6. VIDA DE PESCADOR: RESISTÊNCIA OU SOBREVIVÊNCIA DOS ATINGIDOS
6.2 O pescador, a comunidade local e o espaço
Parte dos argumentos que justifica a escolha de pescadores como sujeitos dessa pesquisa reside no fato de eles serem um dos grupos que serão diretamente atingidos pela implantação da UHE Castanheira, em Juara - MT. Nesse sentido, é importante destacar também alguns dados da Secretaria Nacional da Pesca, do Ministério da Agricultura (2014), que indicam a pesca artesanal como uma das principais atividades sociais, econômicas e ambientais realizadas no Brasil, com quase 01 milhão de pescadores artesanais38 e aproximadamente 2,5 milhões de pessoas a mais que, apesar de não serem pescadores, estão a dedicar-se a diferentes atividades relacionadas de forma direta ou indireta com as atividades artesanais pesqueiras. E ainda, para Silva (2014), a pesca artesanal brasileira possui numerosas e complexas especificidades e levam em consideração fatores sociais, políticos, institucionais, econômicos e ambientais intrínsecos a cada local.
Foi possível observar a presença em pequena escala no contexto da pesquisa, de empresas de barcos, de material de pesca e de utensílios para conservação dos peixes, distribuidores de combustíveis, estabelecimentos que fornecem peixe para o consumo direto em mercados e restaurantes, por exemplo.
Em termos sociais e até antropológicos é possível dizer que os pescadores possuem amplo conhecimento da atividade na região e nelas estao envolvidos, aliás, cabe ressaltar, como apontam Daaddy e Ribeiro (2016, p. 363), “tanto a vida
38 Ver Silva (2014) Cf. PLATTEAU, J.P. 1989. The dynamics of fisheries development in developing
countries: a general overview. Development and Change, 20(4): 565-597. Como nota de esclarecimento, cabe ressaltar que não há um consenso claro sobre o significado do termo pesca artesanal ou de pequena escala. Sua definição se baseia que esta é uma atividade oposta à pesca em larga escala, que utiliza tecnologias sofisticadas e envolve pesados investimentos, acessíveis apenas a uma classe capitalista da qual as comunidades pesqueiras não se incluem.
social, quanto a econômica desta população depende totalmente da pesca artesanal”. Então, expande-se o limite da compreensão para além dos fatores econômicos, podemos dizer que há uma espécie de economia das trocas simbólicas, como conceituado por Bourdieu (2007). Ao comercializarem o pescado nas feiras e/ou em mercados da cidade, os pescadores circulam pela cidade, realizando suas trocas monetárias, mas também as trocas sociais ou simbólicas acontecem. Sobre este entrecruzamento, a fala do senhor Gilberto, pescador, traduz bem essa dinâmica, quando afirma que
[...] o rio dá para você viver, se souber trabalhar, pescar, vender um peixe de qualidade, e, saber negociar. Você vive muito melhor do que trabalhar de empregado, porque hoje se você vai trabalhar de empregado você ganha uma miséria, se não tiver um bom estudo aí para ter um emprego bom é melhor você trabalhar por conta, então essa é a minha motivação maior e eu gosto da barranca do rio. (Depoimento do senhor Gilberto, Juara, 2019). Com relação às condições de trabalho e aumento da renda dos pescadores, algumas medidas poderiam ou deveriam ser tomadas por parte das autoridades competentes para superar os obstáculos desta atividade no município, tendo em vista que a vida da comunidade local e a economia da região recebem um contributo relevante da pesca. Contudo, o que ocorre na prática, não apenas no território de Juara, mas em vários locais que recebem as UHEs – que, aliás ainda se encontram em fase de expansão ao redor do mundo, apesar de ser uma das fontes geradoras de energia mais danosas ao meio ambiente, como salienta Vainer (2007) – são permanentes impactos negativos às populações. De acordo com os apontamentos de Gegenströmung (2011), é notável e frequente o descumprimento de normas legais nacionais e internacionais por parte das usinas, a implantação desses empreendimentos provoca a desestabilização das relações socioculturais e o desrespeito aos direitos humanos, dificultando e/ou inviabilizando a reprodução socioeconômica no tempo e espaço dos atingidos.
O caso da Usina Hidrelétrica Ferreira Gomes (UHEFG), em que a empresa construtora descumpriu a maioria das medidas mitigadoras, compensatórias ou reparatórias propostas no EIA. Os estudos realizados sobre esta construção apontam que 98% dos pescadores entrevistados reclamaram da incipiente participação no processo de decisão, principalmente na fase de licenciamento ambiental. Vale ressaltar que só a participação dos agentes no processo de
licenciamento não viabiliza a construção de usinas, nem mesmo faz com que seus impactos sejam reduzidos. Esse é um ponto a ser observado pelas autoridades e empreiteiras para o cumprimento e execução do que foi colocado no EIA e no Rima do empreendimento, o que pode facilitar a revisão e adequação das demandas dos atingidos, uma vez que eles serão os mais prejudicados nesses processos.
Essas demandas negativas precisam ser discutidas no processo de planejamento das usinas. Não se pode admitir o engodo do discurso que nega os graves impactos gerados pela implantaçao de uma UHE, discurso proferido, em alguns casos, tanto pelos empreendedores quanto pelo governo. Santos, Cunha e Cunha (2017, p. 198) reiteram que a literatura científica dedicada a esses estudos tem verificado suas consequências, junto às populações nos aspectos social, cultural, histórico, ambiental, econômico, de saúde e lazer.
A participação dos atingidos, da comunidade local e das autoridades políticas podem, conforme Santos, Cunha e Cunha (2017, p. 202), contribuir para a estabilização da renda dos pescadores após a implantação da UHE. Visto que a ampla participação social no planejamento de construção do empreendimento e de sua gestão estratégica em longo prazo pode ser vantajosa no controle das variáveis, tais como: a vazão de inundação dos reservatórios, os locais mais indicados para pesca e a quantidade capturada, de maneira a privilegiar o uso múltiplo dos recursos hídrico e pesqueiro.