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A Voz Materna como Objecto Sonoro Pré-Natal

No documento UNIVERSIDADE DE LISBOA (páginas 35-40)

II- Revisão Bibliográfica- Gravidez, Sensibilidade Sonoro-Musical, Imagem

2.2. A Sensibilidade Sonoro-Musical na Gravidez

2.2.3. A Voz Materna como Objecto Sonoro Pré-Natal

“Afirmam que os seus bebés reagem de uma maneira a um concerto de Bach – com pontapés suaves e ritmados – e, de um modo totalmente diferente à música rock – com movimentos bruscos e desajeitados” (Brazelton & Cramer, 1993, p.19). A maior parte das mulheres prevê que os picos de actividade fetal ocorram, preferencialmente, em períodos de inactividade das mães. “Os padrões de reacção do feto são modelados e preparados para estímulos „adequados‟ depois do nascimento” (Brazelton & Cramer, 1993).

Dados da literatura (Parncutt, 2007) referem a existência de uma discussão polémica acerca da possível influência neuro-cognitiva da música no feto. Os órgãos sensoriais do feto desenvolvem-se progressivamente mas só a partir das 25 semanas estabelecem conexões com o sistema nervoso central, podendo a partir dessa altura, possibilitar uma estimulação sensorial externa com influência no cérebro. Para além disso, o sistema vestibular activo do feto possibilita-lhe uma pré-aprendizagem preparando as futuras representações cognitivas de orientação e de aceleração, associadas à percepção da música (Hepper, 1992).

À semelhança da noção de “envelope sonoro” (Anzieu, 1976, 1979), Mancia (1990) afirma que o desenvolvimento da função-continente da “pele psíquica” referida por Bick (1991) é precedido, no período pré-natal, pela representação de uma “pele audiofónica”, desenvolvida a partir da função-continente da escuta, condição essencial de base para a constituição de um “objecto sonoro” pré-natal (Maiello, 1997). Neste processo evolutivo de desenvolvimento da função continente-conteúdo, a escuta auditiva pré-natal, e em particular a escuta da voz materna, desempenha uma função-continente primordial; “A configuração pós-natal da boca que procura o seio que dá o leite nutritivo poderia ser constituída pela orelha que escutava o som harmonioso da voz materna na vida pré-natal” (Maiello, 1997, p.34).

Recapitulando, a voz materna in-útero parece ser o estímulo que demonstra reacções de maior condicionamento, dado o seu reconhecimento, discriminação e preferência após o nascimento (DeCasper & Fifer, 1980; Moon & Fifer, 1990). O feto não é apenas capaz de captar estímulos sonoros como também parece memorizar traços sonoros que constituem um verdadeiro código sonoro particular, o qual se vai organizando sob a forma de proto-diálogos em resposta ao estado emocional da mãe e ao ambiente que a envolve.

O feto parece captar, memorizar, discriminar e reconhecer não apenas a linha melódica e rítmica da voz materna mas principalmente os seus “picos prosódicos”

(Laznik, 2000), representados pela emocionalidade oral e musicalidade do discurso através de elementos, tais como as entoações, inflexões, timbres e modulações próprias da voz. Esta capacidade perceptiva do feto tem ressonâncias de uma pré-aprendizagem das bases da comunicação humana, através do reconhecimento de padrões interactivos de reciprocidade e alternância, ritmo e sincronia, antecipação e previsibilidade, presentes nas trocas interactivas futuras com o adulto empático e disponível.

A percepção fetal da fala humana é viável apenas para os componentes de baixa frequência (abaixo dos 500Hz) e apenas quando o sinal transportado pelo ar excede cerca de 60dB. Estas observações sugerem que o feto humano apenas é capaz de captar componentes de baixa frequência da fala humana. A qualidade tímbrica da fala materna, incluindo a emissão das vogais e das consoantes, embora fortemente afectada, pode ser percepcionada pelo feto através de gravações do discurso materno com dispositivos intra-uterinos (Querleu et al., 1988; Decasper et al., 1994). A percepção fetal da altura do som é mais elevada por comparação à percepção do timbre.Tal, leva-nos a fundamentar o

maior interesse das crianças pelo canto da mãe por comparação à fala materna (Trehud, 2003). Para além disso, a altura do som pode estar associada à expressão exagerada, aspecto este que pode também facilitar uma maior atenção da criança.

