6. VIDA DE PESCADOR: RESISTÊNCIA OU SOBREVIVÊNCIA DOS ATINGIDOS
6.5 Usina e perspectiva de futuro do pescador
Até o momento, contemplamos uma básica descrição, devidamente refletida a partir de empirias e teorias sobre os pescadores, suas atividades e suas relações entre si e com seu contexto de trabalho. O intuito é compreender como essas relações se dão e em que intensidade a relação dos pescadores com o rio está contida em sua forma de ser e estar no mundo, vindo determinar a sua prospecção futura, não apenas em relação à sobrevivência, mas também no que toca ao contato com o rio e com os demais atores que estão nas suas relações por causa do rio. Assim, as memórias que foram retomadas pelas entrevistas aqui transcritas ajudam
a entender o presente dos pescadores e a forma como atualmente eles se relacionam com o rio e com os demais atores sociais à sua volta.
Na perspectiva da continuidade de seu dia a dia, as possiblidades de futuro se inscrevem no contínuo de suas perspectivas iniciais, desde quando chegaram à região, que se configura principlamente pelo desejo de vida digna para si e para a sua própria família. Contudo, a possibilidade da instalação de uma UHE faz com que os rumos de suas vidas fiquem em suspenso. Nenhum deles (pescadores) mudou sua rotina de pesca por causa de uma possibilidade de implantação, mas todos eles têm se detido a pensar no que a instalação vai significar para suas vidas. Talvez, pior do que a certeza, seja a falta de certeza. Talvez ela seja o principal fantasma a se fazer presente no dia a dia dos pescadores, seja no momento solitário da pesca, seja na interação com suas famílias, seja na socialização mais ampla na feira da cidade ou em outros contextos.
Assim, perceber como essa possiblidade de implantação da UHE pode impactar em suas vidas, rouba-lhes o sossego e, em alguns momentos, os assombra, conforme os relatos que seguirão.
Então, a colônia de pescadores é contra a usina porque sai a usina acabou o peixe. Claro que dizem que tem as indenizações, e a gente vai lutar pela indenização, mas que nem a gente que gosta de estar no rio, que vive disso a muitos anos, quer o rio pra pescar (Depoimento do Senhor Bento, Juara, 2019).
Além de uma relação afetiva com o rio, claramente importante para os pescadores, conforme indica senhor Bento, há de se compreender que a usina modificará a vida de cada um que tem suas relações sociais forjadas no contexto da sua relação com o próprio rio, conforme também aponta o senhor Gilberto.
Assim, a gente como vive disso, você tem aquilo como sua renda, você não tem outra opção, eu acredito que vai lógico interferir, atrapalhar, tudo vai mudar não vai ser como antes, apesar que eu nunca vivi essa situação, pelo que os outros falam é o que vai acontecer. Mas com certeza alguma coisa vai atrapalhar e muito. (Depoimento do Senhor Gilberto, Juara, 2019) A percepção de que a presença da hidrelétrica vai impactar em suas vidas é clara. As especulações são em relação ao que os atingirá diretamente e como imporá modificações ao seu modo de relacionar-se com o rio e de sobreviver. A sobrevivência dos pescadores está ligada ao rio e às suas configurações atuais; os
limites e as possibilidades do rio em suas vidas foram descobertos pelos pescadores no decorrer de décadas e não de um dia para outro. Portanto, compreender o rio e as suas possíbilidades, antes de tudo, é estar numa relação de reciprocidade com ele; o rio se dá a conhecer e é conhecido pelos pescadores. A sua modificação, uma vez que suas águas conhecerão os impactos do alagamento que a UHE provocará, exigirá uma nova forma de relação, tanto dos pescdores com o rio, como dos pescadores com os demais atores sociais. A vida será alterada; e quem pode prever que será para melhor?
O povo fala que, até mesmo o biólogo que deu orientação, Matrinchã não vai pegar mais, porque Matrinchã ela gosta de corredeira, então a área vai ficar represada, parada com certeza a Matrinchã você não vai conseguir ver mais, e a questão do transporte que nem nos usa o rio 100% para transporte, para descer e subir, nós não tem acesso por estrada, as estradas que tem e de fazenda, e fazendeiro não deixa você passar, a e que nem aqui onde nos vai, sai na balsa, tem estrada ali só descer, pega o rio descendo a e quando fazer essa usina eu não sei como que nós vamos fazer pra fazer esse transito a e, eu acredito que vão ter que arrumar um canto lá para nos descer [grifo nosso]. (Depoimento do Senhor Gilberto, Juara, 2019)
Outro ponto levantado pelo depoimento do senhor Gilberto diz respeito ao comportamento dos próprios peixes. Esse relato demonstra o conhecimento que o pescador tem acerca dos peixes em seu habitat, construído ao longo de décadas de relação que se estabeleceu em um determinado local e sob determinadas condições e reforçada pelo conhecimento técnico do biólogo. Isto é, as relações deram-se ao longo do rio Arinos em uma dada configuração, formato ou desenho natural, que será alterado. Essa alteração que será provocada pela instalação da UHE, acarretará mudanças na adaptação dos próprios peixes, que são a fonte de subsistência dos pescadores.
Mas uma coisa eu digo, se sair a usina o peixe vai a mísera, não vai, ainda mais se for com comporta de abrir e fechar, porque uma hora ou outra lá em baixo, outra hora lá em cima, o peixe fica louco. [O peixe] não sabe para onde é que vai, a agua suja, agua limpa, uma hora sobe outra hora abaixa, peixe não pode viver desse jeito. (Depoimento do Senhor Gilberto, Juara, 2019).
