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objetividade, subjetividade, transformação e

desenvolvimento humano

A realidade pode se manifestar em produtos da atividade humana – objetivações que servem de índices mais ou menos duradouros dos processos subjetivos dos sujeitos, por exemplo, uma atitude subjetiva de “paixão pelo trabalho” pode ser expressa por um certo número de fatores, como o número de horas trabalhadas, a dedicação ao trabalho, a participação em diversas atividades e treinamentos profissionais etc. Mas a realidade da vida cotidiana não é cheia unicamente de objetivações, é somente possível por causa delas. Algo decisivamente importante na objetivação é a significação, isto é, a produção humana de sinais. A linguagem e os discursos produzidos por ela podem ser caracterizados como o mais importante sistema de sinais da sociedade humana (BERGER; LUCKMANN, 2005): as objetivações comuns da vida cotidiana são mantidas primordialmente pela significação linguística. A vida cotidiana é, sobretudo, a vida com a linguagem. A compreensão da linguagem é por isso essencial à compreensão da realidade da vida cotidiana:

[...] desse modo, a linguagem é capaz de se tornar o repositório objetivo de vastas acumulações de significados e experiências, que pode então preservar no tempo e transmitir às gerações seguintes. (BERGER; LUCKMANN, 2005, p. 57).

Para Moscovici (2003), este é um dos mais marcantes fenômenos do nosso tempo: a união da linguagem e da representação social da realidade (ou seja, o modo de compreender e intercambiar maneiras de ver as coisas).

Uma realidade é ao mesmo tempo objetiva e subjetiva e, por isso, qualquer adequada compreensão teórica relativa a ela deve abranger ambas as perspectivas. Isso significa participar da dialética da sociedade, em um

movimento de exteriorização, objetivação e interiorização.83 Mudanças,

metamorfoses, desafios em rotinas institucionalizadas na vida cotidiana, apresentam-se como uma contínua reafirmação para o indivíduo.

A socialização implica, nesse caso, a possibilidade de a realidade subjetiva ser transformada. Estar em sociedade se constitui em um contínuo processo de modificação, que pode ocorrer de forma mais “radical” ou mais “atenuada”, ambas, apesar de serem transformações, ocorrem em graus diferentes: na primeira o indivíduo “muda de mundos”, já na segunda, “o presente é interpretado de modo a manter-se em uma relação contínua com o passado, existindo a tendência a minimizar as transformações realmente ocorridas” (TRANSFORMAÇÕES sociais, 2003). A realidade, nessa segunda situação, é o passado, e o futuro é a transformação. Mas uma vez que a realidade subjetiva nunca é totalmente socializada, ela não pode ser totalmente transformada, por isso a segunda situação é a que caracteriza

esta obra.84 A “socialização secundária”, tal como definida por Berger

e Luckmann (2005), continua a ser construída sobre as interiorizações primárias e, nesta, há transformação parcial da realidade subjetiva ou de particulares setores desta.

Essas transformações parciais são comuns na sociedade contem- porânea em ligação com a mobilidade social do indivíduo e com a formação inicial e contínua do profissional, e, nesse caso em especial, aos profissionais da informação. Uma transformação considerável da realidade pode coexistir com problemas em conservar a coerência entre os primeiros e os tardios elementos da realidade subjetiva.

83 O estudo realizado, que forneceu os subsídios para este capítulo e para a obra em si, está

focado na realidade subjetiva, ou seja, “a realidade tal como é apreendida na consciência individual e não tal como é institucionalmente definida” (BERGER; LUCKMANN, 2005, p. 196).

84 Admite-se que o homem é um ser social e que a sociedade está em constante transformação.

Embora essas mudanças ocorram muito rapidamente, talvez, de uma geração para a outra, é possível registrar-se historicamente grandes mudanças sociais que marcaram época. Os períodos de transformações mais evidentes estão relacionados com as grandes descobertas ou com as revoluções nos paradigmas vigentes (TRANSFORMAÇÕES sociais, 2003).

