5. MAPEAMENTO DA MEMÓRIA AFETIVA DA COMUNIDADE PEDREIRA:
5.1 O sonho do “pedaço de chão”: memórias da construção da comunidade Pedreira
5.1.1 A representação da terra e suas simbologias na vida da comunidade
Seu Zaqueu, já citado anteriormente, é um imigrante que veio de São Paulo para a região de Juara também com o sonho de conquistar a terra, de produzir, de constituir uma família, de ter uma propriedade etc. Para ele, a terra é o bem maior do ser humano. Desde que chegou à região, conservou suas terras no local. Zaqueu é casado com dona Cleuza, uma descendente de japoneses e, após quatro anos morando em Juara, surgiu a possibilidade de o casal ir morar no Japão para trabalhar e juntar economias.
O sítio do senhor Zaqueu e senhora Cleuza na comunidade, naquele tempo, somava 15 alqueires. Como queriam comprar mais terra e mais gado, os dois resolveram partir para trabalhar no Japão, onde permaneceram por três anos. De acordo com o senhor Zaqueu, esse é o preço que se paga para se ter um “pedaço de chão”, porque, segundo ele, há que se estar disposto a se sacrificar, porque dinheiro não é simplesmente dinheiro, mas também tempo e suor. A ida para o Japão foi difícil porque tiveram que deixar os filhos e porque durante esse tempo trabalharam com muito sacrifício. No entanto, segundo senhor Zaqueu, esse é o preço que pagaram pelo “pedaço de chão”.
Para o senhor Zaqueu, a propriedade tem uma história, tem vida, o pedaço de chão vale não só dinheiro, mas o que guardam nas lembranças e memórias. Magalhães, Cunha (2017) relatam que no caso dos ribeirinhos atingidos por Belo Monte, a territorialidade é ainda identificada com a mobilidade rio/cidade, havendo a condição da dupla moradia como pressuposto da manutenção do modo de vida ribeirinho com acesso aos serviços básicos como saúde e educação.
O território foi conquistado, isso tudo faz parte de uma luta não de um ano, mas de uma vida inteira. Muita esperança foi depositada para que houvesse a construção dessa comunidade, e isso fica claro para ele quando vê o neto, que também frequenta a propriedade, e os dois filhos, que cresceram lá. Segundo ele, tudo o que fez e ainda faz é pensando no neto e nos filhos. Portanto, almeja que eles tenham um sentimento de herdar e continuar esse sonho.
Apesar disso, o entrevistado salienta que é a favor da realização de um estudo para a implementação da usina, mas ressalta que isso deve ser feito com cuidado, com dedicação, com respeito, com amor pelas pessoas, porque não se pode simplesmente chegar na propriedade e dizer: “A usina será instalada, vocês serão indenizados e terão que ir embora”. Para Magalhães, Cunha (2017), os ribeirinhos que habitavam a região do médio Xingu, onde hoje se encontra o reservatório da Hidrelétrica Belo Monte, desenvolveram saberes e práticas ao longo dos anos em um processo de experimentação e interação com o ambiente, transmitidas e enriquecidas ao longo de gerações no dia a dia do beiradão.
Essa forma de conduzir o processo de implantação da usina se torna uma expressão de injustiça, uma vez que o poder de decisão, que também cabe àqueles que são atingidos, é claramente desconsiderada, restando aos atingidos apenas arcar com o ônus do empreendimento.
Considerando que a injustiça social e a degradação ambiental têm a mesma raiz, haveria que se alterar o modo de distribuição – desigual – de poder sobre os recursos ambientais e retirar dos poderosos a capacidade de transferir os custos ambientais do desenvolvimento para os mais despossuídos. Acserald (2010, p.89).
Dessa forma, não pode ser pensado um processo democrático, de exercicio de cidadania, em que os maiores interessados não são considerados nas decisões, uma vez que o bem mais precioso que lhes pertence e que garante o acesso a uma forma digna de vida, pode lhes ser usurpado. Essa situação, da forma como se configura, suscita que pensemos a justiça social, conforme diz Abreu (2013, p.97), “[...] como forma de buscar a distribuição equânime dos recursos naturais entre as pessoas humanas, tentando evitar que o meio ambiente seja um fator de discriminação e preconceito, rechaçando o racismo ambiental”.
Senhor Carlos Kolinsqui mora há 35 anos na região. Chegou a Juara na década de 1970, em uma comitiva composta por 14 famílias, das quais 12 eram de irmãos dele. Isso significa que a família inteira veio para Juara. No início, eles moravam em barracos de lona, e somente depois de algum tempo construíram casas, de modo rudimentar. Para tanto, retiravam madeira da natureza para as paredes e também para o telhado, que era feito de tabuinhas, ou seja, pedaços pequenos de madeira cortados em quadrados medindo entre 30x15 e 30x30.
Naquele momento, a alternativa era utilizar a madeira, recurso mais abundante em Juara. Entre as décadas de 1970 e 1990 o acesso a esse bem era muito mais fácil, assim como a liberação de uso. E foi justamente essa falta de controle que propiciou a degradação do meio ambiente presenciada atualmente.
A esse respeito, a comunidade faz mea culpa, muito embora, naquela época, não houvesse instrução suficiente, nem noção das consequências do desmatamento. A população não se exime da culpa de ter desmatado para construir, mas essa era a cultura da época. Hoje há mais cuidado, mais conhecimento, um exemplo é a preservação das beiras dos rios por meio da implantação de Áreas de Preservação Permanente (APPs).
Senhor Zaqueu trabalha com a produção de gado leiteiro e com plantações de banana e de mandioca. A produção feita na propriedade é de subsistência, e é importante salientar que isso tudo faz parte das lembranças do pedaço de chão. O pedaço de terra, o território, o espaço não tem valor apenas financeiro, mas tem valor baseado no amor, no conhecimento, na esperança de dias melhores, questões que se percebem conversando com o senhor Zaqueu.
Nessa direção, Magalhães, Cunha (2017) destacam que:
[...] as famílias ribeirinhas que viviam no trecho do rio Xingu que no ano de 2015 deu lugar ao reservatório principal da UHE Belo Monte [...] desenvolveram um modo de vida caracterizado pelo uso disperso e de baixo impacto de recursos naturais (florestas e rios), por grupos domésticos conectados por redes de parentesco, compadrio e amizade. (MAGALHÃES, CUNHA, 2017, p. 43).
Outro ponto importante foi a visita feita pelo pesquisador ao senhor Carlos Kolinsqui, que ressalta, em sua fala, a questão da alimentação. Aliás, esse é um ponto de referência para essa pesquisa porque, em todas as visitas, três ao total, o ponto alto da recepção foi a comida oferecida e que inspira o próximo tópico.
5.2 Os cultivos no pedaço de chão: lavoura, roçado e criação de animais como