectiva de avaliação que tem compromisso com a sustentabilidade (VIEIRA; TENÓRIO, 2011).
Eles partem da análise do conceito de avaliação que, no seu campo de aplicação, denota construção social e histórica e, por assim ser, é influenciado pelo processo evolutivo pelo qual passa a humanidade, sujeita às transformações, conforme se dá com as relações sociais. Referem-se ao equívoco sobre o uso da terminologia “gerações”, relacionadas ao desenvolvimento do conceito de avaliação, mas que apresentam sucessivos conceitos independentes nas quatro formulações conceituais denominadas por Guba e Lincoln (2011), sem ocorrer uma transformação conceitual em que uma fase contribui para a formação da fase conceitual posterior (VIEIRA; TENÓRIO, 2010).
Sugerem a substituição de “gerações” por “dimensões” da avaliação, tendo em vista a relação com elementos constitutivos da ideia contemporânea de avaliação, relacionada a cada momento histórico. Anteveem uma nova dimensão, que se configura na ressignificação sócio-
histórica do conceito de avaliação. Opinam sobre a demanda dos atores dos processos avaliados utilizarem efetivamente a avaliação para a melhoria do processo (VIEIRA; TENÓRIO, 2010).
No estudo, Vieira e Tenório (2010) propõem um novo paradigma e conceito de avaliação, o paradigma da sustentabilidade. Segundo os autores, é necessário reconsiderar os elementos de constituição desta nova condição para uma atualização. Afirmam “que avaliar é o diagnóstico para a tomada de decisão com vistas na melhoria do processo” (p. 65). Esse conceito engloba todas as dimensões da avaliação, ampliando a ação avaliativa para a fase posterior à tomada de decisão, ou mesmo depois do que se conhece como resultados da avaliação (VIEIRA; TENÓRIO, 2010).
Nesta perspectiva, sugerem uma nova visão sobre os valores dos interessados, que se ampliam para incluir outras partes ou segmentos, como o meio ambiente, a comunidade, a sociedade, que não podem encontrar-se isolados das ações no curso da avaliação, ou seja, devem inserir-se em seus resultados. Daí porque chamam atenção para a observação dos resultados da avaliação, após a própria avaliação, inserindo-se assim um novo elemento conceitual, que consta de um compromisso com a sustentabilidade. Convidam-nos a uma reflexão sobre a possibilidade de se estar introduzindo uma quinta dimensão, a Melhoria do Processo (VIEIRA; TENÓRIO, 2010).
Os autores desenharam um mapa conceitual das cinco dimensões que facilita a compreensão de sua tese.
Figura 2 - Mapa conceitual das cinco dimensões
Fonte: Vieira e Tenório, 2010
Referem-se os autores ao estudo de Guba e Lincoln, quanto ao distanciamento e aproximação dos interessados, relacionando as três dimensões iniciais de forma isoladas individualizadas e descontextualizadas, enquanto que a quarta dimensão é apresentada de forma aproximada dos interessados. Vieira e Tenório (2010) organizaram ideias que relacionam elementos dos paradigmas construtivista e da sustentabilidade, auxiliando a compreensão sobre suas especificidades.
O paradigma da sustentabilidade estabelece uma compreensão diferenciada do paradigma construtivista, proposto por Guba e Lincoln, que se apoiam na ontologia relativista, na epistemologia subjetivista monista e na metodologia hermenêutica. Propõem Vieira e Tenório (2010), com o novo paradigma, a crença na sustentabilidade, relacionada a uma ontologia ecológica, fruto de múltiplas realidades construídas socialmente e também não observadas. Significados e conceitos resultam de uma construção que reconhece homem e mundo, observado e complexo nas redes de relações.
A epistemologia, no paradigma da sustentabilidade, é a da complexidade - investigador e investigado não existem, os atores investigam realidades construídas por eles.
DIAGNÓSTICO TOMADA DE DECISÃO MELHORIA DE PRO- CESSO INTELIGÊNCIA: A busca da verdade VONTADE: Capacidade de tomar decisões
AMOR: Capacidade de reconhecer o outro MEDIDA (Quantitativa) OBJETIVOS (Qualitativa) JULGAMENTO (Decisão Individual) NEGOCIAÇÃO (Decisão Coletiva) COMPROMISSO DISTANCIAMENTO ENVOLVIMENTO 1ª dimensão 2ª dimensão 4ª dimensão 3ª dimensão dimensão5ª ASPECTO TÉCNICO DA AVALIAÇÃO ASPECTO POLÍTICO DA AVALIAÇÃO ASPECTO SOCIAL DA
As redes que interligam indivíduos e mundo carecem de clareza. No paradigma construtivista, investigador e investigado interligam-se, os produtos da investigação relacionam-se às criações no processo. A metodologia do paradigma da sustentabilidade compreende um seguimento com base na interação dialética, análise crítica e reanálise, finalizando o compromisso com o resultado. Já a metodologia construtivista é hermenêutica, compreende interação dialética, análise crítica e reanálise num processo continuado (VIEIRA; TENÓRIO, 2010).