A vida cotidiana apresenta-se, desta feita, como uma realidade interpretada pelos sujeitos e subjetivamente dotada de sentido para eles na medida em que forma um mundo coerente. Quando se constituem em produtos históricos da atividade humana, os universos socialmente construídos modificam-se, e a transformação é realizada pelas ações concretas dos seres humanos (BERGER; LUCKMANN, 2005). Esse é seu caráter móvel e circulante – as representações dessa realidade também o são. Em suma, há uma plasticidade, uma estrutura dinâmica operando em um conjunto de relações e de comportamentos que surgem e desaparecem, com as representações sociais da realidade.

4.1.1 As representações sociais

A noção de representações sociais chega até nós pelos escritos de Durkheim (2006). Interações humanas na vida cotidiana – surjam elas entre duas pessoas ou entre dois grupos – pressupõem representações. Moscovici (2003, p. 40), em sua teoria das representações sociais, afirma que “sempre e em todo lugar quando nós encontramos pessoas ou coisas e nos familiarizamos com elas, tais representações estão presentes”. As representações são sempre um resultado da interação e da comunicação e elas tomam forma e configuração específicas a qualquer momento, como uma consequência do equilíbrio dos processos de influência social.

Pessoas e grupos criam representações no decorrer da interação, comunicação, cooperação, enfim, nas relações humanas. Disso decorre que as representações têm forte noção coletiva, pois representações não são criadas por um indivíduo isoladamente. Mas isso não significa, como afirma Moscovici (2003), que esse modo de criação subverta a autonomia das representações em relação à consciência do indivíduo ou à do grupo, e sim uma vez criadas elas adquirem “vida própria”, circulam, encontram- se, atraem-se e repelem-se e dão oportunidade ao nascimento de novas representações, enquanto velhas representações morrem:

[...] isso é assim, não porque ela possui uma origem coletiva, ou porque ela se refere a um objeto coletivo, mas porque, como tal, sendo compartilhada por todos e reforçada pela tradição, ela constitui uma realidade social. (MOSCOVICI, 2003, p. 41).

O lado obscuro da representação social é quando esta tem sua origem esquecida e sua natureza é ignorada de tal modo que ela se torna “fossilizada”, cessando sua capacidade de efêmera, mutável e mortal, e, torna-se, em vez disso, duradoura, permanente e quase “imortal”. Moscovici (2003, p. 42) afirma que “quanto menos nós pensamos nelas [as representações], quanto menos conscientes somos delas, maior se torna sua influência”. Não é isso que desejamos para as profissões da informação à medida que reconhecemos a necessidade de investigar as representações sociais e de propor princípios para possibilitar a mudança e a transformação de representações coletivas.

É possível afirmar, então, que o mais importante – nas representações sociais – é a natureza da mudança, na qual tais representações se tornam capazes de influenciar o comportamento do indivíduo participante de uma coletividade. É dessa forma que elas são criadas, interna e mentalmente, pois é assim que o próprio processo coletivo penetra como o fator determinante dentro do pensamento individual (MOSCOVICI, 2003).

4.1.2 O pensamento coletivo

A realidade da vida cotidiana apresenta-se como um mundo intersubjetivo, um mundo em que o sujeito participa com outros sujeitos. De fato, não se pode existir na vida cotidiana sem estar continuamente em interação e comunicação com os outros (BERGER; LUCKMANN, 2005). Sob esse ponto de vista, a atitude de um sujeito na vida cotidiana, apesar de corresponder à atitude de outros, tem perspectivas que não são idênticas. Por exemplo, alguns sujeitos podem ter projetos diferentes de outros sujeitos, que podem gerar conflito. De todo modo, sujeitos vivem em um mundo comum, independentemente de projetos pessoais conflitantes e, o que é mais importante, há uma contínua correspondência entre os significados de alguns sujeitos, pois há partilha em comum no que diz respeito à realidade de ambos.

4.2 A competência em informação – limites e