Figura 3: Parque poliesportivo do bairro Storch (imagem por satélite – ano 2012)
O que faço neste capítulo é analisar a existência e a ordenação de alguns dos espaços de lazer estabelecidos pelo Plano Diretor Participativo de Ijuí (2010). E busco também mostrar, por meio de imagens fotográficas, as condições de tais espaços nas comunidades (bairros).
Parece que estamos diante de uma modernidade que deveria levar-nos à liberdade e à igualdade, por todos esses processos que, em sua época, representaram uma ruptura histórica, sem dúvida, muito importante. No entanto, hoje, a maneira de se estruturar a cidade a partir de um modo de pensá-la, “se mostra não somente injusta e desigual, mas fundamentalmente insustentável” (LEFF, 2010, p. 83). Nesta distribuição injusta e desigual da modernidade de que fala Leff, entra o território como parte de um projeto que deveria ser de igualdade para todos.
Santos (2010, p. 96, 97) conceitua território como sendo,
O chão e mais a população, isto é, uma identidade, o fato e o sentimento de pertencer àquilo que nos pertence. O território é à base do trabalho, da residência, das trocas materiais e espirituais e da vida, sobre os quais ele influi. Quando se fala em território deve-se, pois, de logo, entender que se está falando em território usado, utilizado por uma dada população.
Sendo o território parte fundamental na identidade dos cidadãos. Então, o espaço público, aqui pensando o de lazer, produz posições identitárias. Para Rolnik (2010) existem duas posições extremas de lazer no modelo de cidade que estamos construindo e consumindo.
A primeira sugere a ideia de lazer como um privilégio de consumo (ou mera possibilidade) de prazer, da cidade e do tempo. Nesta concepção, o espaço urbano fica reduzido a um simples local de acesso, tornando-se apenas o suporte para a
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conexão de pontos. A segunda posição vê o lazer encarnado na cidade, estreitando a relação de uns cidadãos com os outros, ou seja, um lazer com funções sociais e pessoais, identificado com a dimensão pública da cidade (ROLNIK, 2010, p. 200).
Para um entendimento mais alargado de alguns espaços públicos construído em relação ao espaço de lazer na cidade de Ijuí, passo agora a descrever alguns deles, a começar pelo Parque Poliesportivo encontrado no bairro Storch, o mais recente da cidade, construído sobre um antigo campo de futebol. Localiza-se em meio a diversos bairros da periferia, ficando ao norte da cidade. A revitalização deste espaço pelo município trouxe ao entorno uma área residencial inevitavelmente mais cara e mais visível as imobiliárias. Essas novas concepções arquitetônicas e urbanistas acentuam as diferenças entre os pontos qualitativos e o resto do espaço urbano informe. Também foi construída, nas proximidades, uma nova escola e um supermercado, dando ares mais modernos ao espaço.
No entanto, não foi somente o espaço material que se transformou; transformaram-se também as pessoas que o frequentam. As novas atividades que podem ser realizadas nesse espaço são importantes para toda população, mas nem sempre fazem parte das práticas de lazer dos moradores das cercanias. Rolnik (2000, p. 181) afirma que “a administração da cidade que, em vez de exercer sua função pública de cuidar de todos os âmbitos da vida cotidiana, se preocupa apenas em garantir a fluidez do sistema viário”, que liga as ilhas desiguais de oportunidades do lazer público, minguando-se para um papel ridículo e insignificante.
As pessoas mudaram a rotina desse parque construindo alguns cenários de novas práticas de lazer, como o cooper pela manhã e no final da tarde. Mas essas pessoas não são as mesmas que frequentavam o local quando este era um campo de futebol. Como este é o único parque na cidade que possui essas dimensões, sua abrangência se ampliou, atraindo pessoas de uma área maior. À medida que essas novas pessoas chegam (não que isso seja ruim, pelo contrário), as pessoas dos bairros periféricos se afastam e passam a ter seus espaços de lazer cada vez menores. Essa é uma tendência facilmente assinalável no território ijuiense. Segundo Rolnik (2000, p. 182),
[...] a essência do público, seja espaço, convívio ou identidade, que é feita de diferentes linguagens e falas, de troca de olhares, de bens e de amores, acabou minguando, se não regredindo para uma espécie de administração da sobrevivência imediata transformando-se em pura burocracia.
Paralelamente aos espaços de lazer regionalizados, ou seja, espaços de lazer que abrangem muitos bairros, e com isso deixam de levar em conta fatores como tempo e práticas
de lazer distintas já que as práticas de lazer nem sempre são iguais de bairro pra bairro, surgem as novas condições socioespaciais, que exigem maior mobilidade urbana e acesso a bens econômicos. Podemos, então, falar em espaços públicos “seletivos”, ou seja, busca-se a homogeneização das práticas de lazer em toda cidade, o que privilegia poucas pessoas.
