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2.2 LINGUÍSTICA SISTÊMICO-FUNCIONAL (LSF)

2.2.2 Sistema de Avaliatividade (SA)

2.2.2.1 A rede de sistemas de avaliatividade

A rede de sistemas de avaliatividade abrange três diferentes domínios de significados avaliativos interligados entre si: ‘atitude', ‘engajamento’ e ‘gradação’. Esses domínios juntos formam a rede de sistemas de escolhas avaliativas abrangendo até seis níveis de delicadeza. Assim, de acordo Martin e White (2005), a rede de sistemas de avaliatividade se inicia a partir do sistema TIPOS DE AVALIATIVIDADE, com os termos/escolhas ‘atitude’, ‘engajamento’ e/ou ‘gradação'. Portanto, visando um melhor esclarecimento a respeito dos significados avaliativos, os quais são sistematizados em torno da noção de rede de sistemas e de nível de delicadeza, reporto-me a Praxedes Filho e Magalhães (2013b).

Uma rede de sistemas é um conjunto de sistemas inter-relacionados, cuja organização relacional se dá através dos níveis de delicadeza da escala de delicadeza ou refinamento/detalhamento. Um sistema, por sua vez, é um conjunto de termos mutuamente excludentes/não-simultâneos ou simultâneos dentre os quais o falante/escritor faz escolhas. Cada rede de sistemas tem uma condição de entrada inicial que estabelece seu ambiente/escopo e enseja que

sejam feitas escolhas dentre os termos no primeiro nível de delicadeza, os mais gerais. Para a rede de sistemas de avaliatividade, a condição de entrada inicial é ‘avaliatividade’. Cada termo escolhido em um dado sistema pertencente a um dado nível de delicadeza passa a ser a condição de entrada a outro sistema à direita, pertencente ao nível de delicadeza subsequente, cada vez mais específico ou detalhado. Foi convencionado que, enquanto os nomes dos sistemas devem ser grafados com letras maiúsculas, os nomes dos termos de um sistema devem ser grafados em letras minúsculas e, quando aparecem em textos verbais devem ser acrescentadas aspas simples. Foi também convencionado que termos ou sistemas que podem ser escolhidos simultaneamente devem ser envolvidos por chaves, enquanto termos ou sistemas que são necessariamente mutuamente excludentes devem ser envolvidos por colchetes (p.17).

No que se refere ao eixo da simultaneidade dos termos de um sistema e a respeito da noção de ‘condição de entrada', os mesmos autores salientam que, quanto à primeira questão, ou seja, a simultaneidade “implica no fato de que um dado trecho de texto (palavra, grupo- frase, oração, complexo oracional ou trecho maior que o complexo oracional) pode admitir uma categorização múltipla” (p.18). Mas, se por outro lado, quando os termos de um sistema não são simultâneos, o sistema só admite categorização única e por convenção eles devem ser envolvidos por colchetes. Quanto ao segundo caso, os mesmos pesquisadores explicam que a “condição de entrada”

[...] possibilita a entrada no sistema de primeiro nível de delicadeza, chamado TIPO DE AVALIATIVIDADE, cujos termos são ‘atitude’ e/ou ‘engajamento’ e/ou‘gradação’. Os termos ‘atitude’, ‘engajamento’ e ‘gradação, quando escolhidos, passam a ser novas condições de entrada a sistemas mais refinados à direita ou sistemas de segundo nível de delicadeza: TIPO DE ATITUDE, TIPO DE ENGAJAMENTO e TIPO DE GRADAÇÃO, respectivamente. Os termos do sistema TIPO DE ATITUDE são ‘afeto’, e/ou ‘julgamento’ e/ou ‘apreciação’. Quanto ao sistema TIPO DE ENGAJAMENTO, seus termos são ‘monoglossia’ ou ‘heteroglossia’. Para o sistema de GRADAÇÃO, seus termos são ‘força’ e/ou ‘foco’(p.76).

