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O conceito de Discurso e como isso fundamenta o herói

1.1 OS CONCEITOS DE LÍNGUA E LINGUAGEM E COMO ELES FUNDAMENTAM AS

1.1.1 O conceito de Discurso e como isso fundamenta o herói

Leiamos, abaixo, um trecho da HQ “Superman: Son of Kal-El” (DC COMICS, 2021), nossa figura de número 03, para que possamos avaliar a formulação dos discursos em torno do herói:

Figura 03 – Superman: o filho de Kal-El

HQ “Superman: Son of Kal-El”, página 09 do capítulo 01. (DC COMICS, 2021. HQ disponível em:

https://hqdragon.com/leitor/Superman:_Filho_de_Kal-El_(2021)/01).

O trecho acima narra o momento de um parto, o que por si só é incomum nas HQ, mas trata-se da inserção de fato cotidiano na narrativa, o que possibilita o diagnóstico de uma vertente heroica pela dimensão expressa pela voz tanto dos personagens considerados super-heróis - Superman e Diana - quanto de Lois Laine, a humana que carrega em seu ventre o filho do, até então, maior herói do universo. Outra ruptura aqui se estabelece em relação aos enredos originais de super-heróis, que têm uma imagem assexuada. Assim, temos um efeito de sentido construído no processo de interlocução, o que podemos chamar de Discurso relacionado ao contexto sócio-histórico (BRANDÃO, 2004, p. 89). Nessa depreensão, o discurso apresenta-se em oposição a uma concepção de língua e de narrativa como mera transmissão informativa, mas se estrutura de acordo com percepções possíveis, plausíveis e exequíveis no contexto sociocultural (BRANDÃO, 2004, p. 89), de modo a trazer para a vida do super-herói uma proximidade com o contexto dos humanos mortais. Sendo assim, quando Lois questiona o pai de seu filho sobre o seu atraso, mescla nele a condição de ser herói e a de ser humano, expressando o que vê no mundo, isto é, nos demonstra uma evidente conjuntura de textualidade, a relação dialógica do texto consigo e com a exterioridade, a circunstância de mundo.

“O discurso não é fechado em si mesmo e nem é do domínio exclusivo do locutor: aquilo que se diz significa em relação ao que não se diz, ao lugar social do qual se diz, para que se diz, em relação a outros discursos” (BRANDÃO, 2004, p. 89). Frente a isso, na fala de Diana "mas o nascimento desta criança é o maior evento ocorrendo agora. Seu filho pode ser o maior herói que esse mundo já viu", esboça-se o que a personagem tem percebido em seu mundo a respeito da heroicidade, e logicamente também quanto a outros acontecimentos. A declaração de Diana, certamente, não apresenta pontualmente ocorrências anteriores que julguem o nível do maior herói existente, mas consegue recuperar implicitamente uma nivelação mito e humanidade para isso. Com isso, a descendente de Themyscira expressa o que não está efetivamente dito para esclarecer o leitor da obra, agora livre para seu processo inferencial.

A afirmação de Diana é seguida da resposta irônica de Lois: "Podemos esperar até que ele respire fora de um saco amniótico antes de empurrar expectativas injustas sobre ele?". Com isso, também ‘se diz sobre o não dito’, ao se estabelecer o nascimento de um herói sempre com vislumbre relativo a uma percepção científica biológica, mas também se empreende uma ironia sobre as posturas críticas acerca da condição humana, à esperança, à renovação, à expectativa.

O discurso de Lois expressa que, antes de qualquer possibilidade futura, a criança precisa nascer e ela precisará cumprir seu papel materno ao proteger seu filho das perspectivas que se impõem sobre ele. Temos aqui o diálogo entre os discursos humanos de nascimento biológico e os discursos sociais sobre a condição humana heroicizada.

Outro efeito implícito, ou seja, do que não foi dito, mas está percebido pelo discurso, encontra-se na ação do pai, logo na página seguinte à apresentada anteriormente (na figura 04).

Vejamos:

Figura 04 − O filho do Super-Homem como narrador.

