1 O ESPAÇO DA ROMARIA DO BOM JESUS DA LAPA: PRÁTICA
1.1 A ROMARIA DE BOM JESUS DA LAPA
1.1.4 Participação da mulher na Romaria do Bom Jesus da Lapa: prática
As mulheres romeiras do Bom Jesus da Lapa têm a fé como elemento primordial não só para a participação na romaria, como também para a superação das suas dificuldades, que vão desde juntar o dinheiro para pagar as despesas da romaria, à superação dos problemas de saúde, que muitas vezes inviabilizam a sua participação. Somente a fé no Bom Jesus é capaz de suprir e de resolver essas questões. A fé é que as motiva a participar da romaria do Bom Jesus da Lapa e de outras romarias. Constatamos, em nossa pesquisa de campo, que existem mulheres que participam somente da Romaria do Bom Jesus da Lapa e mulheres que participam também de outras romarias.
Aquelas que afirmam participar somente da Romaria do Bom Jesus da Lapa o fazem por fidelidade ao Bom Jesus, pois têm nele o único protetor de suas vidas. Apesar de admitir que tem vontade de participar de romaria para outros lugares, como Aparecida do Norte e Brotas, a Coordenadora de Romaria da Bahia diz: “Eu só faço romaria pra cá” (CRB1). Conforme relata a Coordenadora de Romaria de Minas Gerais, “eu faço romaria só para Lapa, mais venho várias vezes, geralmente no mês de janeiro, julho, outubro, setembro, agora tem um grupo me pedindo para vim em dezembro” (CRMG2).
A Coordenadora de Romaria de Minas Gerais declara que vai à Lapa e a Aparecida, com o mesmo grupo. “São duas romarias que eu faço, uma em agosto outra em outubro. Na Aparecida tem mais de 33 anos, porque era meu marido que fazia, aí ele deixou de fazer e eu continuei” (CRMG1). Como se vê nas falas das romeiras a seguir, elas são unânimes em reconhecer que o sentido da romaria é o
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mesmo, mudando-se apenas o local, o que mostra, de certo modo, a unidade litúrgica e devocional em torno da romaria, não importando qual santo seja cultuado:
Eu vou pra Lapa, vou pra Aparecida, vou pra Trindade, vou pra são Geraldo. Tem diferença de cidade, porque cada cidade tem um modo, tem um ritmo, mas aquela celebração que a gente vai, a celebração é uma só. A fé que a gente tem, é aquela fé. Aquilo que a pessoa que está lá celebrando, transmite para você. O que você tem guardado no seu coração, e o que você escuta do missionário que está lá celebrando aquela fé (RMG1).
Vou pra cidade de Brotas e para Mangabeira e aqui para Lapa. A diferença que aqui é mais novo, a diferença que eu acho é isso, mas o movimento da romaria eu não acho diferente não. E o grupo é sempre o mesmo, não viajo com outros grupos, esse mesmo acho que nunca foi em Mangabeira, cada lugar tem uma pessoa que representa, que leva o povo de Brotas, sai a lotação, tem outro que vai para uma cidadezinha pequena, Mangabeira, que chama, aí o povo faz a lotação pra ir pra lá e aí a gente vai (RB1).
Tanto a romeira da Bahia como a romeira de Minas Gerais relatam que o movimento da romaria é o mesmo, o que diferencia é a cidade. A romeira da Bahia ressalta que Bom Jesus da Lapa é mais novo do que Brotas e Mangabeira. Quanto à fé, a romeira de Minas Gerais a define como aquilo que você tem guardado no seu coração e você vai escutando o missionário celebrando aquela fé. Enfatizamos que, no espaço da romaria do Bom Jesus da Lapa, as mulheres têm prioritariamente a fé e a devoção como elementos de participação, ou seja, toda uma concepção sagrada. Após realizarem essas atividades, algumas delas, se sobrar tempo, aproveitam, para fazer outras coisas relacionadas ao lazer, o que mostra certa emancipação da mulher romeira, no que se refere ao espaço tradicionalmente destinado a elas: o privado, que se traduz em suas lides cotidianas no lar, como mãe, esposa e dona de casa dedicada em tempo integral.