No intuito de possibilitar uma melhor visualização da rede de sistemas da avaliatividade em sua completude, Praxedes Filho e Magalhães (2013b) construíram uma representação gráfica, baseado em Martin e White (2005) e também Martin e Rose (2007); Navarro (2012); Macken-Horarik (2004); Bednarek (2008, 2010). A seguir, apresento a rede de sistemas de avaliatividade até o segundo nível de delicadeza, tal qual elaborada por Praxedes Filho e Magalhães (2013b).

FIGURA 8 - Rede de sistemas de avaliatividade até o segundo nível de delicadeza

Fonte: Praxedes Filho e Magalhães (2013b, p. 26)

Em relação ao SA, presumo que o já discorrido sobre o assunto, incluindo o exposto nas duas últimas e na Figura 8, foi suficiente para nos fazer entender de modo claro e pormenorizado a definição e o funcionamento da rede de sistemas de avaliatividade, inclusive, entender como a rede se organiza por meio de sistemas inter-relacionados, no que tange às condições de entrada aos sistemas para acesso aos termos/escolhas e quanto aos níveis de delicadeza. Vimos, em suma, que os três diferentes domínios de significados avaliativos ‘atitude', ‘engajamento’ e ‘gradação’ são os termos/escolhas de significados interpessoais que se encontram posicionados no sistema TIPOS DE AVALIATIVIDADE logo no início da rede de sistemas de escolhas avaliativas. Assim sendo, nas Subseções 2.2.2.2, 2.2.2.3, 2.2.2.4, discorro sobre os sistemas 'atitude', 'engajamento' e 'gradação' de maneira pormenorizada.

avaliatividade TIPOS DE AVALIATIVIDADE atitude engajamento gradação TIPOS DE ATITUDE afeto julgamento apreciação monoglossia heteroglossia força foco SISTEMA DE PRIMEIRO NÍVEL DE DELICADEZA TIPOS DE ENGAJAMENTO TIPOS DE GRADAÇÃO etc. etc. etc. etc. etc. etc. SISTEMAS DE SEGUNDO NÍVEL DE DELICADEZA

2. 2.2.2 ‘atitude’

Martin e White (2005) idealizam a ‘atitude’ como sendo a dimensão do significado interpessoal que envolve três regiões semânticas, as quais estão relacionadas aos sentimentos de afeto, aojulgamentodo comportamento humano em à apreciação dos valores estéticos de objetos e entidades, por conseguinte, diz respeito, segundo Martin e Rose (2007), à “avaliação das coisas, do caráter das pessoas e seus sentimentos” (p.22). Os três sistemas, portanto, estão interligados respectivamente aos conceitos clássicos de emoção, ética e estética (WHITE, 1998). Conforme Martin (2004a), é nessa dimensão do significado interpessoal que os sentimentos são avaliados, visto que “uma perspectiva interpessoal nos posiciona a sentir e através de sentimentos partilhados nos posiciona a pertencer" (p.326). É, por conseguinte, nessa concepção que a avaliatividade negocia, nos textos, a relação entre os participantes. A ‘atitude’ se manifesta por meio de enunciados que, ao serem interpretados de forma contígua, mostram que na enunciação, alguém, alguma coisa, situação, ação, evento ou estado de coisas posiciona- se de forma positiva ou negativa. Sua concretização dá-se por meio de um vasto e diversificado grupo de categorias gramaticais, entre elas se destacam: adjetivo (atributivo); adjetivo (epíteto); verbo (processo); advérbio (adjunto de comentário).