Vozes de timbres e tonalidades diferentes constituem para o feto uma experiência de sensações sonoras que veicula emoções vivenciadas como protopensamentos (Bion, 1963). A estes sons, vão sendo associadas representações internas. A progressiva diferenciação desses sons adquire significados próprios, ligados a uma representação daquilo que se quer comunicar. Enquanto o reconhecimento dos fonemas é fraco e sensivelmente idêntico para qualquer tipo de voz e modo de emissão diferente, pelo contrário, o reconhecimento da entoação é superior.

Num estudo desenvolvido por Hepper e Shahidullah (1994), acerca da avaliação sobre a capacidade de discriminação fetal dos sons da fala humana, fetos entre as vinte e sete e as trinta e cinco semanas foram expostos a um par de sílabas pré-gravadas.

Descobriu-se que apenas os fetos com trinta e cinco semanas conseguiam discriminar diferentes fonemas. Nesta etapa natal, surge a oportunidade de uma pré-aprendizagem auditiva: o feto aprende a conhecer a voz da mãe e a voz do pai, nas suas qualidades particulares de timbre, inflexão, entoação e ritmo, não sendo por isso de estranhar o seu reconhecimento, após o nascimento. A identificação fetal da voz materna e a sua capacidade para organizar memórias parecem estar dependentes do nível de inteligibilidade da mensagem vocal.

O feto parece captar, memorizar, discriminar e reconhecer não apenas a linha melódica e rítmica da voz materna mas principalmente os seus “picos prosódicos”

(Laznik, 2000) representados pela emocionalidade oral e musicalidade do discurso através de elementos, tais como as entoações, inflexões, timbres e modulações próprias da voz. Esta capacidade perceptiva do feto tem ressonâncias de uma pré-aprendizagem das bases da comunicação humana, através do reconhecimento de padrões interactivos de reciprocidade e alternância, ritmo e sincronia, antecipação e previsibilidade, presentes nas trocas interactivas futuras com o adulto empático e disponível.

Numa primeira fase destas pesquisas acerca da percepção sonora fetal, o foco era posto na natureza e qualidade da estimulação, sendo privilegiado como procedimento metodológico a exclusividade da relação causa-efeito dessa estimulação fetal, excluindo-se a participação da mãe, em virtude de excluindo-ser considerada uma variável parasita na objectividade dos resultados desses estudos experimentais. Estudos mais recentes

(Parncutt, 2007) focalizam a natureza interactiva e a influência do contexto situacional dessas estimulações, dando destaque à participação activa da presença da mãe no seu contexto emocional. A literatura a este respeito refere que a emoção fetal só poderá ser investigada através da observação de alterações de estados fisiológicos e comportamentais do feto.

A psicologia evolutiva do feto permite encontrar uma explicação acerca da função que comunicação emocional materno-fetal tem para preparar o feto para uma eventual ameaça de parto pré-termo, assim como para preparar o bebé, antes de nascer, para ulteriores alterações dos estados emocionais da mãe, as quais poderão condicionar a satisfação das necessidades do bebé após o nascimento. A sensibilidade do feto para captar estados emocionais da mãe parece influenciar a ligação pós-natal, apontando para a importância de uma comunicação emocional materno-fetal que permite uma pré-aprendizagem pré-natal para uma futura intersubjectividade na relação mãe-filho após o nascimento (Parncutt, 2007, Trehud, 2003).

Busnel (1998) refere pesquisas que demonstram uma maior receptividade do feto a tonalidades emocionais da voz materna e em particular às que expressam discursos emocionais da mãe dirigindo-se ao bebé ainda dentro do ventre materno. Moss e seus colaboradores (1969) afirmam que o grau de animação da voz da mulher grávida é indicador da quantidade e qualidade de estimulação materna dirigida ao bebé entre um e três meses de idade.

A investigação, neste domínio, refere uma correlação positiva entre a existência de depressão materna e diminuição da sensibilidade materna e da expressividade da prosódia da voz materna (Field, 1995; Weinberg & Tronick, 1998). Quando comparadas com mães não deprimidas, as mães deprimidas tendem a falar menos com os filhos, a mostrar menor interesse ou apresentarem expressões faciais menos ricas e a revelarem menos afecto e comportamentos de contacto. Para além disso, as mães com depressão revelam dificuldade em dar aos seus filhos estimulação apropriada ou adequada, e tendem a ter menos sensibilidade em relação aos comportamentos dos filhos.

