3. PRODUÇÃO E COMERCIALIZAÇÃO DO ETANOL NO BRASIL
3.4 O BRASIL NO MERCADO INTERNACIONAL DE ETANOL
Um aspecto crucial da evolução do setor produtor de etanol se refere à sua inserção no mercado internacional. Embora em escala muito inferior às dimensões do mercado interno, as exportações de etanol explicitam estratégias para esse mercado formuladas pelo governo e pela indústria, ao mesmo tempo em que indicam a capacidade competitiva do Brasil num mercado global em formação.
Ao longo do tempo o Brasil se tornou um dos principais produtores de itens derivados da cana-de-açúcar no mundo (açúcar e etanol), destacando-se devido ao pioneirismo na formação de um grande mercado interno que favoreceu a expansão da produção e consumo de etanol nas últimas décadas. Em 2005 o Brasil perdeu o posto de maior produtor mundial de etanol para os EUA. Os dados recentes referentes à produção mundial mostram que a velocidade de crescimento da produção de etanol nos EUA tem sido muito superior à verificada no Brasil. A tabela 3.4 apresenta a produção mundial entre 2007 e 2013, destacando que os EUA se consolidaram como o grande produtor mundial de etanol, seguido do Brasil. Além disso, verifica-se que o crescimento da produção é acelerado em todo o mundo. Contudo, a produção brasileira é a que menos tem crescido nos últimos anos (3,2% a.a.), e bem abaixo da taxa de crescimento da produção mundial, o que mostra indícios de que o país não está evoluindo nesse segmento com o mesmo afinco visto em outros países.
Tabela 3.4 – Produção mundial de etanol (milhões de litros) e Taxa de Crescimento Anual (%) entre 2013-2007
2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 Cres. Anual %
Estados Unidos 24.685 35.238 41.405 50.338 52.799 50.346 50.346 10,7 Brasil 19.000 24.500 24.900 26.201 21.097 21.111 23.723 3,2 Europa 2.159 2.777 3.937 4.575 4.420 4.463 5.190 13,3 China 1.840 1.900 2.052 2.050 2.100 2.101 2.635 5,3 Canadá 800 900 1.102 1.350 1.750 1.700 1.980 13,8 Restante do Mundo 1.194 1.474 3.460 3.727 2.643 2.847 4.815 22,0 Total 49.676 66.789 76.855 88.241 84.809 82.567 88.688 8,6 Fonte: Renewable Fuels Association (RFA) e U.S. Energy Information Administration (EIA).
É importante registrar que em outros países que não possuem clima tropical com alta incidência de sol e umidade adequada, a cana-de-açúcar não se mostra uma opção viável. Assim, nos EUA os produtores de etanol vêm utilizando o milho como matéria-prima. Em algumas poucas regiões da Europa e no Havaí (EUA) existem plantações de cana-de-açúcar, mas a produção é relativamente pequena, comparado ao
caso brasileiro. Assim, outras matérias-primas (por exemplo, a aveia, o arroz, a cevada, o trigo e o sorgo) também são utilizadas para produção de etanol.
No que se refere ao comércio internacional, o etanol ainda não responde por elevados fluxos nas transações internacionais e ainda não conta com um mercado internacional organizado nos mesmos moldes vistos para outras commodities, como também não há a definição de padrões internacionais para o produto. O Brasil é um dos países que vem participando das exportações de etanol com certo destaque, mas os valores comercializados são pouco significativos quando comparados com a produção total que é, em sua maioria, consumida no mercado interno. Como já visto a partir das estatísticas referentes ao mercado nacional, as exportações brasileiras de etanol somente ganham maior volume a partir dos anos 200050, atingindo um pico em 2008 (Gráfico 3.9).
-0,5 0,0 0,5 1,0 1,5 2,0 2,5
1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 Exportações Importações
US$ bilhões
Gráfico 3.9 – Exportações e Importações Brasileiras de Etanol – 1989 a 2014
Fonte: Secex.
Nota: 2014 contempla até o mês de maio.
A redução verificada no total das exportações logo após 2008 se deve, sobretudo, aos efeitos da retração econômica provocada pela crise internacional no período e às próprias características da estrutura de oferta interna, a qual pode vir a ser problemática para a oferta de etanol quando se utiliza de sua capacidade de reposicionamento de produção frente às oscilações desfavoráveis de preços do etanol
50 Até 30/04/1997 todo o etanol anidro produzido no Brasil era vendido somente à Petrobras que era a empresa estatal com monopólio da produção de gasolina no Brasil. Somente a partir dessa data a comercialização passou a ser feita com as distribuidoras de combustíveis.
quando os preços do açúcar estão mais favoráveis no cenário internacional, por exemplo.
Nota-se que em 2012 já há uma recuperação das exportações, o que se confirma a partir de 2013. No que se refere às importações percebe-se momentos de pico nas compras brasileiras de etanol estrangeiro tal como ocorre entre 1990-91, 1994-95 e 2010-11. No caso dos dois primeiros períodos esse movimento reflete a redução das expectativas de expansão do setor ao longo da década de 1990, momento no qual a demanda por carros movidos a etanol foi reduzida drasticamente porque os novos compradores preferiram comprar carros movidos à gasolina devido à falta de confiança que se criava em torno da sustentação e ampliação do fornecimento de etanol no país.