A ‘atitude’ considerada a partir da conjuntura da rede de sistemas da avaliatividade é um dos termos/escolhas de significado interpessoal avaliativo– ligado, ressalta Martin e White (2005), a sentimentos emotivos, éticos e estéticos do falante - e posiciona-se no sistema de primeiro nível de delicadeza TIPOS DE AVALIATIVIDADE. Ao ser escolhido, o termo ‘atitude’ passa a ser condição de entrada a um sistema mais refinado à direita, ou melhor, possibilita o acesso ao um sistema de segundo nível de delicadeza, o qual se configura dentro da rede como TIPOS DE ATITUDE e que, por sua vez, desdobra-se nos termos/escolhas ‘afeto', e/ou ‘julgamento’ e/ou ‘apreciação’. evoca a “área emotiva dos sentimentos; diz respeito a avaliações sobre as emoções das pessoas [...]”. Por sua vez, o ‘julgamento’ é um tipo de atitude que reproduza área ética dos sentimentos; tem a ver com as avaliações sobre o comportamento das pessoas [...]”. Já a ‘apreciação’ se refere à “área estética dos sentimentos; contempla avaliações sobre o aspecto estético das Portanto, o ‘afeto’ é um tipo de atitude que coisas e dos fenômenos, tanto os semióticos quanto os naturais [...]” (PRAXEDES FILHO; MAGALHÃES, 2013a, p. 77).

Ainda em relação ao ‘afeto’, Martin e White (2005) explicam que esse tipo de atitude diz respeito aos elementos avaliativos que indicam a disposição emocional do falante em relação às outras pessoas, às coisas, aos acontecimentos ou às situações avaliadas, refletindo,

portanto, sua subjetividade. A falante busca estabelecer uma relação interpessoal com seu interlocutor através do ‘afeto’ para obter seu apoio e/ou sua solidarizarão em relação à reação emocional manifestada. Praxedes Filho e Magalhães (2013b, p.18), baseados em Martin e White (2005) mostram que o ‘afeto’ “é a condição de entrada para o sistema de terceiro nível de delicadeza TIPOS DE AFETO, cujos termos/escolhas são: ‘felicidade’ [...] e/ou ‘segurança’[...] e/ou ‘satisfação. O termo ‘felicidade’ cobre as emoções ligadas aos ‘assuntos do coração’: alegria, felicidade, amor; já o termo ‘segurança’ se refere às emoções ligadas ao bem-estar ecos social: segurança, confiança; o termo ‘satisfação’ abarca as emoções ligadas ao telos (a busca de objetivos): prazer, curiosidade, respeito.

Por sua vez, o ‘julgamento’ diz respeito à avaliação do comportamento humano no que se refere às normas pré-estabelecidas. As avaliações de ‘julgamento’ implicam a elevação ou a diminuição da estima que a comunidade dedica à pessoa que é alvo da avaliação atitudinal judicativa. Este tipo de atitude é a condição de entrada para o sistema simultâneo de terceiro nível de delicadeza TIPOS DE JULGAMENTO, cujos termos/escolhas são: ‘estima social’ e/ou ‘sanção social’. O primeiro contempla os valores negativos/ positivos relacionados ao posicionamento da pessoa julgada dentro da comunidade; o segundo, a ‘sanção social', engloba elementos avaliativos que se referem à honestidade e conduta da pessoa (quão ética é a pessoa julgada) (MARTIN; WHITE, 2005).

Assim, os tipos de julgamento ‘estima social’ e ‘sanção social’ se desdobram em outros termos/ escolhas de sistemas de quarto nível de delicadeza dentro da rede de sistema de avaliatividade. Portanto, se a escolha for por ‘estima social', esse termo passa a ser condição de entrada para o sistema TIPOS DE ESTIMA SOCIAL, que, por sua vez, engloba os termos/escolhas (i)‘normalidade’(relativo à ‘quão incomum alguém é’) e/ou (ii) ‘capacidade’ (diz respeito a ‘o quão capazes as pessoas são’) e/ou (iii) ‘tenacidade’ (refere-se a ‘o quão determinadas as pessoas são’). Optando-se, ao contrário, pelo termo/escolha ‘sanção social’, este conduz ao sistema TIPOS DE SANÇAO SOCIAL, também de quarto nível de delicadeza e simultâneo. Os termos /escolhas desse sistema são ‘veracidade’ e/ou ‘propriedade’. No primeiro caso, a avaliação se preocupa com o ‘quão verdadeiro a pessoa é’, no segundo, o foco avaliativo recai em ‘a quão ética a pessoa é’.

