L IGAMENTO E STERNOCLAVICULAR
2.2. C OMPLEXO A RTICULAR DO O MBRO
2.2.3. A RTICULAÇÃO A CROMIOCLAVICULAR
A articulação acromioclavicular, tal como o próprio nome evidencia, materializa a ligação entre a clavícula e a escápula. Uma vez que se trata de uma articulação sinovial do tipo plana [5] [8], está associada a um grau de mobilidade relativamente reduzido, não sendo, por isso,
perfeitamente evidente um movimento relativo entre as duas estruturas ósseas envolvidas na ligação [29]. Por essa razão, trata-se de uma articulação robusta e relativamente rígida, onde a
estabilidade é privilegiada em detrimento da mobilidade [32]. Devido a estas características, e ao
facto de a linha da articulação possuir uma natureza oblíqua e ligeiramente curva, a articulação acromioclavicular é capaz de suportar solicitações traumáticas de forma eficaz, sem que isso conduza a lesões – responsável por transmitir forças entre a clavícula e o acrómio [5]. A sua
função de suporte é igualmente evidente na contribuição que detém na cadeia cinemática associada ao complexo do ombro humano. A curvatura da articulação permite que a escápula deslize para a frente e para trás ao longo da superfície articular da clavícula, garantindo, desta forma, o alinhamento constante entre a cavidade glenoideia e a cabeça do úmero [5] [32].
Apesar de, por definição, as superfícies articulares associadas a uma articulação plana corresponderem a zonas fundamentalmente planas e de tamanho aproximadamente igual, isso não é totalmente evidente na articulação acromioclavicular. Enquanto a extremidade acromial da clavícula corresponde a uma superfície relativamente pequena, convexa e oval, com orientação para baixo e para fora, a superfície do acrómio é ligeiramente côncava, possuindo uma orientação inversa [20] [29]. Apesar disso, uma vez que a curvatura das superfícies é ligeira e
variável, a sua contribuição para a concordância e consequente estabilidade é questionável [20] [29]. Tal como acontece com todas as articulações sinoviais, as duas superfícies articulares
encontram-se revestidas por cartilagem articular (inicialmente hialina que, progressivamente, é substituída por fibrocartilagem) [8].
À semelhança do que se verificou na articulação esternoclavicular, existe um disco intra- articular, composto por fibrocartilagem, interposto entre as duas superfícies. Esta estrutura possui a forma aproximada de uma cunha e o seu tamanho é função do indivíduo em estudo [5] [8].
Tem a tendência para se degenerar com a progressão da idade do indivíduo, sendo que por volta da quarta década encontra-se profundamente deteriorado. Por essa razão, a estrutura fibrocartilagínea não só não separa a cavidade articular em duas metades perfeitamente independentes, como não contribui para a mobilidade nem estabilidade da articulação em questão [5] [20] [32].
Tal como já foi anteriormente referido, uma das principais características da articulação acromioclavicular é a sua estabilidade. Esta é garantida por dois tipos de estabilizadores: estáticos e dinâmicos. A primeira, para este caso em particular, é assegurada pela acção conjunta da cápsula articular, do ligamento acromioclavicular e dos ligamentos coracoclaviculares, já que
restringem as amplitudes de movimento [20] [32], enquanto a estabilidade dinâmica é assegurada
pelas estruturas musculares com particular influência na articulação em questão, nomeadamente o deltóide e trapézio [32]. Uma vez que os seus movimentos são reduzidos e de
baixa amplitude, e, por definição, os estabilizadores dinâmicos possuem maior relevância durante as amplitudes intermédias do movimento, os ligamentos assumem-se como os principais elementos que contribuem para a estabilidade total da articulação, sendo, por essa razão, alvo de uma análise mais detalhada no presente documento.
A cápsula articular é um elemento transversal a todas as articulações do ombro e, tal como acontecia com a articulação esternoclavicular, é composta por duas camadas, membrana sinovial e cápsula fibrosa, que se inserem nos bordos de cada uma das superfícies articulares e criam uma estrutura relativamente fina e pouco rígida [8]. Apesar disso, estudos experimentais
comprovam a importância desta na estabilidade total da articulação, especialmente na direcção ântero-posterior, de tal forma que, em situações de luxação, torna-se vantajoso, não só reparar os ligamentos coracoclaviculares, como também a própria cápsula articular [34]. Ainda assim, esta
estrutura encontra-se reforçada, praticamente em todas as direcções, pelo ligamento acromioclavicular (frequentemente designado de ligamento capsoligamentar) e, superiormente, pelas fibras do trapézio [8].
O ligamento acromioclavicular corresponde a um conjunto de faixas ligamentares que revestem totalmente a cápsula ligamentar. Em secções anteriores (2.1.4) analisaram-se as inserções e os aspectos anatómicos mais relevantes desta estrutura, pelo que nesta fase será apenas enfatizada a sua relevância para a estabilidade da articulação acromioclavicular, particularmente quando as forças aplicadas na sua estrutura admitem um valor relativamente reduzido [32]. Estudos verificaram que a componente anterior e inferior do ligamento em questão
não possuem influência significativa na estabilidade posterior da articulação. No entanto, a lesão ou rotura da sua componente posterior e superior conduz à translação da clavícula contribuindo, por isso, de forma significativa, para a estabilidade superior e posterior [20] [32]. É
ainda importante referir que o ligamento acromioclavicular possui uma porção mais profunda, responsável pela rigidez conferida à cápsula [30].