Vieira e Tenório (2010), ao explicarem sobre o paradigma da sustentabilidade, referem-se ao “ser” como “social”, porém complexo. Essa complexidade decorre da não- limitação do “ser” às suas construções, que o fazem ir além da significação social, e da possibilidade de aceitação da não-construção. Os vínculos, homem e mundo, devem ser compreendidos como interessados, numa rede de vida (CAPRA, 1996, apud VIEIRA; TENÓRIO, 2010). Guba e Lincoln (2011), referiram-se ao paradigma construtivista como múltiplas realidades construídas socialmente, independentes das leis naturais, prevalecendo o consenso.
Para Vieira e Tenório (2010), no paradigma da sustentabilidade, o compromisso do avaliador é renovado por uma responsabilidade de dimensão espacial, em rede de vínculos que se estende ao presente, temporal e após a avaliação. Na quarta dimensão, a responsabilidade do avaliador é com o processo. Na quinta dimensão, o avaliador desenvolve a criticidade na análise que envolve todo o processo de construção, fundamentalmente nos resultados e na sustentabilidade dos ganhos. Na primeira dimensão de Guba e Lincoln, o avaliador converte o papel de técnico para especialista em dados qualitativos, embora mantendo o conhecimento quantitativo (VIEIRA; TENÓRIO, 2010).
O avaliador da quinta dimensão atenta para a análise da complexidade, resultante do próprio paradigma. No estudo de Guba e Lincoln, na segunda dimensão, o avaliador transfere o papel de descritor dos objetivos para historiador. Já a quarta dimensão vai exigir do avaliador o papel de descritor, compreendendo o avaliado em contexto geral, de forma mais completa e complexa (VIEIRA; TENÓRIO, 2010).
Na terceira dimensão de Guba e Lincoln (2011), o avaliador tem o papel de julgador; na quarta dimensão, o papel é transferido para mediador, utilizando-se do consenso. Na quinta dimensão, o avaliador debate a decisão que lhe diz respeito. Reúne papéis para além de controlador e colaborador, de aprendiz e de professor, mais o papel de transformador-
transformado da e pela realidade. Inspirado pelo conceito de Paulo Freire, de construção conjunta e de transformação por ela, move-se pela construção conjunta e sofre a transformação da e pela realidade. Engaja-se no papel de cidadão para além do papel político, passando a assumir uma responsabilidade em parâmetros de sustentabilidade, responsável pelos resultados (eficácia) e a sustentabilidade desses resultados (efetividade). Enquanto que, para Guba e Lincoln, a responsabilidade do sujeito com a avaliação recai sobre o quanto esta for negociada (VIEIRA; TENÓRIO, 2010).
Chegamos à finalização do capítulo com algumas conclusões a respeito do estudo realizado por Guba e Lincoln (2011). As três primeiras gerações, embora sejam reconhecidas suas contribuições contextuais e complementaridades, tiveram apontados, no seu conjunto, problemas e imperfeições que justificaram aprimoramentos ou mesmo uma completa reconstrução. A quarta geração surge como uma abordagem alternativa numa proposta construtivista responsiva - processo interativo e negociado, envolvendo grupos de interesse.
No entanto, Vieira e Tenório (2010) discutem e apresentam argumentos sobre a insuficiência das quatro primeiras gerações. Referindo-se tanto às lacunas e limites teóricos quanto à ideia de geração, que não se sustenta na forma como foi utilizada para indicar o desenvolvimento do conceito de avaliação. Observa-se que a indicação é uma sucessão de conceitos independentes, conforme explicam Vieira e Tenório (2010), contrária a uma transformação conceitual histórica, como os autores Guba e Lincoln (2011) quiseram apresentar, enquanto que uma fase conceitual contribui para a formação de uma fase conceitual posterior. Configurando uma transformação conceitual, cada fase amplia o significado dado na fase anterior. Portanto, conforme os autores, a verificação de alcance de objetivos não contesta, mas absorve a ideia de mensuração; já o julgamento incorpora a de medida e a de alcance de objetivos. A ideia de avaliação como negociação não pode dispensar a de mensuração, verificação de objetivos e julgamento de valores.
Argumentam os autores Vieira e Tenório (2010) sobre uma ressignificação sócio- histórica do conceito de avaliação, a denominação de dimensões da avaliação, “correspondem a elementos constitutivos da ideia contemporânea de avaliação, e que foram reconhecidas paulatinamente, estando cada dimensão relacionada a um momento histórico” (p. 64).
Analisando a quarta geração de autoria de Guba e Lincoln (2011), Vieira e Tenório (2010) observam o novo conceito de avaliação centrando em argumentos de aspectos técnicos (análises e técnicas estatísticas), desenvolvendo o pensamento em discussão dos modelos do
final da década de 1980, baseado em problemas processuais existentes na concepção de avaliação. Os autores Guba e Lincoln (2011) reconhecem que não deram a devida atenção às questões sociais, culturais e políticas da quarta geração. Com base em Vieira e Tenório (2010), os dias atuais, apresentam demandas que as quatro gerações já não correspondem, em razão das exigências de uma sociedade onde os ditames da participação, do diálogo, da justiça social, dos valores, da complexidade do ser, das redes de relações, têm significado e valor. Os atores envolvidos na avaliação buscam a melhoria do processo, o que se configura numa nova dimensão - defensora do compromisso efetivo com seus resultados sob o paradigma da sustentabilidade.
Continuaremos no próximo capítulo, com a temática do campo de avaliação, estendendo a apresentação de conteúdos sobre avaliação de políticas, programas e projetos.