A ‘apreciação’, terceiro termo/escolha do sistema TIPO DE ATITUDE, diz respeito às avaliações relativas estética das coisas/objetos, das pessoas e dos “fenômenos semióticos e naturais, constituindo-se na condição de entrada para o sistema simultâneo de terceiro nível de delicadeza TIPOS DE APRECIAÇÃO, cujos termos/escolhas são ‘reação’[...] e/ou ‘composição’[...] e/ou ‘valor social’(PRAXEDES FILHO; MAGALHÃES, 2013, p.19). A

‘reação’ diz respeito às nossas reações em relação às coisas/objetos (‘x chamou nossa atenção/nos agradou’?); a ‘composição ‘tem a ver com as nossas percepções de proporcionalidade e complexidade de objetos e entidades (‘x se mostrou equilibrado/harmonioso/foi difícil de compreender? ’). O ‘valor social’ corresponde às nossas avaliações da relevância social das coisas (‘x valeu a pena/ levanta questões importantes? ’). De forma similar aos outros sistemas já apresentados, a ‘reação’ e a ‘composição’, quando escolhidas, passam a ser condições de entrada para os sistemas TIPOS DE REAÇÃO e TIPOS DE COMPOSIÇÃO, ambas de quarto nível de delicadeza, os quais, respectivamente, se desdobrarão nos termos: ‘impacto’(corresponde ao impacto que os objetos provocam nas pessoas) e/ou ‘qualidade’(diz respeito à qualidade dos objetos), caso a escolha seja para o primeiro sistema: TIPOS DE REAÇÃO. No segundo caso, temos os termos ‘proporção’(refere- se ao equilíbrio das coisas) e/ou ‘complexidade’(corresponde ao nível de complexidade dos objetos) (MARTIN; WHITE, 2005; PRAXEDES FILHO; MAGALHÃES, 2013).

Convém acrescentar, ainda, que, na posição de segundo nível de delicadeza, há, também, concomitantemente ao sistema TIPOS DE ATITUDE, os sistemas não- simultâneosPOLARIDADE e TIPOS DE REALIZAÇÃO DE ATITUDE. No primeiro, temos os termos/escolhas ‘positiva’ ou ‘negativa’ ou ‘ambígua’(corresponde, respectivamente, aos sentimentos positivos, negativos e não claramente positivos ou negativos). O segundo sistema TIPOS DE REALIZAÇÃO DE ATITUDE traz os termos/escolhas de realização ‘inscrita’(explicitamente realizada) ou ‘evocada’(implicitamente realizada). Martin e White (2005) frisam que enquanto a avaliação inscrita ocorre claramente através de realizações diretas, ou seja, explicitamente, por meio de léxico atitudinal, a inscrita, ao contrário, ocorre de modo indireto, isto é, sem léxico atitudinal, portanto, a avaliação inscrita “tende a colorir mais em um texto do que o ambiente gramatical que a circunscreve” (p. 63).

FIGURA 9- Estratégias para inscrever e evocar atitude

Fonte: Martin e White (2005, p. 67)

De acordo com o esquema apresentado na Figura 9, o sistema TIPOS DE REALIZAÇÃO DE ATITUDE, a partir do termo/escolha ‘evocada, ’ conduz ao sistema TIPOS DE EVOCAÇÃO de terceiro nível de delicadeza, contendo os termos/escolhas ‘provocar’(avaliação realizada via metáfora lexical) ou ‘convidar’. Este último, por sua vez, conduz ao sistema TIPOS DE CONVITE de quarto nível de delicadeza, contendo os termos/escolhas ‘sinalizar’(que realiza avaliação atitudinal evocada via gradação) ou ‘propiciar’(que realiza avaliação de atitude evocada através de conteúdo experiencial), conforme já apontado anteriormente (MARTIN; WHITE, 2005; PRAXEDES FILHO; MAGALHÃES, 2013b).

