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Divisões na elite e reordenamentos políticos (1935-1940)

CAPÍTULO II – A FUNDAÇÃO DA SIM E SEU ENGAJAMENTO POLÍTICO

2.4 Divisões na elite e reordenamentos políticos (1935-1940)

Na segunda metade da década de 1930, houve um acirramento da divisão que já se aprofundava desde os anos de 1920 no seio da elite política egípcia. Ocorreu, em primeiro lugar, uma cisão dentro do Wafd, provocando a criação de um novo partido, que passou a fazer-lhe franca oposição. Em seguida, agravou-se o antagonismo entre o palácio e o Wafd –amparado pelo desprezo mútuo que havia entre o rei Faruq e o líder da agremiação, Nahas Paxá. Tais episódios são fundamentais para a compreensão do crescimento da importância política da SIM, na medida em que conflitos dentro da elite criam incentivos para grupos que têm poucos recursos para se arriscarem na ação coletiva298. No caso da SIM, estas divisões significaram oportunidades para a

expansão de sua atuação no cenário político egípcio, ao dar mais espaço para sua atuação política.

O Wafd venceu com larga margem as eleições de 1936, levando 166 assentos da Câmara Baixa do Parlamento, cerca de 80% das vagas que se encontravam em disputa. Apesar de o comparecimento não ter sido “entusiasmado”, segundo constatou o então Alto Comissário britânico sir Miles Lampson, ele mesmo admitiu que o pleito foi visto por amplos setores da sociedade como sendo “o mais livre já realizado no Egito”299.

A hegemonia do Wafd foi parcialmente abalada em 1937, com a expulsão de Ahmad Mahir e de Mahmud Fahmi al Nuqrashi, dois influentes nomes do partido ligados às bases sindicais e de estudantes. Mahir e Nuqrashi eram remanescentes dos anos de ouro do movimento nacionalista, ou seja, a década de 1920. O segundo mencionado era casado com a filha de Sa’d

297 Ibid., p. 375.

298 TARROW, 2006, p. 79.

299 FO 407/219, J 4538/2/16. De sir Miles Lampson to Anthony Eden. Cairo, 9 de maio de 1936.

Zaghlul, o herói nacionalista cujo nome foi usado para batizar o novo partido que ele e Ahmad Mahir viriam a fundar. Ambos se envolveram no assassinato do governador-geral do Sudão sob o Condomínio Anglo-egípcio sir Lee Stack, em 19 de novembro 1924, uma das ações mais ousadas dos nacionalistas.

Esta foi uma secessão decisiva dentro do Wafd, que minou parcialmente as bases ligadas a importantes setores de mobilização, dos estudantes e dos profissionais liberais, ainda que não tenha abalado a maior base do seu eleitorado, que era originária do meio rural. O rompimento resultou em um novo partido no ano seguinte, o Saadista, que se transformou na principal frente de oposição no Parlamento ao Wafd, ao participar de várias coalizões patrocinadas pelo monarca, abrindo um novo flanco de disputa na esfera política. Além dos britânicos, o Wafd colecionou como novos rivais seus ex- aliados, mais o Misr al-Fatat e a SIM.

O relato da médica e ativista feminista Nawal Al Saadawi demonstra quais eram os eleitores típicos do Wafd e do partido Saadista:

A varanda [de sua casa] seria a cena de uma peleja muito parecida com o que acontecia no Parlamento. Os camponeses que constituíam a família do meu pai apoiavam o Wafd e o governo, enquanto a família de Shoukry Bey [seu avô por parte de mãe, a parte mais

abastada da família] ficava do lado dos paxás como Ahmed Mahir e

Nuqrashi, e com os partidos minoritários.300

À divisão interna se seguiu o desafio de um grupo externo. O Misr al-

Fatat, partido formado em 1933 essencialmente por estudantes, formou um

braço paramilitar chamado de Camisas Verdes, claramente inspirado nos Camisas Negras fascistas, tanto pelo uso de uniformes, como pela forma truculenta de abordar os rivais políticos. Os Camisas Verdes travariam batalhas contra os adeptos do Wafd não no Parlamento, mas nas ruas –tal fato se coaduna com a concepção de que em períodos de abertura política, quando há menos repressão, existe um incentivo à disputa política aberta301.