No espaço da Romaria do Bom Jesus da Lapa, conforme nos foi possível observar, há uma interação do sagrado com o profano, pois a mulher romeira tanto realiza sua atividade religiosa, como também aproveita um pouco de sua estada na cidade para seu lazer, ou seja, fazer um turismo, pois Bom Jesus da Lapa oferece várias belezas naturais, como a visita ao morro e um passeio pelo Rio São Francisco. Portanto, existem dois tipos de participação da mulher na romaria de Bom Jesus da Lapa, envolvendo atividades religiosas e turísticas. Isso, contudo, não
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pode ser confundido com turismo religioso15, uma outra modalidade de participação, sem vínculo necessário com a crença religiosa.
Os visitantes dos lugares sagrados o fazem com ou sem compromisso com a fé. No caso das romarias, existem aquelas pessoas que vão aos santuários por devoção ao santo e aquelas outras que o fazem motivadas pela simples curiosidade, considerando o local apenas como um ponto turístico qualquer. Steil (1998) tem feito uso do termo ‘turismo religioso’ (geralmente confundido com romaria e peregrinação), para distinguir duas modalidades distintas de participação nas romarias: como romeiro ou como turista. O turista religioso prioriza o aspecto social da festa, não o religioso. A exemplo do que ocorre com o Natal, a motivação de participação se dá mais como uma mescla de espiritualidade e consumismo, desvinculando-se da prática tradicional. Segundo Steil (2013, p. 23), existe uma diferença entre os romeiros-turistas e os romeiros tradicionais:
Não apenas por sua aparência, seu modo de vestir, sua postura, sua ideologia religiosa, sua visão de mundo, mas sobretudo pelas estruturas de significados dentro dos quais se insere sua experiência. Para esta nova categoria de romeiros, a romaria em si, com suas expressões cúlticas, seu misticismo, sua religiosidade se torna uma curiosidade ou um aspecto pitoresco a ser observado (STEIL, 2013, p. 23)
A Coordenadora de Romaria de Minas Gerais enfatiza que “o que ela faz não é turismo e sim romaria, pois turismo é diversão, aqui não, é só oração, turismo tem conforto, na romaria tem sofrimento, pois só assim as pessoas alcançam as suas graças” (CRMG). Muito embora algumas mulheres possam aproveitar um tempinho para outras atividades, elas não se desviam do foco central, que é a romaria, com
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Em Bom Jesus da Lapa, detectamos dois tipos de participação dos fiéis, que são a romaria e o turismo religioso, ressaltando que a cidade de Bom Jesus da Lapa foi incluída no roteiro turístico religioso brasileiro pelo Ministério do Turismo. Segundo Steil (2003), a relação entre “peregrinação e o turismo é um destes objetos que hoje percebo como um ponto de interseção nodal, onde se pode verificar a tensão entre múltiplos significados que são postos em risco nos locais de peregrinação e de turismo religioso”. O autor aponta o turismo e a peregrinação como categorias que estão sendo ressignificadas ao longo do tempo. Contudo, não se pode estabelecer uma linha divisória entre o que é turismo religioso e o que é a romaria, pois há uma mescla de suas motivações e comportamentos, em que se misturam atos religiosos e turísticos na mente de uma mesma pessoa. Alves (2013) destaca que, de acordo com a Organização Mundial do Turismo (OMT), as viagens a centros de peregrinação ocupam 40% das viagens internacionais, uma vez que muitos lugares de peregrinação têm se tornado herança secular do turismo, aproximando religião e turismo e vice-versa (ALVES, 2013, p. 39).
O autor menciona que no Brasil existem milhares de pessoas que realizam viagens a lugares diversificados de peregrinações religiosas, motivadas por questões e dificuldades apresentadas no seu cotidiano, tais como: desemprego e problemas de saúde. “É nesse momento que as viagens de peregrinação, associadas ao turismo (lazer), surgem como alternativa para a quebra do cotidiano, constituindo um momento múltiplo de oração, confraternização e ressocialização“ (ALVES, 2013, p. 40).
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todos os atos de piedade que dela fazem parte, inclusive no sentido da prática do sacrifício como pressuposto para se alcançar a graça de Deus, por intermédio do Bom Jesus. Portanto, as mulheres religiosas turistas16, por nós denominadas de romeiras do Bom Jesus da Lapa, têm as concepções sagradas como principal fator de deslocamento para aquele espaço, mesmo que, em dados momentos, possam praticar um passeio pelos pontos turísticos da cidade, sem, contudo, perder o vínculo religioso. Dando continuidade às reflexões propostas para este capítulo, analisaremos a seguir como os romeiros enxergam Bom Jesus da Lapa.