Se o herói é o ser a quem testes são impostos para comprovação de sua heroicidade, por meio de uma jornada (CAMPBELL, 1990), o super-herói, receptor de um prefixo indicativo de elevação, pouco se dissocia do primeiro, no âmbito do enredo. A principal dissociação está no fato de que o herói tem precedência de semideus, com prerrogativa de contato íntimo com deuses ou outros aliados de via divina, na execução de atos estratégicos excepcionais. Essa figura era mais encontrada no mundo antigo. Com o passar do tempo, o herói passou a ser visto também como super-herói, aquele que também executa atividades grandiosas e tem viabilidade comum ao cotidiano, de procedência reles e, muitas vezes, humilde, colhido na rotina do dia a dia, pouco eficiente para conceder-lhe brilho.
Nessa percepção,
[...] a diferença entre Herói e Super-herói é que este possui habilidades incomuns para os humanos, apesar de que, para muitos teóricos, um personagem não precisa necessariamente possuir poderes sobre-humanos para ser um super-herói. Esses dois termos podem ser considerados sinônimos que definem um personagem altruísta que dedica sua vida na defesa dos fracos e oprimidos, lutando pela paz e justiça do mundo.
Sobre essa diferenciação, [...] o herói possui habilidades excepcionais, mas humanamente possíveis, enquanto o super-herói possui habilidades sobre-humanas (...) e só pode existir havendo um mundo habitado por esses superpoderosos (SILVA, 2011, p. 03).
A delineação mais pontual acerca do super-herói o condiciona diretamente às tramas em quadrinhos, aludindo à premissa prefixal 'super' apenas por estratégia de marketing, sob a proposição de maior encantamento do leitor ao tomar conhecimento da obra, induzindo-lhe à compra de uma manifestação artística que lhe ofertasse uma consequente superaventura. Sobre esse panorama, o sociólogo Nildo Viana, estudioso das histórias em quadrinhos e de seus impactos nos meios sociais, atrela a origem da designação 'super-herói' tanto aos primeiros quadrinhos norte-americanos quanto à mídia japonesa, desde 1930 (MOYA, 1986). Nessa percepção,
[...] o nascimento da definição “super-herói” se confunde com o lançamento das HQ do Superman, pois este foi o primeiro herói dotado de habilidades especiais como:
super força, velocidade, visão de calor entre outros. Há rumores de que a palavra
“super-herói” tenha sido derivada do próprio nome do personagem: super de Superman (SILVA, 2011, p. 03).
Para além desses entendimentos, temos também narrativas que exploram figuras que em nada teriam condições de exercer o papel de herói, por conta de inexpressivas características e de impossibilidades de superação de seus problemas. Essa figura também é enfaticamente explorada, tanto nos quadrinhos quanto nos demais âmbitos literários, e é em torno dela que o enredo progride. Diante disso, o
[...] anti-herói, por sua vez, é o termo que define aquele que contraria a concepção do herói tradicional. Ele até pode defender uma causa justa em favor de outros, mas suas intenções ou motivações não são nobres. Agem por motivos muitas vezes egoístas e não seguem um código de conduta. Alguns optam por matar seus inimigos intencionalmente, ao contrário dos heróis, que não matam. Para os anti-heróis justiça e vingança são palavras que se confundem. Vale ressaltar que anti-herói não é vilão, ele só não possui os mesmos atributos, principalmente éticos, que os heróis (SILVA, 2011, p. 03).
O anti-herói, portanto, não é o antagonista do herói e, nesta segunda década do século XXI, temos, nos meios cinematográficos, uma profusão de narrativas em que se destaca o anti-herói, como é o caso do “Coringa” (2019). No Brasil, é interessante notar que há uma ruptura dos limites rígidos entre as concepções de herói e anti-herói, o que caracteriza um movimento de resistência. Essa é mais uma assertividade com a qual problematizamos nosso trabalho. É importante que os estudantes dissociem as concepções filosóficas e literárias de um herói para construir com a devida parcimônia as ações que intervirão em relação aos problemas brasileiros, na proposta de atividade que estamos estabelecendo.
