III- Reflexão Teórica
3.1. Três Ensaios Teóricos acerca da Representação da Vinculação Materna Pré-
3.1.3. A Representação da Imagem Corporal da Gravidez: Contributos para o
estrutura polimórfica que permite a integração da ambiguidade (através de pares de opostos tensão/relaxamento).
3.1.3. A Representação da Imagem Corporal da Gravidez: Contributos para o
mãe que agarra na criança e ao qual a criança se agarra, num diálogo tónico. Poderemos encontrar uma provável correspondência entre a falha de holding materno perante as ameaças de parto pré-termo (descolamento da placenta, etc) e a falha de holding materno perante as dificuldades do diálogo tónico mãe-bebé após o parto.
Esta função de sustentação do objecto primário é partilhada por autores como Winnicott (1956) com o conceito de holding e por Bion (1963) com o conceito continente. Também, Esther Bick (1991) observou que o contacto e o envolvimento corporal do bebé pela mãe era promotor de um sentimento de ser contido por ela. Numa situação em que o bebé não se sinta contido pela mãe, aquele desenvolve uma “segunda pele” com a função de se conter a si mesmo.
Imagem Corporal e Gravidez
Paul Schilder (1968) criou o conceito de imagem corporal, definindo-a como a
“figuração do nosso corpo na nossa mente, ou seja, o modo pelo qual ele se apresenta para nós” (Schilder, 1968, p.7). A imagem corporal é construída através de múltiplas experiências, particularmente cinestésicas, labirínticas, tácteis e visuais e é através do processamento dessas experiências sensoriais que se estabelece uma noção do corpo.
Este processamento não é apenas percepção nem apenas representação, ainda que estejam envolvidas no processo figurações e representações mentais (Schilder, 1968).
Dolto (1984) distingue dois conceitos: esquema corporal e imagem corporal; “o esquema corporal é uma realidade de facto que especifica o indivíduo enquanto representante da espécie, independentemente do local, da época ou das condições em que vive” (Dolto, 1984, p.18). Ao contrário do esquema corporal, que “permite a objectividade de uma intersubjectividade”, a imagem do corpo é subjectiva, estando intimamente ligada ao sujeito e à sua história. “É específica da libido de uma situação, de um tipo de relação libidinal”. “O esquema corporal é de natureza parcialmente inconsciente mas também pré-consciente e consciente, enquanto a imagem corporal é eminentemente inconsciente”. “O contacto e a comunicação com o outro assentam na imagem do corpo; é na imagem do corpo que o tempo se cruza com o espaço e que o passado inconsciente encontra eco na relação presente” (Dolto, 1984, p.18).
A gravidez mergulha a mulher no misterioso processo da concepção, gestação (formação, conservação, transformação e criação). A reconstrução da identidade em
constante mutação torna-se crucial e, por vezes, perturbadora, suscitando angústias de perder os limites do Self. Tais receios aparecem expressos em sonhos do tipo “Alice no País das Maravilhas”, onde experiências do mutável (formas flutuantes, sensações e percepções) têm lugar. A perda e a reestruturação da sua imagem corporal, para além de provocarem alterações na coesão do Self corporal, revelam a fertilidade da mulher que se assume como sexualmente activa e criadora. “A gravidez constitui um estádio ulterior na identificação com o fértil, sexual e grávido corpo da mãe arcaica” (Raphael-Leff, 1997).
Corpo Materno e Corpo Imaginado
O corpo da mulher grávida oferece-se como espaço-continente, criador de sentido. Continente de outros corpos (feto/bebé imaginário) e ao mesmo tempo conteúdo de si próprio, o corpo liga-se ao imaginário, continente de desejos e metáforas. O conceito de “corpo imaginado” de Aulagnier (1990) torna-se aqui relevante, reenviando para a representação materna da imagem mental do bebé imaginado.
O bebé imaginado tem uma longa história pré-natal, pois conforme o feto cresce e se desenvolve no útero materno, o bebé é representado na mente materna. Não é o feto que a mãe imagina mas antes “o bebé do sonho”. Aulagnier (1990) afirma que na relação imaginária estabelecida durante a gravidez, o feto não é imaginado enquanto feto (acrescentamos que não é o feto que é imaginado, pela mãe) mas enquanto um bebé que surge (acrescentamos tal como um duplo) com um corpo completo e unificado. A essa imagem a autora denominou “corpo imaginado”, no qual a libido materna é depositada.
A criação do “corpo imaginado” possibilita que o feto mude de estatuto para se tornar criança, permitindo a sua inserção no mesmo mundo simbólico dos seus progenitores (Aulagnier, 1990). Será esse corpo imaginado que permitirá que a futura mãe invista libidinalmente no seu bebé, reconhecendo-o como um corpo diferenciado e separado dela.