Em outro momento da entrevista, o senhor Gilberto questiona os critérios de escolha do local para a implantação da UHE e na disparidade da aplicação das leis ambientais em relação a quem comete alguma infração. Sua forma de pensar, que
soa também como um desabafo indignado, tem relação com a aplicação da lei ambiental que em alguns momentos tem claro rigor, principalmente junto aos pescadores e outras minorias em sua relação de subsistência com a natureza, e rigor, aparentemente menor, com os grandes empreendimentos operados por empresas, cujo objetivo econômico não é sobrevivência, mas acúmulo de capital a partir da geração de energia e sua venda.
Deveriam aproveitar cachoeira que não afeta tanto, mas chega a e e vão represar o rio, desmatar que nem vão fazer, vão desmatar as margens toda, arrancar mato de ilha. Eu falo com tanta questão ambiental que tem, aquelas leis ambientais, tanta gente foi multada porque cortou uma arvore, porque desmatou em local que não era permitido, a e agora os caras vão chegar a e vão limpar vão fazer uma varredura. Que lei que é essa, então os pescador tem que estar se unindo e não deixar esse negócio sair não, que vai atrapalhar nós. (Depoimento do Senhor Gilberto, Juara, 2019). Em alguns momentos, a reflexão intuitiva do senhor Bento toca numa questão importante que é a definição do equilíbrio entre o benefício que a implantação da UHE trará em relação aos prejuízos que poderão advir com a presença desse empreendimento para as populações atingidas.
A geração de energia vai ser muita pouquinha pelo impacto que vai ter, então a gente não entende disso a e, a gente é pessoas que cresceu aqui na nossa região não entende nada dessas coisas, mas o que a gente escuta falar é que o impacto vai ser mais do que valer a pena a energia gerada, não vai ser compatível, vai ser só prejudicial. (Depoimento do Senhor Bento, Juara, 2019).
Senhor Bento ainda segue dizendo que
Hoje está todo mundo ansioso porque se vier essa usina vai vim muitos benefícios para a cidade, mas pesquise as outras cidades, onde é que foi sair a usina, para vocês veem que não é um benefício para a cidade, pode ser um benefício para a população do Brasil inteiro, mas pra cidade não, para a cidade não tem benefício. Para a cidade é só o fervo da construção, e pode pesquisar em todos os lugares que foi construído. A gente vê o povo só reclamando nessas cidades. (Depoimento do Senhor Bento, Juara, 2019).
Além de compreender a relatividade dos benefícios que a implantação da UHE trará, senhor Bento ainda traduz muito bem a sua condição de minoria quando aponta a sua quase total vulnerabilidade diante de interesses maiores, que são os
interesses do mercado que visam a otimização mercantil de áreas que podem gerar algum tipo de produto (nesse caso a energia) e que não está sendo aproveitada.
Contudo, essa mesma percepção neoliberal de mercado, que se fundamenta na liberdade dos investimentos e na lucratividade, não se alinha com os valores que representam o respeito aos direitos fundamentais, dentre eles o de conviver em um ambiente saudável, livre de iniciativas que desconfiguram formas de ser e estar no mundo e com ele estabelecer relações.
Então nós temos que ver se isso a e vai ser ser benéfico para nossa região, que nem eu mesmo que cresci aqui, meus filhos está tudo aqui se criando aqui, eu falo gente pensem bem porque se tiver jeito de evitar, vamos evitar dessa usina ser implantada aqui, mas se não tiver, paciência, pois quem manda é os forte, nós somos fraquinhos. (Depoimento do Senhor Bento,Juara, 2019).
Ser “fraquinho” é precisar de um poder maior que os defenda frente às investidas do mercado, contra o qual o Estado deveria proteger esses cidadãos cuja vulnerabilidade ainda é maior. Por isso, o apelo final que segue:
Os nossos representantes têm que ver isso a e, tem que caçar o que e melhor pra cidade, não vão só atrás do dinheiro não, porque o dinheiro quando nos morrer não leva nada, mas deixar um legado para os nossos filhos aqui, essas paisagens bonita que tem o Rio Arinos, e vê a Matrinchã nadando nesse rio, vamos tentar deixar isso a e para os nossos filhos e netos. (Depoimento do Senhor Bento, Juara, 2019).
Ao assumir a sua condição de “fraquinho”, o senhor Bento diz também que não há quem o defenda e que a causa em questão – o direito de permanecer em seu ambiente e com ele poder interagir em busca da realização des seus sonhos e projetos – não será por ninguém, efetivamente, defendida.
Considera-se que, na contramão do acúmulo perpetrado pelas relações de poder emanadas do capitalismo, e com emparelhamento do Estado, cujo comportamento execrante tem sido observado no racismo ambiental, e nas trilhas da exclusão, dos agentes sociais, de seus territórios, aqui nominados ribeirinhos, para ampliação do setor hídrico. A proposta por um verdadeiro Estado de bem-estar social que respeita a diversidade das formas de estar no mundo, urge o comprometimento de interesses públicos e privados em garantir, nas mesmas esferas decisórias, a participação das comunidades indígenas, ribeirinhos e
pescadores em seu próprio destino, o que ocorre na verdade é um jogo de cena, conforme veremos a seguir.
7. AUDIÊNCIAS PÚBLICAS: O JOGO DE CENA DE PROCEDIMENTOS