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A revolta palestina (1936-39) e o engajamento político

CAPÍTULO II – A FUNDAÇÃO DA SIM E SEU ENGAJAMENTO POLÍTICO

2.3 A revolta palestina (1936-39) e o engajamento político

Na década de 30, a SIM deparou com várias oportunidades políticas que colaboraram decisivamente para a consolidação do grupo como uma relevante força política. Retomando a ideia de Tarrow sobre os principais elementos da estrutura de oportunidades políticas, observou-se que a abertura do poder na década de 20, via ampliação do acesso ao voto, foi uma delas. Outro elemento que pode ser observado foi uma divisão na elite egípcia. Na mesma época, uma série de rupturas importantes ocorreu, especialmente na elite política, que acabaram se aprofundando nos anos 30. Uma já mencionada foi a cisão frontal entre o rei e o partido nacionalista. Fu’ad, e mais tarde seu filho Faruq, travaram contendas com o Wafd e se empenharam em alijar o partido do poder –apesar de as urnas insistirem em dar ampla maioria aos nacionalistas. Ao mesmo tempo, um ex-membro do Wafd, Ali Mahir, aliou-se ao palácio e deu início a uma campanha a fim de obter a denominação de sultão para o rei egípcio, pois a liderança da umma estava vaga desde a fundação da República da Turquia. O título, que significava “detentor do poder, da autoridade” 286, daria

legitimidade ao seu desejo de ser líder dos muçulmanos –o rei Fu’ad já havia tentado anteriormente, sem sucesso, obter tal título. Em vista disso, Mahir patrocinaria uma aproximação com grupos islâmicos, sendo um deles a SIM.

A organização islâmica ainda era pouco conhecida em 1936, especialmente pelos britânicos. Em relatório posterior do serviço diplomático287, datado de 1942, afirma-se que a embaixada teria tomado conhecimento da SIM somente oito anos após a fundação da organização islâmica. A data é confirmada por meio de outro documento da própria embaixada, de 1936288. Os

286 THE ENCYCLOPAEDIA of Islam. Leiden: E. J. Brill, 1991, v. IX, p. 849, 851.

287 FO 141/838, 305/37/42. Islamic Societies: reports on by British Intelligence and Egyptian police. The Ikhwan al Muslimin reconsidered. Cairo, 14 de dezembro de 1942.

288 Este é o primeiro documento encontrado que faz menção à SIM: FO 371/19980, E 3153. De

britânicos não travaram conhecimento sobre as atividades da SIM naquele ano por acaso. É certo que o envolvimento na Palestina foi o que chamou a atenção dos diplomatas para a atuação dos irmãos muçulmanos.

O primeiro documento encontrado no FO que trata da Irmandade Muçulmana data de maio daquele ano, quando contava com cerca de 800 membros, segundo informações colhidas pela embaixada. Nesse despacho, ainda é relatado que a maior parte do grupo era formada por estudantes universitários, em especial oriundos da Universidade de Al-Azhar289, o mais respeitado estabelecimento de ensino religioso não apenas do Egito, mas de todo mundo islâmico sunita.

O interesse britânico em relação à SIM provavelmente surgiu após a realização de campanhas para a arrecadação de fundos destinados aos palestinos, que no dia 19 abril de 1936 deram início a uma revolta contra o Mandato Britânico 290 . Através de manifestações, discursos inflamados, publicações e panfletagem em favor da luta dos palestinos, a SIM se envolveu pela primeira vez ativamente com “assuntos políticos”291 em âmbito nacional.

Mesmo assim, as questões dogmáticas continuaram sendo o cerne das discussões em suas conferências gerais, como na que comemorou os dez anos do movimento292.

O envolvimento com a rebelião palestina foi também a estreia do grupo em questões internacionais, além de ser a primeira grande atividade que confrontou diretamente os britânicos. De um lado, a justificativa era ajudar irmãos muçulmanos palestinos que faziam parte da umma. Por outro, era uma forma de opor-se ao mesmo inimigo doméstico, os britânicos, que estavam sendo desafiados em seu mandato.

A SIM foi além e estabeleceu um comitê de arrecadação, presidido por al-Banna, –o que demonstra a importância dada ao tema–, que tentou associar-se a outros grupos, como a Igreja Copta egípcia. Como não obteve êxito em criar uma ampla frente pró-Palestina que congregasse outros setores da sociedade egípcia, a SIM acabou por elaborar, entre 1936 e 1939, uma

289 FO 371/19980, E 3153. De Sir Miles Lampson para Foreign Office. Cairo, 28 de maio de

1936.

290 ROGAN, Eugene. The Arabs. A History. London: Penguin Books, 2012, p. 254. 291 MITCHELL, Richard P., 1993, p. 16-17.

diretiva em favor da causa, com seus próprios meios e métodos de campanha. “Isso produziu resultados extraordinários, não apenas na esfera de ajuda para a Palestina, mas, principalmente, no crescimento e força internos”, enfatiza Israel Gershoni293, que pesquisou a fundo o envolvimento da SIM com a revolta palestina.

Através da “Campanha Palestina” de arrecadação, milhares de novos membros se associaram e muitos novos diretórios puderam ser fundados em diferentes localidades do país294. Apesar de não arrecadar muito em valores, a mobilização conseguiu chegar aos pequenos doadores, aqueles que se mostrariam mais inclinados a se associar à SIM –tanto os grupos intermediários como os mais necessitados, tanto os advindos do meio rural como do urbano. Gershoni lista milhares de doadores, sendo a maioria deles da efendiyya, estudantes, professores, funcionários de bancos, empresas de telefonia, ferroviários, engenheiros, artesãos, pequenos comerciantes, comerciários, religiosos (como xeques, imames e cádis)295.

Segundo Gershoni, não há indícios de que os fundos arrecadados tenham sido totalmente enviados para a Palestina –apenas uma pequena soma teria sido transferida. Tal afirmação se apoia na falta de evidências sobre o que foi feito com os valores e a ausência de cartas de agradecimento de líderes palestinos em jornais da entidade. O autor sustenta que a organização islâmica se aproveitou dos fundos da campanha, que trouxe muitos adeptos, para manter os novos associados e expandir os diretórios para apoiá-los296.

De fato, a campanha ampliou as redes da SIM. Os novos diretórios trouxeram mais capilaridade e reconhecimento nacional ao movimento. Mas este avanço também ocorreu por outro motivo mais específico. A campanha foi extremamente popular, na medida em que promoveu uma bandeira –a solidariedade com os vizinhos palestinos. A causa obteve ampla receptividade mesmo entre os não-membros da SIM, como os cristãos. Houve doações de

293 GERSHONI, Israel. The Muslim Brothers and the Arab Revolt in Palestine, 1936-39. In:

Middle Eastern Studies, Londres, v. 22, no. 3, July, 1986, p. 367-397. Disponível em: <http://www.jstor.org/discover/10.2307/4283128>. Acesso em: 27 jul. 2011. Tradução livre para: “These produced remarkable results, not only in the sphere of aid to Palestine, but, mainly, in internal growth and strength.”

294 Ibid, p. 373. 295 Ibid., p. 375.

fiéis coptas à campanha da SIM, mesmo que sua liderança religiosa não tenha aderido297. Trouxe, portanto, à organização dividendos na ordem de visibilidade

e de apreciação perante o público local.