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A relação da mulher com a família, em sua participação na romaria

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3 A FAMÍLIA NA ROMARIA DO BOM JESUS DA LAPA

3.3 OS ESPAÇOS OCUPADOS PELA MULHER NA ROMARIA DO

3.3.2 A relação da mulher com a família, em sua participação na romaria

Fazendo memória ao que vimos anteriormente, a contemporaneidade retrata um período de transição, no que concerne à família nuclear (pai, mãe e filhos), trazendo uma nova configuração no que diz respeito ao comportamento e papéis sociais desenvolvidos dentro dela. Tem-se que “a domesticidade, o amor romântico e o amor maternal, todos construídos em torno da privacidade e do isolamento, eram as pedras angulares da família nuclear” (POSTER, 1979, p. 13). Atualmente, isso tem se alterado, pois “toda cultura dispõe de demarcações que diferenciam domínios próprios a certas dimensões da vida social, mais ou menos nítidos, exigentes ou permanentes” (DUARTE, 2006, p. 55).

Trazendo isso para o espaço da Romaria do Bom Jesus da Lapa, o que não se sabe mais é o que é adequado ou não à família. O que de fato é uma constante é que sempre as mulheres participam da romaria, com toda sua família ou com um

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membro da família. Uma minoria de mulheres participa sozinhas, por conta de algumas questões adversas tais como: doença do marido, a questão financeira, devido à seca e à própria impossibilidade de algum filho ir com ela. Assim, elas vão sozinhas, com a responsabilidade de fazer com que sua família esteja representada naquele espaço. Porém, nunca estão sós. Estão com sua família espiritual, assim como diz a Romeira da Bahia: “Na romaria somos como irmãos, graças a Deus. Então, assim vivemos todos unidos como uma grande família” (RB2). Isso nos remete a entender que por esse motivo são sempre cuidadas pelas amigas, ou pela coordenadora da romaria, conforme já mencionado anteriormente; esse aspecto nos remete ao distanciamento da sociedade patriarcal.

Quando inquiridas sobre a questão do apoio de sua família (marido/filhos) na sua participação na Romaria do Bom Jesus da Lapa, todas foram unânimes ao dizer que apoiam e muito: “Todo mundo ajuda, meus filhos, marido, tudo ajuda, apoia, apoia e muito” (RMG2).

Ah! Meu marido me dá a maior força. Dá, graças a Deus. Pede para mim rezar para ele, Oh! Ele não veio esse ano, porque vai fazer uma cirurgia, então ele pede sim: Esse ano você vai e ano que vem você fica em casa e eu vou, não pode deixar a casa fechada, né? (RB2).

Conforme mencionado tanto pela romeira de Minas Gerais, como pela romeira da Bahia, sobre a ajuda dos membros da família, para que elas participem da romaria, podemos perceber traços distantes do patriarcalismo, que referendam a sociedade contemporânea, em que os papéis dentro da família foram redimensionados. Oliveira (2009, p. 67) nos diz:

Nesse contexto encontramos a “nova família”, que se caracteriza pelas diferentes formas de organização, relação e em um cotidiano marcado pela busca do novo. Os arranjos diferenciados podem ser propostos de diversas formas, renovando conceitos preestabelecidos, redefinindo os papéis de cada membro do grupo familiar (OLIVEIRA, 2009, p. 67).

Coadunando com essa proposição, a Romeira da Bahia diz:

Bom! Marido, eu não tenho mais vivo, mas meu marido era muito religioso, ele me ajudava, quer dizer, ele não me ajudava assim pra batalhar, pra se envolver, mas ele me dava muita força, né?. Ah! filho, os filhos são tudo apaixonado também pela romaria, me dão força, me mandam vim (RB3).

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A ilustração abaixo exemplifica as proposições mencionadas sobre a relação da mulher com a família, para participar da Romaria do Bom Jesus da Lapa, conforme relatado pelos filhos da romeira de Goiás.