Martin e White (2005) destacam, além do mais, que há dois elementos basilares para a definição das categorias atitudinais em um texto: o endereçamento da avaliação e a identificação da fonte da avaliação. Para isso, é imprescindível que se façam as perguntas: Quem está avaliando? Quem ou o que é avaliado? Nessas circunstâncias, é coerente se referir ao tipo de atitude afeto como o que requer a presença de um participante consciente (Emoter),

‘inscrita’ (explícita)

Ex: "Somos todos todas tornados 'mães' na fala de um operador do direito...”Sc3(A) provocada

convite

sinaliza ‘evocada’

(implícita)

Ex: “[...]os ensaios padrões são incapazes de realizar essa avaliação também...” Sc2(EC)

proporciona

Ex:“Muitos sem-terra foram esmagados pelos fazendeiros em Altamira”Sc3(A)

Ex: “E cruzavam com ciganos que levavam cavalos roubados e com cantadores de excelências” Sc4(L)

que é afetado emocionalmente por uma entidade ou fenômeno (Trigger), responsável por desencadear a emoção. Em se tratando das categorias julgamento e apreciação, é primordial que se identifique para quem é dirigida a avaliação. Nesse contexto, a avaliação pode ser direcionada para um participante humano ou entidade, ou para processos semióticos.

Os mesmos autores ressaltam, inclusive, que o ‘afeto’ é o centro do sistema de atitude. Isso se deve ao fato dos três subtipos que o compõem expressarem, de certa forma, sentimento, quer seja de maneira pessoal ou institucionalizada em forma de propostas (nesse caso, ‘julgamento’) ou como proposições (em termos de ‘apreciação’). A Figura 10, tendo o ‘afeto’ como elemento central, mostra como ocorre essa relação.

FIGURA 10 - Modo de representação do julgamento e da apreciação como afeto institucionalizado

Fonte: Martin e White (2005, p. 45)

Os fragmentos i, ii, iii, iv e v retirados do corpus desta pesquisa, ilustram ocorrências avaliativas do tipo 'atitude’.

i. “Este modelo tem sido apresentado na literatura como um modelo adequado para descrever a cinética de síntese de biossurfactantes (Sc1(Q), SOUZA, excerto 5), (‘atitude’-‘apreciação’-‘reação’-‘qualidade’-‘positiva’-‘inscrita);

julgamento

afeto

apreciação

Sentimento institucionalizado como proposições Estética/valor (critérios e avaliações)

Ética/moralidade (regras e regulações)

ii. “Numa dessas incursões dos "jagunços", eles realizaram um tiroteio contra uma escola rural..." (Sc3(A), AYOUB, excerto 5), (‘atitude’-‘julgamento’-‘sanção social’- ‘propriedade’-‘negativa’-‘convidar’-‘propriciar);

iii. "O modelo Lognormal de distribuição de probabilidades não possui simetria em relação à média dos resultados.” (Sc2(EC), LAROSSA et al, excerto 2), (‘atitude’-‘apreciação’-‘composição’-‘proporção’-‘negativa’-‘inscrita’);

iv. "[...] as comunidades são apresentadas ora como sujeitos de direito [...] incapazes de serem sujeitos de suas propostas e ações, inclusive de pensar as leis referentes a seus próprios conhecimentos.” (Sc3(A), PORRO et al, excerto 3), (‘atitude’-‘julgamento’-‘estima social’-‘capacidade’-‘negativa’-‘inscrita’);

v. “Samuel ficara indignado com as artimanhas fraudulentas do vendedor de cavalos”. (Sc4(L), NEVES), (‘atitude’-‘afeto’-‘satisfação’-‘negativa’-‘inscrita’ e ‘atitude’- ‘julgamento’-‘sanção social’-‘veracidade’-‘negativa’-‘evocada’-‘convidar’-‘propiciar’).

