1. MODELOS DE DESEJO E DE SER HUMANO NA RELIGIÃO
1.3 A relevância dos modelos no ideário religioso
Após observar os conceitos de Mircea Eliade e René Girard, percebemos que o religioso ou a esfera do sagrado faz parte da construção do imaginário humano. Os deuses são modelos que definem o que homem deve fazer e como se comportar nas áreas religiosa ou social, atribuindo comportamentos morais ou não à humanidade, a qual deve se espelhar em suas divindades, revivendo através dos mitos de origem o mesmo comportamento e atitudes que elas propõem. Emile Durkheim (1989, p. 38) afirma que as representações religiosas são expressões das realidades coletivas:
[...] a religião é coisa eminentemente social. As representações religiosas são representações coletivas que exprimem realidades coletivas; os ritos são
maneiras de agir que surgem unicamente ao seio dos grupos reunidos e que se destinam a suscitar, a manter, ou a refazer certos estados mentais desses grupos.
Isto porque o homem é um ser social e a religião, fruto desta socialização, faz parte da cultura do grupo. Durkheim ainda afirma que “os primeiros sistemas de representações que o homem produziu do mundo e de si mesmo são de origem religiosa” (IBID, p. 37), com isso, percebemos que a cultura e a religião possuem uma íntima relação na formação da sociedade.
Neste processo de desenvolvimento cultural, incluindo todos os conceitos religiosos como os ritos, os signos, os símbolos religiosos, acontecem três momentos ou passos que Berger (2004, p. 16) denominou de “a exteriorização, a objetivação e a interiorização”.
A exteriorização é a “efusão de si mesmo sobre o mundo em que ele se encontra” (IBID, p. 17), ou seja, uma manifestação do homem expressando sua personalidade e assimilando a cultura do seu grupo, uma vez que a constituição humana, por ser diferente dos animais, não é perfeitamente programada ao seu mundo, o que o leva a uma busca pela estabilidade. Ou como Berger (IBID, p. 19) afirmou: “ele se produz a si mesmo num mundo”, referindo-se ao processo da manifestação humana na própria cultura. A objetivação é o conjunto de produtos culturais de determinada sociedade que ganham autonomia sobre o homem. Valores, regras, leis e instituições produzidas adquirem caráter de realidade objetiva, influenciando e condicionando o indivíduo ao convívio em grupo:
Essa transformação dos produtos do homem em um mundo que não só deriva do homem como ainda passa a confrontar-se com ele como uma facticidade que lhe é exterior, está presente no conceito da objetivação (IBID, p. 22).
Por sua vez o processo de interiorização é a apropriação do mundo socializado, ocorrendo de forma individual e coletiva, onde o individuo consciente ou inconscientemente elege e seleciona os valores, as regras e as formas de conduta; e coletivamente, pois para permanecer no grupo e ser considerado socializado, deve relacionar-se com os produtos fabricados pelo grupo, aceitando-os, isto é, o sujeito “socializado para ser determinada pessoa e habitar um determinado mundo” (IBID, p. 29).
Com isso, a identidade do sujeito e a realidade “são produzidas na mesma dialética” (IBID, p. 29), devido à apropriação por parte do indivíduo da realidade das instituições e fundamentalmente dos seus papéis e da sua realidade, desta forma “a socialização obtém êxito
na medida em que essa qualidade de ser aceita como coisa evidente é interiorizada” (IBID, p. 37).
Os mitos, ritos e demais conceitos religiosos construídos por determinado grupo social também estão incluídos neste processo cultural, notando-se a forte influência dos mitos sobre deuses no cotidiano do homem, legitimando o seu comportamento social através da repetição dos mitos, o que para Berger (ibid, p. 42) significa “o saber socialmente objetivado que serve para explicar e justificar a ordem social”. As legitimações ainda podem ser de caráter cognoscitivo e normativo, pois não se reduzem apenas a “dizer às pessoas o que devem ser. Não raro apenas propõem o que é” (ibid., p. 42).
A relação entre a legitimação e a religião é singular, porque a legitimação “mantém a realidade socialmente definida” (ibid., p. 45) e uma vez que a realidade religiosa em sua essência é caracterizada pela perfeição e significação, o grupo realiza o processo de objetivação eficazmente criando em torno das instituições um status de perfeição, tornando-as irrepreensíveis diante dos homens, aceitas como agentes das divindades, ou em alguns casos a própria encarnação dos deuses, semelhantes a um “quadro de referência sagrado e cósmico” (IBID, p. 46).