FIGURA Nº 30: Mãe e filhos participando da romaria do Bom Jesus da Lapa - Fonte: A autora

Há mais de 70 anos essa Romeira vem à Lapa do Bom Jesus com seus filhos. Antes ela vinha acompanhada por todos os filhos, hoje, por conta das mudanças sociais sofridas pela família, oriundas do sistema capitalista, no tocante às questões de trabalho que impossibilitam na maioria das vezes a participação de todos os cinco, apenas dois filhos participam da romaria junto com ela.58 As famílias das mulheres entrevistadas também não ficaram fora dessas transformações, mesmo que lentas, elas vêm distanciando-se das concepções patriarcais. Isso é perceptível quanto à forma e à motivação da mulher para participar da Romaria do Bom Jesus da Lapa, conforme se vê através da fala da Romeira de Goiás e do comportamento dela:

No meu caso, que tenho cinco filhos, todos casados, antes de casar todos vinham e gostava, pois desde pequeno eu e meu marido já trazia, era uma alegria só. Ficávamos todos juntos, era muito. De uns tempo para cá tem dificultado mais eles vim, depois de casado, né, já tem esposo, esposa, netos, por conta do trabalho já dificulta a vinda deles e da escola dos meninos, não dá para vim todos, dessa vez mesmo eu tô vindo com dois filhos e nenhum genro, nem nora e nem neto, né, antes eu vinha com toda a família junta (RG).

58 Na concepção de Cynthia Sarti (2008, p. 25), “embora a família continue sendo objeto de profundas idealizações, a realidade das mudanças em curso abala de tal maneira o modelo idealizado que se torna difícil sustentar a ideia de um modelo ‘adequado’”.

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A romeira de Goiás evidencia as transformações que a família vem sofrendo e isso se reflete na forma de participação na romaria. De acordo com Maturana (2004), a cultura patriarcal, que surge no âmbito das relações humanas, em que temos a família como um exemplo, não leva em conta apenas a questão econômica como determinante, mas sim aspectos que envolvem uma modalidade intrínseca do sujeito, que é a relação de mando e a de obediência. Mas o que se tem percebido é que, com as mudanças concernentes aos papéis sociais ocupados pelo homem e pela mulher além do espaço privado da família, no tocante à questão de trabalho e participação no orçamento doméstico, vem ruindo a estrutura patriarcal e apresentando-se uma nova modalidade de família. Observa-se que, no espaço da romaria do Bom Jesus da Lapa, esse aspecto também se reflete.

Todas as mulheres entrevistadas têm uma boa relação com a sua família e esta apoia a sua participação na Romaria do Bom Jesus, conforme já mencionado por elas. As romeiras se veem através da sua família, que se torna motivo de realização pessoal e de vida delas. A Romeira do Espírito Santo menciona:

Ah, minha família é muito especial, os que ficam lá ficam em sintonia com a gente, nos horários de oração, que a gente tá aqui no horário de oração, principalmente na parte da manhã e à noite, na novena, eles também estão lá em sintonia, no nosso setor, na nossa comunidade, rezando unido (RES2).

O mesmo diz a Romeira de São Paulo:

Ave Maria! é uma bênção. Meus filhos, né, uns tá pro canto, minha filha tá pra lá, eles apenas ligam: “Mãe, bastante cuidado, viu”, eles me dizem, né, bastante cuidado, cuida da senhora só não, não está sendo cuidado, remédios está tudo no jeito, né, Mãe? a senhora vai com Deus, que Deus te proteja, que Deus te ilumina”, né, todos somos assim, até os vizinhos, né. E meu marido fala: “Olha, eu fico aqui em casa”. Ele imagina sair porque o lugar onde a gente moramos, então ele cuida bem e tem as criação, né, ele já veio aqui dois anos. Depois ele falou: “agora eu fico aqui, aqui eu fico rezando para que tudo corra bem”, então tá ótimo (RSP1).

Pode-se perceber três aspectos fundamentais nas falas dessas romeiras, concernentes à sua participação na Romaria do Bom Jesus da Lapa: os dois primeiros aspectos se aproximam e o terceiro se distancia do patriarcalismo; o primeiro é o apoio da família (marido/filhos); o segundo é a motivação dada pela família para que a mulher (mãe/esposa) participe em alguns casos até mesmo sozinha, apenas acompanhada da sua família espiritual (as companheiras de Romaria); e o terceiro é o aspecto emancipatório dessa mulher, dentro e fora da

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família, para participar da Romaria do Bom Jesus da Lapa. Na concepção de Oliveira (2009, p.65), “apesar de todas as transformações, a nova família conjugal conserva traços típicos da família anterior: o de controlar a sexualidade feminina e as relações de classe”. Ocupar-nos-emos a seguir da discussão sobre a romaria como fator de emancipação da mulher dentro e fora da família.

3.3.3 A romaria do Bom Jesus da Lapa como fator emancipatório da mulher dentro e

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