V- Metodologia
5.2. Operacionalização das Variáveis e Descrição dos Instrumentos
5.2.2. Memórias do Relacionamento com as Figuras Parentais
5.2.2.1 Parental Bonding Instrument
Descrição do Instrumento
O Parental Bonding Instrument (PBI), construído por Parker, Tupling e Brown (1979), é composto por vinte e cinco itens, em formato de frases de auto-relato, dispostos de forma semelhante para uma versão materna e outra paterna. O auto-preenchimento é feito pelo sujeito, devendo este, avaliar cada um dos itens de acordo com uma chave de cotação de tipo Likert composta por quatro pontuações que variam entre 0 (discordo totalmente) e 3 (concordo totalmente).
O PBI avalia as recordações, até aos dezasseis anos, acerca das atitudes e comportamentos maternos e paternos dos sujeitos, segundo duas dimensões específicas:
os “cuidados afectivos” e a “superprotecção”. A dimensão “cuidados afectivos” avalia a qualidade afectiva da relação do sujeito com os seus pais, no sentido da presença da capacidade parental para expressar afecto, calor emocional e proximidade (cuidar contingente) ou, pelo contrário, frieza emocional, indiferença e negligência (cuidar negligente). A dimensão “superprotecção” avalia a qualidade dessa mesma relação no sentido da promoção da independência e autonomia (autonomia instrumental) ou no sentido da hiper-protecção, controlo excessivo, intrusão e reforço dos comportamentos de dependência (negação da autonomia psicológica). Segundo o seu autor, estas duas dimensões do comportamento parental podem ser configuradas em quatro quadrantes possíveis, consoante a maior ou menor relação afectiva vivenciada e o controlo exercido pelas figuras parentais. O resultado correspondente a melhores cuidados parentais é designado pela configuração de “optimal bonding”, descrito pela combinação entre forte afectividade e baixa superprotecção.
No âmbito do presente estudo, o uso de este instrumento pretende avaliar a influência dos cuidados afectivos e da superprotecção parental nas dimensões da vinculação materna pré-natal e nas dimensões do tipo de orientação materna pré-natal.
Características Psicométricas
O PBI foi elaborado através de sucessivas análises factoriais a partir de cento e catorze itens retirados da literatura e considerados como representativos de qualidades parentais pertinentes para o desenvolvimento do bonding parental. Aquando da construção do PBI, o modelo factorial original foi definido inicialmente por três factores, mas devido ao facto de a variância explicada ser reduzida, optou-se por um modelo bifactorial.
O PBI tem sido sujeito a vários estudos psicométricos que revelam, de modo convergente, boas qualidades de confiabilidade tendo motivado a realização de vários estudos recentes de análise da estrutura factorial (Enns, Cox, &, Clara, 2002; Qadir et al., 2005; Uji, et al., 2006) Um dos mais recentes estudos de análise psicométrica do PBI, efectuado com base numa amostra de mulheres grávidas de nacionalidade holandesa e sua aplicação no primeiro trimestre de gestação, revela a existência de bom ajustamento interno com valores alpha de Cronbach variando de .83 a .92 (van Bussel et al., 2010).
Em termos nacionais, o primeiro estudo psicométrico de adaptação e validação do PBI para a população portuguesa foi realizado por Geada (1992), revelando boas qualidades psicométricas. A escala dos cuidados maternos apresenta um valor alfa de .86 e a escala dos cuidados paternos um valor alfa de .90. A escala de superprotecção materna revela um valor alfa de .81 e a escala de superprotecção paterna um valor alfa de .83.
Este instrumento foi, recentemente sujeito a outro estudo psicométrico para uma amostra portuguesa (Vera, Leal, & Maroco, 2010). Neste estudo, a amostra recolhida por conveniência da população em geral é composta por 149 adultos de ambos os sexos (69 do sexo masculino e 82 do sexo feminino) com idades compreendidas entre os 18 e os 67, anos com média de idades de 39.1 anos. O limite de idade foi o único critério de exclusão, sendo apenas seleccionados para integrem a amostra sujeitos com idade igual ou superior a 16 anos.
A análise factorial confirmatória relativa à adequação da estrutura factorial original à amostra em estudo demonstrou que o modelo de dois factores proposto pelo autor da escala não obteve índices que indiquem um bom ajustamento na presente amostra, quer nas sub-escalas da dimensão materna quer nas sub-escalas da dimensão paterna. Face à não confirmação da estrutura bi-factorial proposta pelo autor da escala original à amostra em estudo, procedeu-se à análise factorial pelo método de componentes principais, seguida de uma rotação varimax, realizada separadamente para a versão materna e paterna.
