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Em um panorama artístico, o super-herói das histórias em quadrinhos (HQ) figura como qualquer outro herói, mas com o diferencial do alinhamento imagético-verbal em sua exposição ao leitor, a partir da composição da pictografia do desenhista, seja ele editor de um grupo empresarial ou um indivíduo. Assim, o super-herói em quadrinhos é, também como os demais protagonistas, estabelecido em pacto com o leitor, conforme referenda Eco (1994), para quem existe uma normativa com vistas à fundamentação de uma conexão entre leitor e autor. Nesse diálogo, para o estudioso,

[...] a norma básica para se lidar com uma obra de ficção é a seguinte: o leitor precisa aceitar tacitamente um acordo ficcional, que Coleridge chamou de “suspensão da descrença”. O leitor tem de saber que o que está sendo narrado é uma história imaginária, mas nem por isso deve pensar que o escritor está contando mentiras. De acordo com John Searle, o autor simplesmente finge dizer a verdade. Aceitamos o acordo ficcional e fingimos que o que é narrado de fato aconteceu. (ECO, 1994, p. 81)

Fixado, então, o acordo ficcional entre autor e leitor, o super-herói em quadrinhos pode seguir em sua projeção narrativa, dando conta dos efeitos que lhe são atribuídos a partir das prerrogativas que lhe cabem. Assim é que ganha cores se esse elemento pictórico for parte do projeto ou do processo de que pretende o autor da obra. Um dos passos importantes que pretendemos realizar é que o aluno perceba a importância de se fazer um projeto de escrita, posto que sabemos que a maioria dos alunos pouco trabalha na preparação do que vai redigir, muitas vezes, toma a folha em branco e “despeja” o que lhe vem à mente como uma produção automática. Por isso, planejamos que o estudante crie seu super-herói em quadrinhos com amplas cores, tanto em suas tintas convencionais quanto em suas pressuposições subjetivas. Em sequência, o aluno-autor do super-herói em quadrinhos precisa ter, em si, a distribuição equilibrada dos elementos subjetivos que imergem o seu leitor na narrativa e que, assim, o tornam íntimo da via receptora de seu enredo.

O super-herói em quadrinhos é uma personagem que, a exemplo de qualquer outro protagonista, tem as ações do enredo centralizadas em suas atitudes, posturas e, sobretudo, tomadas de decisões. É aqui que vamos compreender que a

[...] história em quadrinhos (ou HQ) é uma arte literário-imagética, permitindo uma atuação e entendimento que incide de forma diferenciada nos hemisférios cerebrais.

A imagem recai no hemisfério direito do cérebro, enquanto que a informação escrita fonética racional atua no esquerdo. Tais aspectos auxiliam na educação dos valores humanos de forma sistêmica, integrativa, considerando-se a interdisciplinaridade no ensino. Além disso, a história em quadrinhos pode ser também autoral, distintamente daquela padronizada como fruto de uma equipe para finalidade estritamente comercial. Em ambos os casos, a história em quadrinhos deve receber o estatuto de arte, como quaisquer outras das expressões humanas que são assim classificadas, tais como as artes visuais, plásticas, cinema, literatura e outras. (ANDRAUS, 2013, p. 43)

Quando o autor premedita o leitor, promove a identificação com o super-herói, planeja elementos do enredo, dos acontecimentos, com os seus vislumbres cotidianos, estamos diante de uma evidência catártica, que dimensiona o leitor às impressões pessoais em contato com as narradas na obra ficcional (ARISTÓTELES, 2000). Assim é que, quando um leitor ou espectador encontra na história em quadrinhos ou na tela uma cena que desperta terror, piedade, compaixão ou qualquer outro sentimento, ele volta seu olhar para si, dialogicamente, numa

compensação espelhada e projetada de seus pensamentos, de seus atos. Por isso, Bakhtin (2006) nos alerta de que o eu pra mim lança-se em direção ao outro e promove autoconhecimento.

Assim, para a representação narrativa do super-herói em quadrinhos, sugerimos a demarcação estrutural que se espera dos heróis convencionais, aquela em que uma missão é apresentada ao personagem central e que, após essa revelação, é iniciada pelo protagonista.

Acreditamos que o aluno em fase de aprendizado pode seguir a trajetória tradicional ou mesmo romper com ela, buscando novos caminhos. O super-herói em quadrinhos, então, passa por acontecimentos que provam sua heroicidade diante do leitor e, com isso, consegue provar sua capacidade heroica em relação à intervenção, seja ela por meio de uma solução completa ou, pelo menos, mediana, a um problema social. E esse é um de nossos objetivos, levar o aluno a compreender bem o status de um herói para, a partir disso, construir os seus próprios. Sob esse panorama, Vogler (1998) assimila que

[...] os padrões do mito podem ser usados para contar a história em quadrinhos mais simples do mundo ou o drama mais sofisticado. A Jornada do Herói cresce e amadurece à medida que se fazem novas experiências com sua estrutura. Mudar o sexo e as idades relativas dos arquétipos só faz com que fiquem mais interessantes, e permite que se desenrolem teias de compreensão muito mais complexas entre eles. As figuras básicas podem se combinar, ou cada uma pode se dividir em vários personagens, para mostrar diferentes aspectos da mesma ideia. A Jornada do Herói é infinitamente flexível, capaz de variações infinitas sem sacrificar nada de sua mágica, e vai sobreviver a nós todos. (VOGLER, 1998, p. 36).

Diante da assertiva de que os super-heróis em quadrinhos seguem os panoramas representativos das demais modalidades heroicas, vamos levar aos alunos, na proposta, um exemplo de narrativa em HQ, a fim de que possa observar como o autor ou o narrador construiu a personagem e suas possibilidades enunciativas. Isso, logicamente, contribui com o ensino, que deve pautar questões sociais ditas e não ditas e contemplar criticamente a aprendizagem estudantil dentro de um prospecto histórico lido adequadamente pelo aluno. No veio histórico, por exemplo, cabe lembrar que os super-heróis em quadrinhos, como se vê em representação contemporânea,

[...] são frutos do jornalismo moderno. No final do século XIX, Joseph Pulitzer e William Randolph Hearst, os “mais poderosos proprietários de cadeias de jornais nos Estados Unidos”, na disputa pela conquista de um público maior, criaram os suplementos dominicais com o intuito de atraírem os semianalfabetizados e os imigrantes, que tinham dificuldades com o inglês; grande parte deste material era formada por narrativas figuradas, no estilo europeu. Os quadrinhos ganharam, então, autonomia, criando uma expressão própria; os comics – como eram chamados inicialmente por serem quadrinhos de humor – alavancaram a venda de jornais.

(XAVIER, 2017, p. 3 e 4).

Condicionados ao vínculo direto com a emergência noticiosa, os super-heróis em quadrinhos refletem um momento histórico e refratam possibilidades de variação dos conflitos sociais (MELO, 2010). A partir de então, alcançam a sua mais pontual linha de relevância enunciativa, afinal “qualquer noção que seja objeto de estudo não pode ser focalizada desvinculando-se do estudo de outras tantas noções (MELO, 2010). A compreensão desse parâmetro de importância é extremamente necessária para a enunciação dos valores sociais dos super-heróis em quadrinhos. E essa é a perspectiva discutida adiante.

2.4 A IMPORTÂNCIA DO SUPER-HERÓI DOS QUADRINHOS: VALORES SOCIAIS,