O caráter divino recebido pelas instituições, além da durabilidade representativa, constrói o imaginário social. Assim quem se opõe a legitimação religiosa transgride a ordem socialmente definida, tornando-se um risco ao grupo: “o negador arrisca-se, então, a ingressar no que se pode chamar de qualidade negativa – se se quiser, a realidade do demônio” (IBID, p. 52). Segundo Berger (IBID, p. 55), a religião tem o papel de “manter a realidade daquele mundo socialmente construído no qual os homens existem nas suas vidas cotidianas”, isto é, a religião contribui para o estabelecimento e manutenção do imaginário social.
A religião e seus produtos, incluindo o mito, “é sempre um precedente e um exemplo, não só em relações às ações – “sagradas” ou “profanas” – do homem, mas também em relação à sua própria condição” (ELIADE, 2002, p. 339). De modo semelhante, Girard (2014b, p. 3) entende que “duas coisas sugerem que a religião (interditos e ritos) está na origem e na essência da cultura humana: não se encontra o menor traço dela em culturas animais; nenhuma cultura está totalmente desprovida”, ou seja, para ambos teóricos a religião é fundamentalmente importante para a socialização do homem.
Percebemos também que além da socialização, os modelos propostos nos mitos recebem tamanha importância, a ponto de serem imitados, seja para que a vida do homem religioso tenha significado como propõe Eliade, ou para amenizar a violência do grupo repetindo o ato violento original da divindade, enfatizando que o ser humano demonstra a necessidade de modelos:
O mito garante ao homem que aquilo que ele se prepara para fazer já foi feito, e ajuda-o a eliminar as dúvidas que poderia conceber quanto ao resultado de seu empreendimento. Por que hesitar ante uma expedição marítima, quando o Herói mítico já a efetuou num Tempo fabuloso? Basta seguir o seu exemplo. De modo análogo, por que ter medo de se instalar num território desconhecido e selvagem, quando se sabe que o é preciso fazer? [...] O modelo mítico presta-se a aplicações ilimitadas (ELIADE, 2000, P. 125).
Sendo assim, as divindades se tornam modelos delimitadores das ações humanas, tornando-se modelos e exemplo ao homus religious. Sem fugir à regra, os cristãos têm Jesus como seu modelo, compreendendo que imitando-o e vivendo de forma semelhante a ele podem ser chamados de filhos de Deus.
Para os primeiros cristãos a história real e significativa fundamentava-se em seu novo estilo de vida que era seguir o modelo vivido por seu mestre, Jesus Cristo, o Deus encarnado; desse modo, assemelhando-se com o seu arquétipo, participavam da história sagrada, chamado por eles de ‘o caminho’. Segundo Comblin (2004, p. 7):
O caminho foi, com certeza um dos primeiros nomes que os cristãos deram à sua nova vida de convertidos a Jesus. Para eles a vida nova era um caminho novo, o que Jesus lhes pedia era que o seguissem nesse caminho. No início tudo era muito simples. Com o passar dos tempos o cristianismo deu origem a uma religião.
A preocupação dos primeiros cristãos era o de viverem como Jesus. Com o passar dos tempos e a formação de um sistema de crenças, ritos e preceitos morais “os elementos da religião foram adaptados à mensagem e a vida de Jesus” (IBID, p. 7), incluindo elementos do Antigo Testamento, porém até esta transformação acontecer “a fé consistia em aceitar Jesus, adotar o seu modo de viver e os seus ensinamentos, vendo nele a Palavra de Deus, o Messias anunciado” (IBID, p. 74).
Na atualidade, igrejas cristãs neopentecostais têm ensinado com base na teologia da prosperidade um evangelho de realização dos desejos por meio da fé, onde o fiel deve “tomar a posse da benção e exigir nossos direitos” (SOARES, 2000, p. 27). Dentre estas a Igreja
Universal do Reino de Deus, representada por seu bispo primaz, Edir Macedo que tem usado figuras bíblicas como modelos de ser e de conquista. Por isso no próximo capítulo serão analisados quais os modelos propostos no cristianismo ensinado por Edir Macedo, o qual é alicerçado na Teologia da Prosperidade. Para a tarefa será importante observar como os modelos surgem nas suas pregações e livros, além de quais modelos efetivamente são utilizados pelo bispo.