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A Referenciação como categoria de análise

1.1 Do surgimento da AD ao percurso teórico

1.1.5 A Referenciação como categoria de análise

A AD não trabalha com a língua enquanto sistema, ela compreende a língua na relação com seu exterior, com a história e a ideologia que afetam a produção de sentido de um texto. Na confluência entre a Linguística, a História e a Psicanálise, a AD abre uma reflexão sobre o modo de funcionamento do discurso, o modo como o discurso se materializa na língua. Assim, longe de desconsiderar a materialidade linguística, a AD a toma como marcas sob as quais se manifesta o discurso, que, por sua vez, é a manifestação material das relações de poder.

Cardoso (2003) afirma que há uma heterogeneidade de discursos no seio da linguística e postula um outro deslocamento sobre a questão da referência, ao que ela chama de auto-referencialidade, em que o referente é refletido e refratado, de modo que ―na representação, o representado nunca é uma realidade bruta, mas uma realidade moldada pela prática da própria representação‖ (2003 p. 121).

Nesse sentido, consideramos que a AD se constitui num campo profícuo para a questão da referenciação, tendo em vista que, na perspectiva da AD, o discurso se constitui na confluência da língua com o seu exterior, com a história e a memória: a referenciação como relação entre a língua e a realidade torna-se interessante estratégia de produção de sentido. Desse modo, cabe ao analista do discurso, desvendar, na materialidade linguística, as estratégias de referenciação que contribuem para a produção de determinados efeitos de sentido. A referenciação, segundo estudos de Koch (2003), Marcuschi e Koch (2002), Cardoso (2003), entre outros, constitui uma atividade discursiva, de modo que, para Koch (2003, p. 79), a referência

[...] passa a ser considerada como o resultado da operação que realizamos quando, para designar, representar ou sugerir algo, usamos um termo ou criamos uma situação discursiva referencial com essa finalidade: as entidades designadas são vistas como objetos-de-discurso e não objetos-do-mundo.

o que modifica substancialmente a relação que existia entre a língua e a realidade, em que o referente do discurso deixa de ser a realidade, ―mas aquilo que o discurso institui como realidade‖ (CARDOSO, 2003, p. 3). Sobre essa questão, Marcuschi e Koch (1998, p. 5) nos alerta que ―nossa maneira de ver e dizer o real não coincide com o real.

Ele (o cérebro) reelabora os dados sensoriais para fins de apreensão e compreensão. E essa reelaboração se dá essencialmente no discurso‖. O discurso constrói uma representação do real, que deve ser partilhada pelo autor e interlocutor. Desse modo, a seleção lexical feita pelo enunciador, dentre as variadas possibilidades oferecidas pela língua, para referir ou correferir um objeto, pode alterar a sua categorização.

No discurso midiático, o enunciador jornalista busca nas anáforas diretas e indiretas, bem como nas recategorizações nominais, formas de acionar a memória discursiva do leitor para criar efeitos de sentido que constituem a vontade de verdade do órgão midiático.

Nesse sentido, a interpretação de uma expressão anafórica, em nosso objeto de análise, requer mais do que identificar o seu antecedente, consiste em estabelecer relações entre o linguístico e o extra-linguístico, encontrar na memória discursiva uma ligação entre esses elementos de modo coerente. Isso implica uma visão de linguagem além do signo linguístico, para além do código, uma visão de ―(re)construção do próprio real‖ (KOCH, 2003, p. 81)

A referenciação como prática discursiva opera pela interação entre a superfície linguística e a remissão a um objeto do discurso recuperável pela memória discursiva. Assim, a interpretação de uma expressão referencial não se limita a uma simples localização de um termo linguístico antecedente, mas à compreensão do complexo jogo de formulações discursivas que emergem da memória. Isso equivale a dizer que a questão da referenciação no quadro teórico da AD se relaciona com o interdiscurso, na forma de pré-construídos, com a memória do dizer (CARDOSO, 2003).

Assim, o uso da expressão nominal definida ―China moderna‖ no discurso da FR

remete ao amplo contexto das transformações e desenvolvimento por que passou a China, após a abertura econômica de 1978, ao mesmo tempo em que aciona a memória discursiva do período anterior à abertura, pois o termo moderno se contrapõe ao tradicional, ou seja, o período de isolamento chinês. Essa forma de remissão é o que chamamos anáfora indireta, recurso bastante utilizado no discurso jornalístico.