A serviço, então, de melhor análise dessa questão, ou até mesmo sob a proposição de apresentar mais indagações acerca disso, observemos o meme abaixo, colhido no Correio Brasiliense:
Figura 05: Super-Heróis cumprimentam equipe médica em razão da atuação contra a pandemia de COVID-19.
A imagem em questão circula livremente pelas redes sociais e foi cotejada no site do Correio Brasiliense.
Disponível em: < https://blogs.correiobraziliense.com.br/aricunha/tag/meioambientenobrasil/>.
A imagem acima (figura 05) está em circulação livre pelas redes sociais da internet a partir de 2020 quando se desencadeou a Pandemia Covid-19. O site do qual a extraímos traz junto ao texto a seguinte legenda: “Bonita a foto que corre nas redes sociais onde os super-heróis se curvam para a passagem do corpo funcional hospitalar”. Estamos, então, diante de uma interessante linha digna de reflexão: a do eixo linguístico que torna as pressuposições enunciadas discursos possíveis e plausíveis no mundo, a respeito do super-herói.
Nessa linha de pensamento, o meme (figura 05) acima apresenta ao leitor um apanhado de diversos super-heróis dos quadrinhos e, consequentemente, também dos cinemas, que juntos
se curvam, em condição honorífica a uma equipe médica, aludida pelo traje usual de um grupo hospitalar. Vejamos como a enunciação foi conduzida, por intermédio de um texto que explora apenas a linguagem não-verbal. Entendamos como foi importante a observação detalhada dos olhares dos super-heróis para os seres humanos, indivíduos que estão em atuação frenética no âmbito profissional da saúde, em prol das pessoas contaminadas pela Covid-19.
Faz-se interessante, também, perceber que o enunciador alocou de um lado os super-heróis da produtora DC Comics, enquanto do outro vemos os integrantes da Marvel. As personagens são importantíssimas construções nos quadrinhos e nos cinemas, mas os leitores sabem que, em maior ou menor grau, disputam espaço no mercado. Essa contenda os torna
‘inimigos’ publicitários, o que, no meme acima, faz a mensagem ainda mais pontual. Todas as diferenças, sejam elas mercadológicas, sociais, psicossociais ou quaisquer outras, devem ser superadas pela admiração a profissionais que salvam milhares de vidas todos os dias, sendo exatamente quem são e agindo mesmo com tanto medo das adversidades relativas a essa doença que desafia até mesmo os cientistas mais estudiosos do mundo.
Houve, aqui, uma transformação estratégica dos super-heróis, curvados, reduzidos, admirados da força humana e de como sua atuação tem possibilitado mais do que, supostamente, eles fariam ou fizeram pela humanidade. Como todo enunciado está encadeado por uma prospecção discursiva, dizendo o que poderia nesse meio e não outra coisa em seu lugar (FOUCAULT, 2008), vejamos que, também no campo enunciativo-semântico, a figura autoral do meme – se é que se pode entender o produtor assim – desenhou indivíduos do sexo masculino na equipe médica. Esse indivíduo enunciador coloca os super-heróis curvando-se necessariamente para profissionais da saúde do sexo masculino. Também é de se questionar que outras formas de individualidade profissional essa escolha excluiu. Vale indagar ainda o motivo de, até mesmo entre os super-heróis, o número de figuras femininas ser tão reduzido. O que a sociedade enxerga como figura heroica, para que esse meme circule tão tranquilamente pelas redes sociais, sem causar estranhamento, é outra possível percepção questionável. Além disso, ao se olhar a equipe médica, percebe-se sua composição por seres do sexo masculino, todos de etnia branca, de prospecção europeia, padronizada... Sabemos que isso pode revelar muito sobre a visão de mundo do enunciador e também sobre os enunciatários.
Essas reflexões serão levadas aos alunos para discutir os conceitos de herói e super-herói, dialogismo e discurso no ensino de língua materna e o nosso trabalho sugere que os alunos criem um super-herói em quadrinhos que intervenha nos problemas da nação. Faz-se relevante que norteemos o cenário para compreender de que modo um super-herói pode agir social e politicamente e não apenas de modo individual, visto que não é interessante dar a
entender que uma única figura seja a responsável pela quebra de um quadro caótico materializado por toda uma conjuntura histórico-sociológica.