HQ “Superman: Son of Kal-El”, página 10 do capítulo 01. (DC COMICS, 2021. HQ disponível em:

https://hqdragon.com/leitor/Superman:_Filho_de_Kal-El_(2021)/01).

Em se tratando da postura do Superman, percebemos que ele responde a Lois com uma pergunta e que, em seguida, adota um posicionamento silencioso, mas demarcadamente gestual, através do olhar, o que também é identificado como um enunciado-resposta. É aí que encontramos novamente Bakhtin (2006), para quem toda ação linguística tem proposição

responsiva e aguarda, por sua vez, uma resposta. É isso que torna a língua dotada de significados, uma vez que

[...] a significação pertence a uma palavra enquanto traço de união entre os interlocutores, isto é, ela só se realiza no processo de compreensão ativa e responsiva.

A significação não está na palavra nem na alma do falante, assim como também não está na alma do interlocutor. Ela é o efeito da interação do locutor e do receptor produzido através do material de um determinado complexo sonoro. É como uma faísca elétrica que só se produz quando há contato dos dois polos opostos.

(BAKHTIN, 2006, p. 135)

A materialização das significações produtoras dos sentidos se serve dos discursos axiológicos que atravessam os dizeres. É o discurso que dá conta da forma como enxergamos ou não determinado panorama social, como o dos três personagens acima, em que dois são super-heróis com poderes sobrenaturais e que os aplicam em atos altruístas e uma é humana, que comunga de seus ideais, que os admira e que os respeita. Todos, quanto ao discurso sobre ser herói, pautam-se nas impressões que têm do tema, situando-se sob um discurso que pouco separa o que compreendem da via negativa que coloca os homens como maus ou ruins, no plano comportamental, afinal o planeta está sendo ameaçado por uma invasão alienígena, e eles estão divididos sobre suas preocupações.

Nas histórias em quadrinhos, a personalidade do super-herói, quanto ao ângulo do discurso, é o que move a narrativa, configurando o pensamento do leitor para uma espécie de contrato (SILVA, 2001), o mesmo que um pacto (ECO, 1994), sob o qual ambos – autor e leitor – trilham seus discursos. Silva (2001) complementa essa percepção ao afirmar que o texto estabelece uma postura na qual o leitor se encaixa. Nesse viés,

[...] não existe um texto isolado com significados prontos para inculcar mensagens na mente dos leitores. O que se observa é a proposta de maneiras de ver a realidade dentro dos limites definidos pelo texto. [...] Deve-se observar como os textos criam espaços para os leitores através de artifícios textuais. O texto só se torna relevante para análise à medida em que é significativo para o leitor. Existem também certas expectativas tipificadas que fazem o leitor aprender o que esperar do texto. O `contrato´ envolve um acordo de que o texto vai falar para o leitor de uma maneira que seja reconhecida e que se refira a certos aspectos do cotidiano. [...] muitas vezes o leitor demanda um tipo diferente de histórias quando há uma lacuna entre o que o leitor espera e o que o texto traz. [...] O texto sugere um contrato em que regras de participação são dadas.

Entretanto, o leitor não tem de aceitar significados fixos e se posicionar de uma maneira passiva: o leitor está preparado antes do encontro com o texto para trazer diversas experiências para este encontro. Isto implicaria que o texto deve ser reconstruído como um sistema de significados, muitas vezes semelhante à ideologia do texto (SILVA, 2001, p. 12 e 13).

Assim que o leitor leva para o texto suas percepções, e sequencialmente, dentro dele, as trabalha e dialoga com novas perspectivas, está, então, aplicando a compreensão bakhtiniana

de emprego da língua viva e dinâmica (BAKHTIN, 2006, 2013). Dessa forma, o leitor comunga do discurso e promove outros. Aqui, contamos com o auxílio de Fiorin (2008a), para quem o conteúdo descrito

[...] precisa unir-se a um plano de expressão para manifestar-se. Chamamos manifestação à união de um plano de conteúdo com um plano de expressão. Quando se manifesta um conteúdo por um plano de expressão, surge um texto. Discurso é uma unidade do plano de conteúdo, é o nível do percurso gerativo de sentido em que formas narrativas abstratas são revestidas por elementos concretos. Quando um discurso é manifestado por um plano de expressão qualquer, temos um texto. Poder-se-ia perguntar por que diferenciar a imanência (plano do conteúdo) da manifestação (união do conteúdo com a expressão), se não existe conteúdo sem expressão e vice-versa.