1.1.5.1 Anáfora e recategorização: uma ancoragem discursiva

A noção clássica de anáfora designa expressões, que, no texto, remetem a outras expressões ou segmentos textuais, por meio de retomadas ou não, que contribuem com a progressão textual. Chamamos de Anáfora Direta o processo pelo qual ocorre a retomada de um referente já introduzido no texto, nesse caso há uma certa equivalência semântica entre a anáfora e seu antecedente, de modo que se admite a anáfora direta apenas quando houver uma relação semântica prévia entre duas palavras a e b, ou seja, se a relação semântica ocorrer independentemente do texto.

Para Marcuschi (2005), o conceito de anáfora direta como uma espécie de substituto do elemento retomado não considera a complexidade que envolve a questão da referenciação, visto que pode não existir uma equivalência morfossintática entre a anáfora e seu antecedente, além disso, na visão do autor, a anáfora pode não representar a simples atribuição de um referente. Dependendo do contexto, possibilita uma interpretação mais ampla, de modo que a anáfora é mais um processo de ativação da memória discursiva, por meio do interdiscurso, do que simplesmente substituição referencial. Assim, a anáfora ―ao invés de retomar um outro elemento do mesmo texto, pode remeter a um ‗já dito‘ constitutivo do interdiscurso, o qual não aparece explicitamente no texto‖ (CARDOSO, 2003, p. 143), o que vem ampliar a tradição linguística dos estudos da referência.

A recategorização também constitui importante estratégia referencial que pode se operar por rotulação, na qual são atribuídos novos predicados, permitindo uma reinterpretação do objeto referido; também é comum que a recategorização imprima uma orientação argumentativa, que deve ser percebida pelo interlocutor. Segundo Marcuschi e Koch (2002, p. 46) ―a recategorização se acha fundada num tipo de remissão a um aspecto co(n)textual antecedente, que pode ser tanto um item lexical como uma ideia ou um contexto que opera como espaço informacional (mental) para a inferenciação‖. Assim, o processo de recategorização envolve a seleção lexical de natureza semântica que, num processo de paráfrase e metonímia, traz para o interior do discurso o seu exterior, ou seja, reativa, pelo intradiscurso, a memória discursiva do interdiscurso.

Mais uma vez, ressalta-se que a seleção lexical implica na ilusão do sujeito de ter o domínio do sentido de seu dizer, o chamado esquecimento nº 2. No entanto, o sentido do discurso é determinado pelo lugar social inscrito pelo enunciador. Assim, nossa análise inscreve as recategorizações encontradas em nosso corpus nas FD das quais os sujeitos FSP e FR enunciam seus discursos.

A compreensão do discurso, no tríplice domínio da linguística, do materialismo histórico e da psicanálise, nos remete à heterogeneidade da constituição do discurso, bem como à dispersão do sujeito, cuja identidade se encontra cingida, clivada. De modo que a compreensão desse sujeito exige uma abordagem para além do discurso, assim, buscamos nos Estudos Culturais os referenciais que abarcam a questão da identidade do sujeito chinês na pós-modernidade.

1.2 A perspectiva culturalista

A AD lança sobre o discurso um gesto de interpretação nas tramas do entrelaçamento dos fios do discurso, da história e do sujeito. A esse entrecruzamento, lançamos um outro olhar interdisciplinar, o dos Estudos Culturais (EC), que nos conduzem às práticas identitárias que emergem nas práticas discursivas, de modo que possamos melhor compreender a representação identitária da China e dos chineses no discurso da mídia jornalística. Para compreender o sujeito contemporâneo e sua identidade cultural, torna-se imprescindível uma análise da sociedade pós-moderna. Assim, a identidade cultural, bem como as questões mais amplas que envolvem os EC, como a globalização que afeta toda produção cultural contemporânea, as questões étnicas e a dominância cultural merecem de nossa parte uma reflexão sobre o aporte teórico dessa outra teoria transdisciplinar, que se constitui na convergência entre a antropologia, sociologia, psicologia e história.