2 A MULHER NO ESPAÇO DA ROMARIA DO BOM JESUS DA
2.4 A DIVISÃO DE PAPÉIS NO COTIDIANO DA MULHER NA
2.4.1 O cotidiano da mulher romeira no espaço da Romaria do Bom Jesus
Com essa definição de papéis entre o masculino e o feminino, Faria (2003, p. 53) menciona que dentro do patriarcalismo a hierarquia dos sexos (masculino e feminino é bastante visível).
O padrão patriarcal de consciência cria também, no mundo relacional, um distanciamento entre o eu e o outro, relações assimétricas de relacionamento em que não há possibilidade de uma vivência, a não ser da dominação e a da sujeição, assim como uma descrição rígida do que é masculino e feminino, uma separação do que compete ao homem e à mulher (FARIA, 2003, p. 52).
Essa afirmação do autor se coaduna com as observações realizadas durante a pesquisa de campo no espaço da romaria do Bom Jesus da Lapa. O homem se ocupa mais do lazer do que da reza, participando com amigos de rodadas de bebidas nos bares, de pescaria e banhos no rio, não se colocando em dúvida que visitem até mesmo os prostíbulos. O cotidiano da mulher romeira é bastante movimentado, elas realizam diversas atividades no período em que estão na cidade, sendo as principais delas: os trabalhos domésticos, o cuidado com a família (marido/ filhos), o pagamento das promessas e participação nas atividades litúrgicas do santuário. A Coordenadora de Romaria de Minas Gerais nos diz: “É muito difícil, é bem puxado. A gente pôr cada qual em um lugar, ou eu faço isso aqui e outra coisa aqui e eu vou dividindo. Eu cuido da responsabilidade de casa, dos filhos, a responsabilidade da viagem e dos romeiros” (CRMG1). Com efeito, as mulheres romeiras realizam as mais diversas atividades, como: mães, esposas, donas de casa, vendedoras, chefes de romarias, missionárias, ministras de eucaristia, dentre outros, ocupando os mais diversos espaços, tais como: o da casa e o do santuário.
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Esse relato retrata permeabilidade entre a proximidade (mães , esposas, donas de casa) e o distanciamento do sistema patriarcal (atividade fora do lar, vendedora e de chefe de romaria), o que nos leva a este entendimento:
Esse modo de a consciência patriarcal vê-los confunde gênero como princípio; assim, a mulher é identificada com o princípio feminino e o homem, com o princípio masculino. Mas se partirmos do pressuposto de que esses princípios são universais, sendo, portanto, possibilidades a serem vividas por todos, que homens e mulheres possuem o feminino e o masculino dentro de si, cada pessoa tenderá a se estruturar sua identidade de gênero de acordo com a combinação dessas possibilidades (FARIA, 2003, p. 52)
Mediante os relatos de Faria (2003), a identidade gênero da Romeira do Espírito Santo aproxima-se da concepção patriarcal, no tocante ao resumo que faz do seu cotidiano na Romaria:
Vou às missas, vou à gruta, ajudo a cuidar aqui da casa, são muitas coisas que faço. Ah!, eu chegando, primeira coisa eu faço é ir lá na igreja, na gruta, vou lá, assisto à missa, volto, tomo banho, mudo roupa, aí vou lá na rua com meu marido, dou umas voltas lá, depois mais tarde nóis vai, agora mermo nóis já vai pra lá outra veis, não acho nada difícil, não, acho é bom, é, eu gosto (RES1).
Todas as mulheres entrevistadas relatam o seu cotidiano, na romaria40 do Bom Jesus da Lapa, que envolve os afazeres domésticos, a fé e a devoção. Participam de todas as atividades religiosas (missas, novenas, bênçãos, dentre outras), passam a maior parte do seu tempo na Gruta, vão ao cruzeiro, depois fazem umas compras, levam umas lembrancinhas para os familiares, lembrancinhas essas ligadas à devoção, que são terços, fitinhas, chapéus, santos, medalhinhas e tantas outras coisas. A Romeira da Bahia nos diz:
Algumas coisas que faço em casa eu faço aqui na romaria, outras não, aqui eu só faço trazer as coisas e ajudar a limpar a casa, eu não faço comida, só faço tomar um banho de manhã, tomar um cafezinho, à tarde também, faço umas comprinhas e, quando volto, lavo umas coisinhas (RB1).
Muitas mulheres se ocupam, além das visitações ao templo, das práticas rituais que envolvem o pagamento de promessas e ainda com os afazeres domésticos, como se verifica na figura abaixo.