Por sua vez os ligamentos coracoclaviculares são os principais elementos responsáveis pela estabilidade estática da articulação acromioclavicular, especialmente em situações onde o deslocamento das estruturas anatómicas, nomeadamente a clavícula, é elevado [5] [20] [32]. Tal
como já foi visto nas secções anteriores, estes ligamentos são constituídos, fundamentalmente, por duas partes que, apesar de serem anatómica e funcionalmente diferentes, possuem inserções comuns [5]. De uma maneira geral, os dois ligamentos que constituem o complexo
ligamentar coracoclavicular, conóide e trapezóide, são os principais responsáveis pela fixação da omoplata relativamente à clavícula e pela transmissão das forças geradas pelas fibras musculares do trapézio [5]. Analisando, individualmente, cada um dos ligamentos, percebe-se que
contribuem de forma diferente, e em situações distintas, para a estabilidade da articulação em questão. Esta diferença prende-se, fundamentalmente, com a geometria/forma evidenciada por cada um dos ligamentos. O ligamento trapezóide impede a interferência da clavícula com o acrómio [5], sendo igualmente responsável por garantir a estabilidade da articulação
acromioclavicular quando esta é solicitada à compressão, independentemente da amplitude de deslocamento, bem como durante deslocamentos posteriores da extremidade acromial da clavícula [32]. Por sua vez, o ligamento conóide limita o movimento de elevação da clavícula [5] [32].
A tensão imposta a esta estrutura, durante a elevação do ombro, é particularmente importante, uma vez que provoca a rotação axial da clavícula, garantindo-se, assim, a continuidade do movimento de rotação da escápula – permite que o braço atinja as amplitudes máximas [5].
Torna-se por isso evidente a importância do ligamento conóide, não só para a estabilidade da articulação acromioclavicular, como também para a manutenção de toda a cadeia cinemática do ombro humano. Por fim, é ainda importante referir que complexo coracoclavicular integra outras duas componentes que não foram referidas nas secções anteriores: ligamento coracoclavicular externo e interno. Estes progridem, genericamente, da aresta interna da apófise coracoideia até à face inferior da clavícula, complementando a acção dos ligamentos trapezóide e conóide [2] [30].
O ligamento coracoacromial, apesar de se situar nas imediações da articulação acromioclavicular, não possui relevância, do ponto de vista biomecânico, para a articulação em questão [30]. Detém apenas funções secundárias, relativamente importantes, na fisiologia da
articulação glenoumeral, uma vez que materializa, juntamente com outras estruturas, o “tecto da articulação glenoumeral” (impede a translação da cabeça do úmero na direcção superior).
Na figura 2.19 encontram-se representadas as principais estruturas que integram ou influenciam o funcionamento da articulação acromioclavicular.
CLAVÍCULA ESCÁPULA LIGAMENTO TRAPEZÓIDE LIGAMENTO CONÓIDE LIGAMENTO ACROMIOCLAVICULA ACRÓMIO LIGAMENTO CORACOACROMIAL APÓFISE CORACOIDEIA
Figura 2.19 – Representação das principais estruturas ósseas e
Tal como já foi anteriormente referido, por se tratar de uma estrutura plana, a mobilidade associada à articulação acromioclavicular, em termos absolutos, é reduzida (também porque não existe nenhum músculo que efectua a ligação entre as estruturas ósseas envolvidas na articulação), sendo caracterizada, fundamentalmente, por movimentos que garantem a concordância e sincronismo entre a escápula e a clavícula [29] [8]. Como exemplo do carácter de
suporte da articulação em questão, atente-se ao caso dos ligamentos coracoclaviculares, particularmente o conóide, já que estes impõem um movimento à clavícula que permite a concordância desta com os movimentos da interface escápulo-torácica. Por outras palavras, uma das funções da mobilidade da articulação acromioclavicular passa por garantir a concordância entre os movimentos da interface escápulo-torácica e da articulação esternoclavicular [29]. Esta
relação síncrona entre a clavícula e a omoplata, por intermédio da articulação acromioclavicular, foi comprovada nos estudos de Codman e Rokwood [5] [20] e é abordada e caracterizada através
do conceito de Ritmo Escápulo-Umeral. Nas secções subsequentes será analisado, com algum detalhe, o sincronismo de movimentos inerente à existência de uma cadeia cinemática associada ao ombro humano.
Tal como é possível observar pela análise da figura 2.20, a articulação acromioclavicular possui três graus de liberdade [5]. Ainda assim, os principais movimentos associados
correspondem ao deslize relativo das superfícies articulares durante a flexão/extensão do braço e à elevação/depressão durante o movimento de abdução do úmero. É, no entanto, importante referir que os movimentos segundo cada um dos graus de liberdade descritos na figura 2.20 raramente ocorrem de forma independente, sendo, por isso, evidente a sua complementaridade.
O movimento da articulação acromioclavicular segundo o eixo vertical corresponde a um avanço ou recuo do acrómio na direcção ântero-posterior. Consiste fundamentalmente num movimento de deslize entre as superfícies articulares, sendo limitado pelas estruturas integrantes do complexo ligamentar coracoclavicular [5].
EIXO FRONTAL (A) EIXO SAGITAL (B) EIXO VERTICAL (C)
Figura 2.20 – Representação dos três graus de movimento associados à articulação
Por sua vez o movimento segundo o eixo sagital permite aumentar ou diminuir, dependendo do sentido do movimento, o ângulo existente entre a clavícula e a espinha da omoplata. Este eixo permite igualmente caracterizar os movimentos de abdução e adução da escápula [5].
Por fim, os movimentos segundo o eixo frontal estão associados à rotação anterior e posterior da escápula, que conduzem a deslocamentos da clavícula. Neste caso, os movimentos são restringidos, anteriormente, pela porção anterior do ligamento acromioclavicular e pelo ligamento trapezóide, e posteriormente, pela porção posterior do ligamento acromioclavicular, pelo tórax e pelo ligamento conóide [5].