De acordo com Gomes Pedro (1985), a mãe percebe que o seu filho vai partilhando consigo as suas experiências e que mostra preferência a determinados estímulos fornecidos, respondendo a cada um deles de forma diferenciada. Ao confrontar-se com os ajustamentos do seu filho ao seu ritmo, desenvolve-se um diálogo de sincronia. Segundo Gomes Pedro (1985), tais acontecimentos constituem o primeiro

ensaio de uma dança de conjunto que surge no pós-parto. À experiência de alternância da presença-ausência da voz materna, ressoada na vida intra-uterina, suceder-se-á a experiência de alternância da presença-ausência do seio materno, mediante as experiências interrompidas de amamentação da criança após o nascimento.

A capacidade do feto para captar diferentes “estados de espírito” (Sá, 2001; Stern, 1989, 1997) associados a diferentes estados emocionais da mãe (alegria, cólera, tristeza), assinala o esboço da “intersubjectividade” (Stern, 1989; Trevarthen & Aitken, 2003) alcançada após o nascimento e aperfeiçoada a partir do estado de maior diferenciação do Self do bebé (cerca dos oito meses, em diante). São estes proto-diálogos, estabelecidos na relação e interacção entre mãe e feto, a base para a criação de uma relação de afectividade e de vínculos pré-natais e para a aquisição de capacidades linguísticas e cognitivas futuras.

Estes proto-diálogos, em que a mãe se dirige ao bebé intra-uterino expressando algo sobre ela e sobre ele próprio, partilhando com ele os estados de espírito que ele consegue captar, ou ainda fazendo a leitura atenta dos sinais não verbais emitidos pelo bebé em resposta ao ambiente e estados de espírito maternos, constituem uma proto-representação do “espelho sonoro” do Self que irá emergir após o nascimento. Será à medida que o bebé reconhece o estilo interactivo dos seus parceiros relacionais que se construirá aquilo que Stern (1989) designa de “representações de interacções generalizadas” ou “envelopes protonarrativos”. As primeiras formas de intersubjectividade primária são de natureza temporal e rítmica, contendo aspectos globais da experiência” (Stern, 1989). Esta afirmação do investimento primário da experiência global parece ir ao encontro da precedência das formas antes dos elementos, do continente antes dos conteúdos, da musicalidade das palavras antes da linguagem verbal, preconizada pelas teorias da génese da representação simbólica e do pensamento.

Como refere Busnel (1998), é possível demonstrar que o feto reage à estimulação sonora, manifestando a capacidade de condicionamento, discriminação e habituação a determinados estímulos acústicos, sendo essa reacção fetal influenciada pela natureza e qualidade do estímulo sonoro, ao nível da sua frequência, duração e intensidade, assim como pelo estado de maior ou menor vigilância fetal (sono profundo, sono leve, estado de vigília).

O estado de maturação neurológica do aparelho auditivo fetal, o qual se encontra condicionado pela idade gestacional, contribui significativamente para a capacidade de

maior discriminação auditiva fetal. O período entre as vinte e quatro e as vinte e seis semanas de gestação é considerado o período sensível da estimulação auditiva fetal, onde o feto manifesta um comportamento de participação reaccional e interactivo com o ambiente exterior. Neste comportamento, destaca-se a sua reactividade e preferência por estímulos vocais, comparativamente a outros estímulos acústicos, por vozes femininas em comparação com as vozes masculinas e em especial pela voz materna, comparativamente a outras vozes femininas (Busnel, 1998).

Estudos recentes, no âmbito do programa internacional para a linguagem da criança, conduzidos por Golse e seus colaboradores (2007), colocam a hipótese da função de chamamento desempenhada pelas hiperfrequências existentes nas vocalizações do bebé. Dado que os vocalizos com hiperfrequências desencadearam comportamentos de atenção por parte da mãe em relação ao bebé, a questão fundamental será então de saber se a emissão de hiperfrequências tem ou não um valor precursor da vinculação. A partir destes resultados preliminares surgem várias pistas de pesquisa a serem desenvolvidas acerca deste domínio: 1) o estudo do aparecimento e desaparecimento das hiperfrequências das vocalizações do bebé; 2) o modo de percepção materna destas hiperfrequências e 3) o papel destas hiperfrequências na constituição do timbre vocal do bebé, a que a mãe se mostra particularmente sensível.

No documento UNIVERSIDADE DE LISBOA (páginas 35-40)