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A RETOMANDA DA PREDOMINÂNCIA DAS COMMODITIES NAS EXPORTAÇÕES

3. PRODUÇÃO E COMERCIALIZAÇÃO DO ETANOL NO BRASIL

3.1 A RETOMANDA DA PREDOMINÂNCIA DAS COMMODITIES NAS EXPORTAÇÕES

Atualmente, o debate entre especialistas tem sido intenso em torno do crescente peso de commodities agrícolas e minerais nas exportações brasileiras. No entanto, cabe questionar em que medida este cenário prenuncia uma situação confortável no que se refere à obtenção de divisas provenientes daqueles produtos. Apesar de terem sido historicamente predominantes nas exportações brasileiras, no início dos anos de 1980 passaram a perder importância a favor dos produtos industrializados e semimanufaturados (Gráfico 3.1).

0 10 20 30 40 50 60 70 80 90

1964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980 1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014/nov

Básicos Semimanufaturados Manufaturados

%

Gráfico 3.1 - Distribuição (%) das Exportações Brasileiras por fator agregado – 1964 a 2014/nov.

Fonte: SECEX.

Tal inversão de tendência foi alvo de diferentes interpretações, principalmente tendo em vista que, após reduzirem continuamente seu peso, os produtos básicos voltaram a superar os manufaturados no total das exportações, a partir de 2009. Para interpretar esses movimentos é preciso considerar a mudança de perfil das vantagens comparativas das exportações brasileiras de produtos básicos. Enquanto as vantagens comparativas predominantes no passado derivavam quase exclusivamente da dotação de fatores, no período recente, a projeção das commodities nas exportações tem incorporado elementos situados no campo da inovação tecnológica e do conhecimento, que passaram a moldar a competitividade das exportações desses produtos.

Segundo a teoria das vantagens comparativas ricardianas os países se especializam e são competitivos em produtos cuja produtividade do trabalho é mais elevada. Em sua análise neoclássica através do modelo Heckscher-Ohlin, os países se tornam competitivos na medida em que exploram mais intensivamente recursos relativamente mais abundantes. Essas formulações teóricas, no entanto, já não são suficientes para compreender o potencial exportador e a posição alcançada pelo Brasil nos mercados mundiais de commodities. Mais do que isso, a inserção do Brasil nesses mercados tem sido determinada por vantagens competitivas resultantes de capacidades dinâmicas que vão além das vantagens comparativas, e promovem aumento de produção e de produtividade. Mesmo que a exploração de fatores abundantes, como terra e

mão-de-obra, contribua para a competitividade de um país, a criação de novas vantagens competitivas tem sido elemento determinante da concorrência internacional nos mercados de commodities.

A partir do início da década de 1990 uma inversão de tendências das exportações de produtos básicos e industrializados começava a se manifestar, acentuando-se a partir dos anos 2000, quando os produtos básicos evoluem positivamente (Gráfico 3.1). Assim, os determinantes da competitividade das commodities naturais frente a produtos manufaturados retornam ao centro das discussões. Preço é a variável mais aparente a ser considerada na evolução desse cenário. A partir do ano 2000 se observa uma retomada do crescimento das vendas de produtos básicos brasileiros, seguindo uma tendência favorecida pelo aumento da demanda mundial, resultando num aumento dos preços internacionais (FREITAS, 2009). Dessa forma, não se pode omitir os efeitos dinâmicos gerados pelo aumento dos preços na estrutura produtiva brasileira de commodities, impulsionando sua competitividade internacional, independentemente das condições favoráveis dos mercados globais.

Assim, a transformação produtiva local a partir de conhecimento científico e tecnológico, passou a impulsionar fortemente a expansão da competitividade brasileira não apenas de produtos industrializados, mas também de diversas commodities naturais.

Não se trata de um processo com características tipicamente inerciais como se verifica em padrões comerciais baseados em vantagens comparativas ricardianas. As commodities brasileiras, mesmo derivando de recursos naturais, também foram beneficiadas pelo progresso e pela transformação tecnológica. A produção de etanol da cana-de-açúcar e suas características técnicas podem ser analisadas a partir dos elementos acima apontados, que definem a dinâmica dos mercados de commodities no período recente. As perspectivas do etanol passam a ser influenciadas tanto por essa dinâmica como pela evolução da cana-de-açúcar que, mesmo sendo uma commodity, se projeta qualitativa e quantitativamente no mercado de combustíveis alternativos aos fósseis, por ser mais sustentável ambientalmente. O próprio avanço na condição de produto exportável é um bom sinalizador dessas novas potencialidades, ainda que o volume de comércio internacional de etanol seja pequeno, sobretudo quando comparado com a quantidade comercializada no mercado interno. Mas, além do combustível propriamente, a dinâmica econômica em torno do uso da cana-de-açúcar como fonte de biomassa tem propiciado avanços em áreas onde há uma forte criação de vantagens

competitivas a partir dos recursos naturais. Esse processo de “recommoditização” das exportações brasileiras revela as potencialidades do etanol como uma atividade econômica catalisadora de novas oportunidades e desafios, sobretudo tecnológicos, e possivelmente comerciais.

A complexidade dos relacionamentos formados no interior da estrutura produtiva do açúcar e do etanol, que são os dois principais produtos derivados da cana-de-açúcar, deve-se não somente às condições tropicais do Brasil, mas também à alta dose de conhecimento e inovação tecnológica que foram determinantes para ampliar a competitividade desses produtos ao longo do tempo. A classificação desses itens baseados a partir de recursos naturais como commodities de baixo conteúdo tecnológico nas estatísticas de comércio, muitas vezes oculta o conjunto de competências utilizadas e que estão por trás dos resultados produtivos e comerciais alcançados. Ao longo da tese serão discutidos esses elementos, especialmente aqueles referentes ao caso do etanol e do papel das políticas públicas nesse contexto. Mas antes disso faz-se necessário apresentar brevemente as etapas produtivas e as relações comerciais que marcam o sistema produtivo a partir da cana-de-açúcar de modo a embasar a compreensão das complexidades e potencialidades relacionadas ao etanol.