300 EL-SAADAWI, op. cit., p. 88. Tradução livre para: “The verandah would be the scene

(durante o Eid) of a struggle very much like the one which was going on in the parliament. The peasants who constituted my father’s Family supported the Wafd and the government, whereas Shoukry Bey’s Family would take sides with the pashas such as Ahmed Maher and Al-Nokrashi, and with the minority parties”.

Com a ascensão do Wafd nas eleições de maio de 1936, os Camisas Verdes se tornaram uma grande preocupação para o novo governo. De acordo com informe da embaixada britânica, eles vinham se tornando “muito ativos entre os estudantes” e “mais e mais influentes”, eram “supridos de pistolas” e poderiam “começar a praticar assassinatos políticos”302. A ação do grupo

causou preocupação entre os britânicos, que temiam o aumento da resistência violenta contra suas tropas e até uma revolta popular generalizada.

Com o objetivo de barrar a oposição aberta do movimento, o primeiro- ministro Mustafa Nahas Pasha tentou declarar a ilegalidade dos Camisas Verdes, mas o projeto de lei formulado pelo Ministério do Interior foi barrado pelo Departamento Jurídico. A solução encontrada pelo líder do Wafd foi apelar para o mesmo artifício, ou seja, criar o seu próprio grupo paramilitar, os Camisas Azuis. Ainda segundo relato de sir Miles Lampson: “Esse movimento cresceu rapidamente e em poucas semanas; somente o grupo do Cairo já tinha um número maior de integrantes do que os Camisas Verdes. O grupo então se espalhou por outras cidades e para as províncias”303.

Sir Miles Lampson acusou os Camisas Azuis de serem um “Frankeinstein” que não poderia ser controlado pelos próprios líderes do Wafd, segundo relato enviado por telegrama a Anthony Eden, chefe do Foreign Office304. Em carta, Eden respondeu a Lampson: “Acho que você deveria

instigá-lo [o líder do Wafd] com insistência sob sua ordem a tomar medidas urgentes a fim de controlar este movimento para limitar suas atividades e, se possível, guiá-los para meios menos perigosos”305. Ambos os grupos foram

extintos em 1938, um indicativo de que o pedido de Eden e Lampson foi levado a cabo pelo então governante.

302 FO 407/219, J 4415/2/16, Inclosure: de sir Miles Lampson para Anthony Eden. Cairo, 16 de

maio de 1936. Tradução livre parcial para: “[...] the greenshirt group, which had grown very active amongst the students, were becoming more and more influential and it was said that they were being supplied with pistols and might start political murders [...]”.

303 Ibid. Tradução livre para

: “This movement grew very rapidly and within a few weeks the Cairo group alone had outnumbered the greenshirts. The movement then spread to the other cities and to the provinces”.

304 FO 407-219, J 8299/2/16: carta de sir Miles Lampson para Anthony Eden. Cairo, 9 de julho

de 1936.

305 Ibid. Tradução livre para: “I consider you should urge him with all the emphasis at your

command to undertake early measures to control this movement, to limit its activities and, if possible, guide them into harmless channels”.