Essa distinção é metodológica e decorre do fato de que um mesmo conteúdo pode ser expresso por diferentes planos de expressão ‘e’ o discurso está totalmente materializado no conteúdo apresentado [...] (FIORIN, 2008a, p. 45)

Na história em quadrinhos, portanto, tem se o plano discursivo por dois códigos, o visual (não-verbal) e o verbal, o que configura essa obra como mista quanto à constituição da linguagem. Por esse ângulo, os discursos se expressam sob óticas diversas, seja pelo não-verbal, ao se efetivar determinadas cores ou tracejar expressões dos personagens, seja pela escolha lexical que o autor faz para materializar as falas e, assim, apresentar os conflitos que movem a trama.

Nessa trilha, também concordamos com Foucault (2008), pois o estudioso explica que

[...] o discurso é constituído por um conjunto de sequências de signos, enquanto enunciados, isto é, enquanto lhes podemos atribuir modalidades particulares de existência. E se conseguir demonstrar [...] que a lei de tal série é precisamente [...]

formação discursiva, se conseguir demonstrar que esta é o princípio de dispersão e de repartição, não das formulações, das frases, ou das proposições, mas dos enunciados (no sentido que dei à palavra), o termo discurso poderá ser fixado: conjunto de enunciados que se apoia em um mesmo sistema de formação; é assim que poderei falar do discurso clínico, do discurso econômico, do discurso da história natural, do discurso psiquiátrico. (FOUCAULT, 2008, p. 122)

Com foco em nosso objeto de estudo, a história em quadrinhos, entendemos que essa se enquadra em um gênero discursivo específico, com suas funcionalidades e peculiaridades estruturais (BAKHTIN, 1997), que é materializada pelos discursos diversos que a povoam e com ela estabelecem diálogo (SOBRAL, 2009). Nessa esteira, ainda, o discurso, para Foucault (2008), pode estabelecer uma relação sequencial que convenciona os enunciados que, por sua vez, fomentam a pluralidade de formações discursivas. Logo, vale (re)questionar: “[...] como ocorre que tal enunciado tenha surgido e não outro em seu lugar?” (FOUCAULT, 2000, p. 91).

Em aclive nas indagações, como entender, então, que Superman, Mulher Maravilha e Lois tenham essa compreensão acerca do herói e não outra? E na dimensão da história em quadrinhos? Por qual motivo a formação discursiva de um herói simbólico é a que se materializa

e perdura ao longo do tempo? Quais outros discursos foram apagados para que esse, com essa construção ideológica (BAKHTIN, 2006) e formação discursiva (FOUCAULT, 2008), fossem expressos? Foucault (2000) nos diz que a exclusão de determinadas enunciações está diretamente vinculada às normas que regulam a organização discursiva e que, com isso, envolvem as delimitações do que é possível, dado como plausível, ou não de ser dito, o que, logicamente, está atrelado à dominação dos poderes dos discursos, bem como às maneiras de expressão, de circulação, além da própria percepção eletiva dos sujeitos que escolheram por este ou aquele veio discursivo.

Em síntese, o herói existe porque é possível dentro do discurso que governa a fala, agora contemporânea, da humanidade. Por conseguinte, “[...] a análise das condições que regem o surgimento, a existência, a conservação, o apagamento, a reativação, a circulação, as relações estabelecidas entre os discursos e o papel que esses exercem implica, em uma perspectiva foucaultiana, a consideração da dimensão histórica” (SEVERO, 2013, p. 148). Nessa depreensão, o herói em quadrinhos tem existência singular a esse momento histórico, o que o torna estratégico como nosso objeto de análise.