40 Steil (1996,p.97) nos diz: “a decisão de fazer a romaria é sempre pessoal. Havia um caráter voluntário na decisão daqueles que se colocavam a caminho para a Lapa do Bom Jesus. A romaria surgia como algo opcional que quebrava a sua rotina quotidiana e os colocava como peregrinos no caminho da Via- Crucis, permitindo representar simbólica e sacramentalmente o sacrifício do Bom Jesus”
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FIGURA Nº 17: Mulher preparando a comida – Fonte: A autora
Todas as entrevistadas confirmaram isso, ao afirmar que cuidam da casa e fazem a comida, com muito prazer e muita alegria, pois todo o trabalho é dividido entre elas. Cada uma faz uma coisa e ressalta participar de uma grande família, tudo num clima de muita união. Na sociedade patriarcal, conforme pontuado acima, ”a casa é, ainda, um espaço de liberdade, no sentido de que nela, em contraposição ao mundo da rua, são donos de si: aqui eu mando” (SARTI, 2011, p. 63). Quanto às mulheres que se hospedam em hotéis, essas têm um cotidiano na Lapa bem diferente do mencionado acima, pois elas cuidam da família, de maneira a supervisionar o que o marido ou filhos estão fazendo, e dizem que nesse período que passam na Romaria, elas descansam das atividades domésticas; esses aspectos se distanciam do patriarcalismo, sendo oriundos da sociedade contemporânea. Na concepção de Giddens (2010, p. 63),
[...] essas alterações exigiram importantes ajustes no seio das famílias, na natureza da divisão do trabalho doméstico, no papel dos homens perante a educação das crianças, levando igualmente à emergência de políticas laborais mais familiares, de modo a responder às necessidades dos casais de duplo assalariamento (GIDDENS, 2010, p. 63).
Portanto, as romeiras que se hospedam em hotéis, dedicam-se apenas ao Bom Jesus, em se purificar e buscar força e proteção para sua família. Vejamos o caso da Romeira de Goiás: “Eu fico no hotel, vou à Gruta, dou passeio aí pelas feiras. Ah! isso aí, eu rezo, pra agradecer a Deus por minha família e entrego eles ao Bom Jesus” (RGO). Já o cotidiano das mulheres coordenadoras de Romaria é bem específico. Assim como diz a coordenadora de Romaria da Bahia:
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Eu faço um bocado de coisa, a responsabilidade é muito grande e aí eu tenho que correr atrás dos romeiros, batalhar com eles, levar para Gruta, passo horas de dormir, hora de me alimentar pra sair tudo direitinho, tudo em dia. E muito embora eu tenha já uma romaria já de muitos anos, desde o tempo de caminhão, mas mesmo assim ainda tenho que correr atrás porque para acertar dia de pagamento e que tudo sou eu, só fechar ônibus, de participar de reunião na empresa, então eu corro muito, viu? batalho (CRB3).
O relato da coordenadora de Romaria demonstra o papel na sociedade contemporânea, que se distancia do sistema patriarcal, pois, além de desenvolver as atividades específicas atribuídas à mulher, as coordenadoras ainda exercem, naquele espaço, uma infinidade de coisas, como CRB3 diz, referentes à função que ela ocupa de coordenar a romaria.
Segundo Steil e Herrera (2010), os estudos sobre o lugar que a mulher ocupa em diferentes contextos religiosos apontam para a superação do próprio machismo, sendo a religião uma forma de superação dessa questão. Esses autores afirmam que “ao enfocar a posição das mulheres na estrutura institucional das igrejas e grupos religiosos, [esses estudos] terminam por mostrar que o exercício da democracia e as relações de igualdade entre os sexos nem sempre acompanham as ideologias e os valores agregados” (STEIL; HERRERA, 2010, p. 385).
Esses traços típicos do sistema patriarcalista, que está em transformação, marcam a concepção da família nuclear (conjugal moderna), com sua divisão de papéis conforme o gênero. Não é diferente no espaço da romaria. De acordo com Giddens (2010, p. 63), “as mulheres entraram no mundo do trabalho em grande número, fato que afetou a vida das pessoas de ambos os sexos”. Como veremos a seguir, percebe-se visivelmente que as mulheres romeiras fazem uma transferência do espaço do lar para a Romaria, onde realizam primeiro todas as atividades domésticas, como o ato de cuidar do marido e filhos, o preparo dos alimentos e a arrumação dos alojamentos, para depois participarem das atividades religiosas. Por outro lado, no que se refere aos papéis desempenhados pelas Coordenadoras de Romaria, observa-se um empoderamento que lhes confere uma identidade, um status. Essa proposição referenda a alternância entre o distanciamento e proximidade da sociedade patriarcal, que está imbricada através da cultura, espaço em que ainda se encontra a submissão da mulher ao homem, sendo a religião um contribuinte para essa questão.