Os resultados contradizem o modelo de dois factores, preconizado por Parker e colaboradores (1979). Os quatro factores obtidos para as sub-escalas da dimensão materna permitiram a criação de quatro dimensões que explicam 59% da variância total, as quais se designaram por cuidar contingente, negação da autonomia psicológica, autonomia instrumental e cuidar negligente. Os índices de consistência interna estimados pelo alfa de Cronbach apresentam valores considerados bons para as três primeiras dimensões (respectivamente, .85, .79 e .85) e um valor aceitável (.74) para a quarta dimensão.
Na análise factorial para as sub-escalas da dimensão paterna foram encontrados três factores que permitiram a criação de três dimensões que explicam 55% da variância original, as quais se designaram: cuidar, autonomia instrumental e negação da autonomia psicológica. A validade obtida para as três dimensões apresenta bons resultados, com valores de alfa de Cronbach de .92, .83 e .72, respectivamente.
Estudo Psicométrico das Sub-Escalas da Versão Materna na Amostra em Estudo
No presente estudo, utilizamos a versão portuguesa do PBI, traduzida por Geada (1992), por se tratar da primeira versão traduzida para a população portuguesa. Com o objectivo de confirmar a adequação da estrutura bi-factorial obtida por Parker (1979), em relação às sub-escalas da versão materna na amostra em estudo, foi efectuada uma análise factorial a partir dos dados obtidos por grávidas pertencentes ao segundo trimestre de gestação, entre as vinte e as vinte e quatro semanas.
De acordo com a estrutura original, optámos por um modelo bifactorial tal como proposto pelos autores da medida (Parker et al., 1979), procedendo-se, para esse efeito, à análise dos componentes principais, seguida de rotação varimax, tendo sido obtido índices reveladores de um ajustamento aceitável da estrutura original à amostra do presente estudo, justificando 37.936% da variância total da medida.
Assim, tal como podemos observar na Tabela A (Apêndice 1), o primeiro factor, denominado por “cuidados maternos” é constituído pelos itens 12, 6, 11, 17, 24, 18, 2, 1, 5, 4, 14 e 16 e apresenta um alpha de .888; o segundo factor denominado por
“superprotecção materna” é constituído pelos itens 23, 13, 20, 21, 15, 19, 7, 22, 10 e 9 e apresenta um alpha de .766.
Estudo Psicométrico das Sub-Escalas da Versão Paterna na Amostra em Estudo
De acordo com a estrutura original, optou-se por uma medida bi-dimensional, tal como proposto por Parker e colaboradores (1979), efectuando-se, para esse efeito, uma análise de componentes principais, seguida de uma rotação varimax. O modelo bifactorial proposto pelos autores da medida obteve, neste estudo, índices reveladores de um ajustamento aceitável da estrutura original à amostra do presente estudo, justificando 37.148% da variância total da medida, revelando, ambos os factores, uma consistência interna adequada.
Assim, conforme observamos na Tabela B (Apêndice 2), o primeiro factor designado por “cuidados paternos” é constituído pelos itens 11, 18, 2, 6, 17, 1, 12, 24, 5, 4, 16, 3 e apresenta um valor alpha de .738 e o segundo factor designado de
“superprotecção paterna” é constituído pelos itens 20, 19, 15, 23, 9, 10, 25, 21, 22, 7 e apresenta um valor alpha de .789.
A Tabela 1, que se segue, apresenta os resultados obtidos pela análise da fiabilidade da medida total e dos dois factores para a BPI Mãe e BPI Pai. Todas as dimensões apresentaram uma consistência adequada, com valores alfa de Cronbach que variam entre .738 (cuidados paternos) e .888 (cuidados maternos).
Tabela 1 - Fidelidade das Dimensões do PBI (N=211) α
de Cronbach
Correlação média inter-item
Amplitude da correlação
item-total PBI Mãe
Cuidados Maternos .888 .401 .397 - .721
Superprotecção Materna .766 .247 .347 - .500
PBI Pai
Cuidados Paternos .738 .196 .335 - .733
Superprotecção Paterna .789 .271 .363 - .580
Estudos de Aplicação do Instrumento
O PBI tem sido amplamente utilizado para avaliar a percepção dos sujeitos adultos acerca dos estilos de parentalidade vivenciados na infância e adolescência e para avaliar a associação entre esta percepção e outras variáveis de desenvolvimento psicológico e de psicopatologia. Um estudo longitudinal, anteriormente citado (van Bussel, Spitz, & Demyttenaere, 2009) teve como um dos objectivos, à semelhança do nosso estudo, analisar numa amostra de 403 mulheres grávidas, nos três trimestres de gestação, a influência do bonding parental (medido pelas escalas dos cuidados maternos e paternos e escalas de superprotecção materna e paterna do PBI) nas medidas de vinculação materna pré-natal (escala total, escala da qualidade da vinculação e escala da intensidade de preocupação materna), segundo o modelo de Condon (1993).