De acordo com Gonçalves (2004) é através da função continente-conteúdo (Bion, 1963) que a mãe, não só, reconhece os sinais de desconforto da criança para os transformar e lhos reenviar de forma mais assimilável, mas também se apropria dos estados de calma e de conforto do bebé, para os introjectar, obtendo com isso uma dupla gratificação: “narcísica de recuperação fantasmática da relação fusional com a imago materna idealizada e objectal, em que se estabelecem os fundamentos eróticos da relação,
através do investimento do corpo da criança como fonte de prazer erótico e da satisfação dos desejos pulsionais, ligados à evolução psico-sexual e da relação de objecto”
(Gonçalves, 2004, p.43). «Durante a gravidez, periodo marcado pelos interditos (do tocar, do olhar, do comer), a mulher está “ocupada”com o seu corpo, preocupada em formar um bebé com um corpo sem marcas, mas também “ocupada” pelos seus desejos, cuja satisfação ou insatisfação marcará o destino da criança» (Gonçalves, 2004, p. 51).
Além de desconhecido e enigmático, o ventre materno torna-se um continente para as fantasias, desejos, medos e esperanças da mulher grávida. “Na mulher grávida, as imagens internas e os factores históricos inconscientes constituem nutrientes ou toxinas na sua placenta emocional, condicionando a gestação mental da sua gravidez” (Raphael-Leff, 1997, p.43).
Partindo das concepções preconizadas por Aulagnier (1990), supomos que a formação do “corpo imaginado” esteja dependente de um processo de diferenciação e individuação que ocorre na relação mãe-bébe desde a gravidez. Tais considerações parecem reenviar para as concepções preconizadas por Colman e Colman (1973) referidas anteriormente, acerca das três fases psicológicas da gravidez, as quais são descritas pelos autores como “incorporação”, “diferenciação” e “separação”.
A relação dialéctica entre corpo materno e “corpo imaginado“ na gravidez remete-nos para as concepções preconizadas por Bydlowski (1997) acerca da existência de um “objecto interno” da gravidez, na medida em que este objecto parece constituir-se como um objecto continente-mãe e, simultaneamente, um objecto conteúdo-bebé. Assim, poderemos interpretar a relação de objecto, na gravidez, como a construção de um objecto-conteúdo (para a mãe) e de um Eu-continente (para o bebé). A importância da formação da imagem mental do bebé imaginado refere-se à capacidade de a mãe partir do seu próprio narcisismo para a produção de um corpo que será investido libidinalmente como objecto privilegiado do desejo materno.
Pensamos que tais concepções ajudam a fundamentar a associação entre a aceitação da imagem corporal da gravidez e a vinculação materna pré-natal. Será à medida da satisfação do narcisismo materno (na qual se inclui a satisfação da imagem corporal da mulher grávida) que um “corpo imaginado” emerge e a vinculação pré-natal se estabelece. Durante a gravidez, a futura mãe vai imaginando o bebé como objecto corpóreo e é nesse objecto que a mãe investe libidinalmente. Tal como preconizam Aulagnier (1990) e Bydlowski (1997), este investimento é de natureza, primordialmente,
narcísica já que visa à própria satisfação do desejo materno de possuir um bebé.
Progressivamente, este investimento torna-se também objectal na medida em que investe no bem-estar e na satisfação das necessidades do bebé sentido como sujeito diferenciado do Self materno.
Podemos pensar na diferença entre o enamoramento materno pelo bebé durante a gravidez e o enamoramento segundo a concepção clássica de Freud (1921/1990).
Enquanto Freud refere que no enamoramento haveria um esvaziamento narcísico pelo investimento no outro, Bydlowski (2000) e Aulagnier (1990) referem que durante a gravidez, o enamoramento da mãe em relação ao bebé não pressupõe um esvaziamento do narcisismo materno, na medida em que o bebé se constituiria numa produção narcísica. Nessa medida, poderemos supor que este duplo investimento libidinal no eu materno e no bebé parece estar associado à noção de Balint (1968) de amor primário, forma de amor arcaico e egoísta, caracterizado pela gratificação mútua mãe-bebé, do qual está ausente o sentido da realidade. O estado de “preocupação maternal primária”, preconizado por Winnicott (1956), está também associado a este investimento libidinal e incondicional da mãe em relação ao bebé. Assim, poderemos pensar que o estabelecimento da vinculação materna pré-natal não provoca uma deflação do eu materno. Na gravidez, o narcisismo materno parte do objecto fantasiado, possibilitando que o objecto real surja como separado do seu eu. O objecto que partiu da fantasia pode deixar-se amar e desejar pelo eu que o criou. A qualidade e a intensidade do investimento da imagem mental do bebé que a mãe constrói durante a gravidez será correspondente á imagem e ao investimento que ela poderá, ou não, preservar na criança que ela foi.
Durante a gravidez, a mãe, ao fantasiar a futura relação dela com o seu filho que irá nascer vivência, alternadamente, a experiência passada de filiação infantil de forma invertida (como filha dos seus pais), vivenciando, de forma retrospectiva, o desejo dos seus pais por ela e, simultaneamente, o seu desejo pelo filho. Por vezes, o lugar ideal oferecido ao bebé imaginário relaciona-se com o lugar no qual a mãe gostaria de se encontrar. Este espaço mental materno ocupado pelo bebé pode estar ligado a movimentos de identificação materna ou de reparação da mãe em relação às suas figuras parentais primárias. Nesse processo, pensamos que a mãe actualiza a relação narcísica infantil para a construção do seu bebé. O bebé imaginado é incorporado no espaço corporal e mental da mãe personificando os desejos e as fantasias da mãe. (Stern, 1997;
Stern & Stern, 1998)