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No cotidiano da romaria, as mulheres procuram manter contato com os agentes religiosos responsáveis pela romaria, seja em busca de orientação e aprendizado, seja para a confissão. As atividades das Coordenadoras de Romaria, no espaço da Romaria do Bom Jesus da Lapa, incluem, na sua programação, diariamente, reuniões entre elas. Essas reuniões acontecem sob a liderança das Irmãs (freiras),que têm como objetivo orientá-las na sua atividade, buscando dar melhores condições para seus romeiros, no período em que estão na romaria, ouvindo-as e auxiliando-as nas suas dificuldades. De acordo com Steil (1996), desde algum tempo, os dirigentes do Santuário vêm buscando manter uma relação com as Coordenadoras de Romaria, através dos registros de suas romarias, na Central de Atendimento aos Romeiros. Eles vêm buscando manter um controle sobre essas mulheres. “Todos os anos, enviam-lhes cartas com os programas da festa e orientações de ordem prática e espiritual” (STEIL, 1996, p. 67). A figura abaixo mostra a atenção das irmãs (responsáveis pela Central de Atendimento aos /as do Santuário de Bom Jesus da Lapa) dispensada às coordenadoras de Romaria.
FIGURA Nº 18: Reunião com as coordenadoras de romaria de Bom Jesus da Lapa – Fonte: A autora
A reunião dos/as Coordenadores/as de Romaria constitui um momento de interação e troca de experiência, que avaliamos ser essencialmente importante tanto para as Coordenadoras de romaria, como para os dirigentes do Santuário. Também as mulheres romeiras procuram os agentes religiosos (padres) para se confessarem ou pedir aconselhamento para suas dificuldades do dia a dia, conforme ilustra a figura abaixo.
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FIGURA Nº 19: Mulher romeira confessando-se - Fonte: Acervo do Santuário de Bom Jesus da Lapa
No espaço da Romaria do Bom Jesus da Lapa, a confissão é uma prática presente na vida das mulheres romeiras. Portanto a religião é sociologicamente interessante, não na visão positivista, conforme a qual ela serve para manter a ordem e modelar a sociedade. O antropólogo Clifford Geertz (1989) ressalta que a importância da religião está na sua capacidade de servir, tanto para um grupo, como para o outro, como fonte de concepções gerais.
Tanto as atividades realizadas pelas mulheres como os espaços por elas ocupados, no acontecer da romaria, evidenciam uma identidade de gênero feminina típica do patriarcalismo, em que às mulheres cabe um lugar subordinado no que tange às tomadas de decisões e na ocupação de espaços cujo status é melhor reconhecido nas hierarquias de gênero. Emerge, a partir daí, uma relação de poder, visivelmente instituída num campo dominado pelo masculino. O simples fato de as mulheres saírem de casa, realizarem atividades significativas, no acontecer da romaria, e ocuparem espaços de reconhecimento social (ainda que subordinadas aos homens), pode trazer para elas um diferencial em relação a outras mulheres, situadas em um mesmo ambiente sociocultural e que não participam da romaria.
Conforme Gebara (1989, p. 10), “a sociedade patriarcal, cujas primeiras raízes dificilmente se conseguirá detectar, produziu sua antropologia, seu modelo de homem e mulher a partir de maneiras de organizar a sociedade”. A tomada de consciência desse diferencial pode refletir-se na manutenção da identidade de
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gênero dessas mulheres, com reflexo nas relações de gênero,41 tanto no interior da romaria, quanto nas relações cotidianas, para além dela.
As relações de gênero são construídas e reconstituídas no espaço da Romaria do Bom Jesus da Lapa. Os papéis desempenhados pela mulher romeira do Bom Jesus da Lapa, pontuados neste estudo, de mãe, esposa e devota, dão a ela enorme satisfação, pois ela se vê como mulher através da sua família. A partir dessas concepções culturais, fluem as suas funções sociais. Beauvoir (2009, p. 697), ressalta:
As relações conjugais, a vida caseira, a maternidade, formam assim um conjunto em que todos os momentos se determinam; ternamente unida ao marido, a mulher pode assumir com alegria os encargos do lar, feliz com os filhos, será indulgente com o marido. Mas essa harmonia não é facilmente realizável porque as diferentes funções se conjugam mal entre si (BEAUVOIR, 2009, p. 697).
Daí a importância em definir a romaria do Bom Jesus da Lapa como um espaço onde as mulheres desempenham e mantêm diversas funções e ocupam um lugar determinado por um construto sociocultural de gênero, reafirmando a identidade de gênero feminina, que em alguns momentos reflete o patriarcalismo e em outros com ele contrasta. A seguir, veremos o empoderamento da mulher na romaria, no exercício da atividade de coordenadora de romaria.