A subrede de sistemas de atitude, em suma, abarcando quatro níveis de delicadeza, encontra-se organizada como a seguir: (i) o termo/escolha ‘atitude’, quando escolhido no sistema de primeiro nível de delicadeza TIPOS DE AVALIATIVIDADE, é condição de entrada aos sistemas simultâneos de segundo nível de delicadeza TIPOS DE ATITUDE, POLARIDADE E TIPOS DE REALIZAÇÃO DE ATITUDE, os quais, por sua vez, conduzem aos sistemas, respectivamente, TIPOS DE AFETO, TIPOS DE JULGAMENTO, TIPOS DE APRECIAÇÃO E TIPOS DE EVOCAÇÃO, de terceiro nível de delicadeza. Por último, no quarto nível de delicadeza, encontram-se os sistemas TIPOS DE ESTIMA SOCIAL, SANÇÃO SOCIAL, REAÇÃO COMPOSIÇÃO e TIPO DE CONVITE. A Figura 11, elaborada por Praxedes Filho e Magalhães (2013) apresenta a subrede de sistemas de ‘atitude’ em sua completude.

FIGURA 11 - Subrede de sistemas de ‘atitude’, contemplando todos os níveis de delicadeza

Fonte: Praxedes Filho e Magalhães (2013b, p.79)

felicidade segurança satisfação TIPOS DE AFETO afeto normalidade capacidade tenacidade estima social TIPOS DE

ESTIMA SOCIAL TIPOS DE JULGAMENTO julgamento veracidade propriedade TIPOS DE ATITUDE TIPOS DE SANÇÃO SOCIAL sanção social impacto qualidade reação TIPOS DE REAÇÃO atitude proporção complexidade apreciação TIPOS DE APRECIAÇÃO composição TIPOS DE COMPOSIÇÃO valor social positiva ambígua negativa POLARIDADE inscrita evocada provocar convidar convidar TIPOS DE REALIZAÇÃO DE ATITUDE TIPOS DE EVOCAÇÃO sinalizar propiciar TIPOS DE CONVITE

2.2.2.3 ‘engajamento’

O ‘engajamento’, conforme Martin e White (2005), é a dimensão do sistema de avaliatividade que negocia a diversidade heteroglóssica de um texto. Está relacionada ao modo pelo qual o falante/escritor adota uma determinada postura quanto ao que diz ao que trata em seu texto, e, ainda, quanto ao o que os outros dizem sobre o assunto. Nessa dimensão, os recursos são utilizados para referenciar, invocar e negociar as várias alternativas e posições sociais. Assim, o ‘engajamento’ é o termo/escolha de significado interpessoal avaliativo posicionado no sistema TIPOS DE AVALIATIVIDADE, de primeiro nível de delicadeza, que, por seu turno, configura-se como condição de entrada para o sistema TIPOS DE ENGAJAMENTO, de segundo nível de delicadeza, que se desdobra nos termos/escolhas ‘monoglossia’ e ‘heteroglossia’. Martin e White (2005) explicam que avaliações de natureza monoglóssica se traduzem em asserções categóricas (‘bare assertion’). São enunciados de “voz única”, estático, em termos dialógicos, já que a voz textual opera sob o prisma de que existe "uma convergência ontológica, epistêmica ou axiológica" (WHITE, 2003, p.263), ou seja, a voz textual presume que os destinatários professam os mesmos conhecimentos, crenças e valores em se assentam as proposições". Portanto, a 'monoglossia' “tem a ver com asserções categóricas que não permitem o questionamento, isto é, não dão margem à dialogia”. Por outro lado, a ‘heteroglossia’ diz respeito ao “reconhecimento, por parte do falante/escritor, de que existem outras vozes ou pontos de vista acerca do assunto que se está tratando” (PRAXEDES FILHO; MAGALHÃES, 2013a, p.78). Os mesmos autores acrescentam, ainda, que a ‘heteroglossia’ corresponde a uma gama de recursos avaliativos dos quais o falante/escritor se apropria para indicar seu reconhecimento do caráter dialogístico da comunicação verbal.