Mas o principal foco de instabilidade era o rei Faruq, que tinha restrições contra o Wafd e os britânicos –e vice-versa. Logo no início de seu reinado, Faruq se irritou com a forma com que era usualmente tratado por Lampson, que o chamava de “boy” (menino) e costumava dar longos sermões de como o jovem monarca deveria se comportar. Nahas Paxá, por sua vez, não admitia ter de negociar com alguém tão inexperiente e popular, fato que também o deixava com ciúmes, segundo relata o Alto Comissário britânico em um informe a Londres306. O rei, por sua vez, considerou uma afronta a atitude de Nahas de exigir, como primeiro-ministro, que as mesquitas incluíssem seu nome nos cultos de sexta-feira –até então uma prerrogativa do monarca. Os relatos sobre essas desavenças são, respectivamente, de Lampson e do conselheiro do consulado em Alexandria, David Victor Kelly:

Ele [Nahas Paxá] falou com grande violência sobre o comportamento do rei Faruq, que era totalmente intolerável. Sua Majestade usou linguagem ofensiva contra ele em uma audiência recente, e estava claro, acima de qualquer dúvida, que sua intenção era provocar uma ruptura e seu pedido de demissão.

Sua Excelência acrescentou que era despropositado que um mero menino sem experiência estivesse adotando esse papel agressivo. Isso era totalmente inconstitucional e Sua Excelência está propenso a imaginar se alguma cooperação futura com Sua Majestade seria em algum momento possível e se, no interesse do país, o rei deveria ir- se.307

Sua Majestade está honestamente convencida de que Nahas, fora questões políticas, está com ciúmes da posição pessoal e representativa do soberano, e Nahas tinha, eu sabia, especialmente o ofendido ao ter [inserido] seu nome nas orações das mesquitas.308

O principal articulador do confronto entre monarca e primeiro-ministro foi Ali Mahir, irmão de Ahmed, que até então ocupava o cargo de chefe de gabinete do palácio. Ele foi acusado por Nahas Paxá de também tentar unir a

306 FO 407/221, J 4592/20/16. De sir Miles Lampson para Anthony Eden. Cairo, 2 de novembro

de 1937.

307Ibid. Tradução livre para: “He spoke with great violence of King’s Farouk attitude, which was

totally intolerable. His Excellency had with difficulty restrained himself and refrained from saying anything that would have played into His Majesty’s hands. His Excellency continued that it was preposterous that a mere boy of no experience should be adopting his aggressive rôle. It was entirely unconstitutional, and his Excellency was moved to wonder whether further co-operation with His Majesty would ever be possible and whether in the country’s interest King Farouk would have to go”.

308 FO 407/221, J 4273/20/16. De David Victor Kelly para Anthony Eden. Alexandria, 7 de

outubro de 1937. Tradução livre para: “His Majesty was honestly convinced that Nahas, apart from political issues, was jealous of the Sovereign’s personal and representative position, and Nahas had, I knew, given special offence by having himself prayed for in the mosques”.

oposição para derrubá-lo e de fomentar a agitação de estudantes da Universidade al-Azhar contra seu governo309. Ali Mahir, que já havia assumido

como primeiro-ministro entre janeiro e maio de 1936, tinha, segundo o agente britânico James Heyworthe-Dunne, três ambições definidas. A primeira era ver a real independência do Egito. Acreditava, como grande parte dos nacionalistas até então, que tal objetivo poderia ser alcançado com uma derrota britânica na guerra que parecia se aproximar. O segundo era formar um bloco pan-árabe, com o Egito na liderança. O terceiro era ver uma ressurgência do Islã310, com o poder e a abrangência que possuiu em seu apogeu. Para tanto, pragmaticamente, Mahir se aproximou de movimentos islâmicos, como a Associação de Moços Muçulmanos e a SIM.

A crise que se instaurou entre o palácio e o Wafd, fomentada por um governo extremamente ineficiente na opinião do agora embaixador sir Miles Lampson311, foi dissolvida por Faruq em dezembro de 1937, alijando Nahas Paxá e seu popular partido do poder. Ainda segundo o mesmo informe da embaixada, o monarca agia também sob uma grande confiança que vinha de sua alta popularidade –devido à sua juventude e por ser um ator novo no cenário político egípcio312. As divisões que surgiram nesse período produziram

aliados e alianças, que por sua vez proporcionaram meios e patrocínio relevantes para a consolidação da SIM como relevante ator político.