Adiante, seleciono mais três bairros para expor a materialidade das condições dos espaços públicos de lazer. Pretendo, desse modo, fazer uma análise comparativa do que trata o Plano Diretor Participativo (2010) e o que se encontra nos bairros. Isso nos ajuda a entender a abrangência da lei, permite que compreendamos o lazer como manifestação cultural e ainda facilita ações futuras, uma vez que nos dá uma dimensão da realidade que deveria ser tratada pelo Plano Diretor Participativo. Sendo assim, começo enriquecendo os traços do bairro Storch do qual já falei um pouco anteriormente.
O parque Poliesportivo do Bairro Storch é um dos espaços públicos no município que apresenta uma organização para vivencias diversificadas de lazer. Este espaço conta com uma área aproximada de 10000 m2, com duas quadras de areia para o jogo de voleibol, um campo de futebol sete e uma quadra de areia para a prática do futebol. Especialmente para as crianças, uma pracinha composta por balanços, escorregadores, e outros acessórios. Também existe uma academia ao ar livre e uma calçada/passeio feita com blocos intertravados pela qual o público realiza caminhadas.
O poder público juntamente com a associação dos moradores dos bairros (quando esta existe e atua de fato) são os responsáveis pela manutenção desses locais. É de se esperar que este espaço se mantenha limpo e organizado.
O parque do bairro Storch tem três anos de uso e é frequentado por pessoas de diversos bairros, inclusive do centro da cidade, do qual fica distante uns três quilômetros. Geograficamente, este espaço multiuso de lazer favorece as pessoas do lado norte da cidade, abrangendo os bairros Storch, Colonial, Tancredo Neves, Glória, além do Centro.
Poderíamos eleger aqui diversas categorias de análise, como a condição econômica de seus frequentadores, já que há variações significativas neste aspecto. Pode este local ser analisado também pelos diferentes públicos14 que o frequentam, em diferentes horários do dia, e pelo espaço físico, foco desta dissertação e que opto por detalhar.
Com o olhar de frequentador, pois sou também morador deste lado norte da cidade, e com o olhar de pesquisador é que passo a descrever as diferentes faixas etárias e as diferentes
14 Diferenças de classes, idade e bairros.
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populações que usufruem deste local. Este espaço se tornou rico em diversidade de pessoas, de classes e de atividades, mesmo sendo direcionado para práticas específicas de lazer.
Durante os dias de semana, o local é ocupado, em sua grande maioria, por jovens que saem das escolas próximas e ali se encontram, sentados pelos bancos que há no parque. Exceção ocorre nas primeiras horas de sol da manhã quando é possível encontrar pessoas se exercitando em caminhadas ao redor do parque. Aos finais de semana, o público aumenta, e é possível encontrar tanto pessoas dos bairros próximos quanto do centro. As diferenças consistem nas práticas de lazer que cada um desses grupos desenvolve e os horários diferentes em que ali se encontram. A população do centro utiliza o espaço para práticas esportivas, como caminhadas e corridas, embora não haja pista e sim calçada/passeio. Os moradores dos bairros, principalmente jovens do gênero masculino, usam o local às tardinhas e nos finais de semana para jogarem futebol e/ou para se encontrarem com amigos nos bancos do parque.
Ao entardecer, em dias quentes, o local continua sendo frequentado até algumas horas da noite, especialmente por moradores do centro. Esta prática viabilizou-se pela revitalização do entorno do parque, com a construção de um supermercado e a ampliação de uma fábrica de sorvetes. Também aumentou o patrulhamento da área pela polícia.
O contexto social deste local é complexo. Entender a cidade com um olhar para além das leis e dos mapas e perceber suas transformações e suas implicações diz respeito ao processo pelo qual passou esta pesquisa. Compreender a relação tempo-espaço na modernidade a partir de um contexto específico de lazer constitui um exercício reflexivo sobre a cidade e as práticas urbanas, especialmente de lazer.
Um ponto a que chamo a atenção é a manutenção deste local. Para esta atividade, geralmente são designados apenados do regime semiaberto do sistema prisional da cidade. Mesmo assim, podemos encontrar balanças quebradas, postes de energia elétrica com algum tipo de problema, telas furadas ou estragadas há mais de meses e falta de areia nas quadras de voleibol e de futebol, a tal ponto que o mato tomou conta. Talvez por falta de areia muitos deixassem de jogar. Apenas se mantém cortada a grama externa ao campo e às quadras, e os meios fios pintados, trabalho este feito pelos detentos.
Este espaço de lazer urbano permite entender os diferentes usos dos espaços, justapostos entre si, e reflete a complexa estrutura social de classes, que, por sua vez, é profundamente desigual. Essa desigualdade social (material) dos espaços públicos urbanos, principalmente os de lazer, é o que favorece a visibilidade de diferentes grupos de pessoas em horários distintos frequentando o parque, o que, por sua vez, distingue este espaço dos demais pesquisados.
O parque Poliesportivo do Bairro Storch faz parte da vida social de quem o frequenta no que diz respeito à cultura e ao lazer. A sua estrutura física também contribui para a permanência e o interesse do sujeito pela prática de lazer. A seguir apresento outros espaços de lazer que não dispõe da mesma estrutura do Parque Poliesportivo. A começar pela descrição do Bairro XV de Novembro.