Segundo White (1998, 2003); Martin e White (2005), a caracterização de ‘engajamento’ remete à concepção Bakthiniana de intertextualidade/heteroglossia, pressupondo que nos textos se manifesta uma multiplicidade de vozes, ainda que a referência não se encontra explicitamente visível. Por sua vez, a intertextualidade/heteroglossia funda-se na noção de dialogismo, uma vez que para Bakhtin (2006, p.127):

[...] pode-se compreender a palavra ‘diálogo’ num sentido amplo, isto é, não apenas como comunicação em voz alta, de pessoas colocadas face a face, mas toda comunicação verbal, de qualquer tipo que seja [...] Assim, o discurso escrito é de certa maneira parte integrante de uma discussão ideológica em grande escala: ele responde a alguma coisa, refuta, confirma, antecipa as respostas e objeções potenciais, procura apoio, etc. Qualquer enunciação, por mais significativa e completa que seja, constitui apenas uma fração de uma

corrente de comunicação verbal ininterrupta (concernente à vida cotidiana, à literatura, ao conhecimento, à política, etc.). Mas essa comunicação verbal ininterrupta constitui, por sua vez, apenas um momento na evolução contínua, em todas as direções, de um grupo social determinado.

Depreende-se, a partir desse princípio, que toda interação/comunicação verbal, falada ou escrita, simultaneamente, menciona ou retoma o que foi dito anteriormente e antecipa as possíveis respostas dos ouvintes/leitores atuais, potenciais ou imaginados. O falante/escritor, ao manifestar seu posicionamento atitudinal para um público, lança mão de uma gama de estratégias retóricas com a finalidade de concretiza o engajamento, e, ao proceder assim, ele, o falante/escritor, tanto expressa seu ponto de vista como também convida o seu endereçado a partilhar e a endossar os seus sentimentos, para, a partir daí, constituírem uma comunidade que partilha os mesmos valores ou não.

Dentro da subrede de sistema de ‘engajamento’, o termo/escolha heteroglossia "passa a ser a condição de entrada para o sistema não - simultâneo de terceiro nível de delicadeza TIPOS DE HETEROGLOSSIA, cujos termos/escolhas são ‘contração’[...] e ‘expansão’”. Caso se opte por ‘expansão’, esse termo passa a ser condição de entrada “para o sistema não - simultâneo de quarto nível de delicadeza TIPOS DE CONTRAÇÃO”, com seus termos/escolhas ‘discordância’ ou ‘proclamação’. Estes, por sua vez, conduzem “aos sistemas não simultâneos de quinto nível de delicadeza TIPOS DE DISCORDÂNCIA e TIPOS DE PROCLAMAÇÃO, respectivamente." O sistema TIPOS DE DISCORDÂNCIA envolve os termos/ escolhas ‘negação’ ou ‘contraexpectativa’. No segundo caso, ou seja, o sistema TIPOS DE PROCLAMAÇÃO desdobra-se nos termos ‘concordância’ ‘pronunciamento’ ou ‘endosso’. Se, portanto, dentre os três termos for escolhido ‘concordância’ ele conduzirá ao sistema TIPOS DE CONCORDÂNCIA, de sexto nível de delicadeza, “com os termos/escolhas ‘afirmar’(naturally, of course, obviously etc.)...] ou ‘conceder’(“ admittedly... [but]; sure... [however] etc”)” (PRAXEDES FILHO; MAGALHÃES, 2013a, p.21,22). Quanto ao desdobramento do termo/escolha ‘expansão’, os supracitados autores, interpretando Martin e White (2005, p. 98), mostram que:

[...] caso seja o termo ‘expansão’, esta escolha constitui-se na condição de entrada a um sistema não-simultâneo pertencente ao mesmo nível de