Ademais, a crise econômica iniciada em 2008 contribuiu para o engavetamento de vários projetos de produção de etanol, além de retrair as expectativas do setor. Assim, os problemas que caracterizam a estrutura de oferta de etanol no Brasil estão muito relacionados ao fato de que a ‘inexistência’ de um mercado ‘organizado e regular’ em que a postura dos agentes (incluindo o Estado) possa contribuir para mitigar riscos e incertezas sobre o futuro, contribuindo para melhorar a capacidade de articulação entre oferta e demanda, com avanços competitivos nesse segmento51.
Apesar dos valores maiores das vendas em 2006 e 2008, o país precisou vender um volume em litros muito maior do que quando comparado aos anos após 2010 em que os volumes menores (em litros) possibilitaram um retorno monetário maior. Isso indica que o cenário recente tem sido mais favorável ao Brasil em termos do preço médio por litro do etanol vendido internacionalmente. Esse resultado tem relação com o salto na demanda estadunidense pelo etanol brasileiro e também em função de reduções nos preços internacionais do açúcar entre 2011 e 2012 (Gráfico 3.10). Assim, fatores de movimentação conjuntural (mas relacionados à estrutura de oferta) acabaram afetando esses resultados melhores para as vendas externas de etanol. Mas, como já apontado acima, ao mesmo tempo em que isso pode ser visto como um resultado positivo, em outra fase os problemas reapareceram desestabilizando o mercado e trazendo à tona questões de cunho estrutural.
51 Essa discussão norteará todo o restante da tese, sobretudo quando da discussão sobre o papel do Estado na definição e implementação de políticas públicas de fomento ao etanol.
0
1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 Exportações em dólares Exportações em litros
Bilhões de Dólares Bilhões de Litros
Gráfico 3.10 – Exportações Brasileiras de Etanol (em dólares e em litros) – 1997 a 2014
Fonte: Secex e Unicadata.
Há de se registrar que essa retomada das exportações também tem relação com o maior excedente do etanol internamente devido à manutenção de menores preços da gasolina até 2012, tal como já foi apontado anteriormente. E como o maior parceiro comercial do Brasil na venda de etanol atualmente são os EUA (Tabela 3.5), parte desse cenário positivo também tem relação com a maior estiagem ocorrida em solo americano a qual prejudicou sua produção de milho, e consequentemente a oferta interna de etanol.
Essa estiagem resultou numa queda de dois bilhões de bushels na produção de milho entre 2011 e 2012, levando a um aumento no preço do milho e suspensão das operações de muitas usinas (EPE, 2013).
Tabela 3.5 – Exportações Brasileiras (US$ milhões) de Etanol para os Principais Países Parceiros – Anos Selecionados
2000 2002 2004 2006 2008 2010 2012 2013 Acumulado
EUA 4,6 7,7 80,4 882,4 756,9 186,0 1.500,0 1.094,0 4.512 bilhão. Tendo em vista a importação de 0,6 bilhão de litros (a maior parte dos EUA), o resultado líquido do comércio de etanol com esse país foi de 2,5 bilhões de litros.
Apesar de os EUA serem o maior produtor mundial de etanol, em volume físico, há certa dependência de importações de produto brasileiro. O valor elevado registrado em 2012 se deveu, como já apontado, a problemas climáticos que afetaram diretamente a capacidade americana de produção de etanol de milho. O grande volume importado pela Jamaica e El Salvador se deve ao fato desses países serem entrepostos das exportações brasileiras para os EUA, beneficiando-se de acordos comerciais que as empresas nesses países dispõem, reduzindo ou isentando as vendas de impostos quando da entrada do produto nos EUA52. Já as importações pelo Japão foram impulsionadas nos anos recentes, sobretudo devido a acordos comerciais entre empresas japonesas e brasileiras.
Segundo a EPE (2013), a Copersucar, Copesul, Cosan e Petrobras possuem acordos com esse país desde 2008, tendo a última realizado investimentos diretos por meio de joint-venture no Japão para promover a produção de biocombustíveis naquele país.
0
2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019 2020 2021
21,9
28,2 33,3 37,4 41,1 43,7 46,6 51,3 56,6 61,6
4,3
52 Em relação à parceria com os compradores americanos, existem desafios a serem superados apesar das expectativas criadas em relação àquele mercado. O protecionismo e o apoio direto dos governos de países desenvolvidos à produção de biocombustíveis são barreiras reais. Segundo Belik e Vian (2003), o caminho a ser seguido pelas empresas também deve contemplar a diferenciação de produto através da certificação ambiental e da produção orgânica, pois parece que essa é uma preocupação ausente entre os produtores atualmente. Ademais, o comércio bilateral tem sido maior porque o etanol brasileiro tem ajudado no cumprimento das metas impostas pelo Renewable Fuel Standard (RFS) nos EUA (EPE, 2013). Na safra 2012/2013 ocorreu uma forte pressão de empresas alimentícias para que as metas de uso de etanol impostos pelo RFS fossem revistas, sob a alegação de que isso aumentava o risco de falta de milho para ser usado por essa indústria.
bilhões de litros em 2021. O Gráfico 3.11 apresenta a trajetória de crescimento prevista tanto para a demanda interna, no Brasil, como externa. No entanto, o crescimento da produção local poderá não ser suficiente para atender a expansão da demanda efetiva e potencial caso não se forme um cenário que garanta estabilidade e confiança para ampliação dos investimentos. Mas eles só se tornarão reais quando passar a existir, efetivamente, um mercado internacional de etanol (com capacidade de organização e manutenção da demanda e oferta), em que haja condições que minimizem as incertezas e favoreçam a realização de investimentos com objetivo de atender a demanda de forma estável e não suscetível aos movimentos conjunturais que atualmente marcam a produção no segmento sucroalcooleiro.