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A RUA E OS DEMAIS ELEMENTOS DA MORFOLOGIA

No documento Qualidade do espaço público (páginas 31-35)

2 O ESPAÇO PÚBLICO E O DESENHO URBANO

2.1 A RUA E OS DEMAIS ELEMENTOS DA MORFOLOGIA

Se a cidade é maior criação da humanidade (GLAESER, 2011), assim também o são, o conjunto dos elementos morfológicos que a constituem. O edifício, a rua, a quadra, o lote e o monumento são elementos morfológicos inventados pelo homem e que podem ser encontrados em qualquer cidade independente do período histórico ou das características sócios culturais da sociedade que a criou. Cada um destes elementos morfológicos está associado a importantes aspectos da instituição da sociedade humana, sendo inclusive mais antigos que a própria cidade (KOSTOF, 1992).

De acordo com a morfologia urbana tradicional da cidade ocidental são 11 os elementos morfológicos do espaço urbano: o solo, o edifício, o lote, o quarteirão, a fachada, o logradouro, o traçado da rua, o recuo, a praça1, o monumento e o mobiliário urbano 2 (LAMAS, 2014). O homem ao permanecer parado ou circular pela cidade

1 Na visão da morfologia tradicional, não há uma tipologia morfológica específica para parque, nem tão pouco para o shopping ou centro de compras. No entanto, na medida em que o parque oferece árvores e vegetação e também é uma forma definida intencionalmente no espaço, livre, apresenta várias características similares à praça.

2 “Solo: É a partir do território existente e da sua topografia que se desenha ou constrói a cidade. O

pavimento é um elemento de grande importância no espaço urbano, contudo de uma grande fragilidade e sujeito a inúmeras mudanças.

Os edifícios: É através dos edifícios que se constitui o espaço urbano e se organizam os diferentes

espaços identificáveis e com “forma própria”: a rua, a praça, o beco, a avenida, etc. Os edifícios agrupam-se em diferentes tipos, decorrentes da sua função e forma. Esta interdependência é um dos campos mais sólidos em que se colocam as relações entre cidade e arquitectura.

O lote: O edifício não pode ser desligado do lote ou da superfície do solo que ocupa, este é a gênese

e fundamento do edificado. A forma do lote é condicionante da forma do edifício e consequentemente, da forma da cidade.

pode perceber todos os elementos morfológicos na sua complexa interação. Pode ser a percepção do ‘protegido’ ou ainda ‘privado’ para o externo ou o público: seja de dentro de um edifício, através de uma janela ou sacada, seja na área livre de um determinado lote. Nestas situações observa-se a paisagem urbana e o espaço público, porém não ocorre uma efetiva vivência. Para vivenciar de forma concreta o espaço público é necessário estar na rua ou em uma praça. As ruas são os principais elementos morfológicos que possibilitam a percepção do espaço público. Além de se conectarem entre si, conectam-se com todos os demais elementos da morfologia urbana. As condições e atributos de uma determinada área pública livre são reveladas pela relação tecida entre as ruas e os demais elementos morfológicos urbanos.

Com relação a rua, Spiro Kostof (1992), em seu livro “City Assembled”, afirma que a sua história ainda está para ser contada quer como forma quer como instituição. No que se refere a forma, uma rua é em geral constituída de um leito carroçável, de calçadas e de edifícios que a margeiam em ambos os lados; podendo articular-se a outras ruas. Há as ruas cobertas, as aleias, os bulevares, entre outras. Paralelamente

O quarteirão: O quarteirão é um contínuo de edifícios agrupados entre si em anel, ou sistema fechado e separado dos demais, é o espaço delimitado pelo cruzamento de três ou mais vias e subdivisível em lotes para construção de edifícios. O quarteirão agrega e organiza os outros elementos da estrutura urbana: o lote e o edifício, o traçado e a rua, e as relações que estabelecem com os espaços públicos, semipúblicos e privados.

A fachada: A relação do edifício com o espaço urbano processa-se pela fachada. São as fachadas

que exprimem as características distributivas, o tipo de edificado, as características e linguagem arquitectónica, um conjunto de elementos que irão moldar a imagem da cidade.

O logradouro: O logradouro constitui o espaço privado do lote não ocupado por construção, as

traseiras, o espaço privado separado do espaço público pelo continuo edificado. É através da utilização do desenho do logradouro que se faz parcialmente a evolução das formas urbanas do quarteirão até ao bloco construído.

O traçado da rua: Assenta num suporte geográfico preexistente, regula a disposição dos edifícios e

quarteirões, liga os vários espaços e partes da cidade e confunde- se com o gesto criador. O traçado estabelece a relação mais directa de assentamento entre a cidade e o território. É o traçado que define o plano, intervindo na organização da forma urbana a diferentes dimensões.

A praça: A praça é um elemento morfológico das cidades ocidentais e distingue-se de outros

espaços, que são resultado acidental de alargamento ou confluência de traçados. A praça pressupõe a vontade e o desenho de uma forma e de um programa. É um elemento morfológico identificável na forma da cidade e utilizável no desenho urbano na concepção arquitectónica.

O monumento: O monumento é um fato urbano singular, elemento morfológico individualizado pela

sua presença, configuração e posicionamento na cidade e pelo seu significado. O monumento desempenha um papel essencial no desenho urbano, caracteriza a área ou bairro e torna-se pólo estruturante da cidade.

A árvore e a vegetação: Caracterizam a imagem da cidade, têm individualidade própria,

desempenham funções precisas: são elementos de composição e do desenho urbano, servem para organizar, definir e conter espaços.

O mobiliário urbano: Situa-se na dimensão sectorial, na escala da rua, não podendo ser

considerado de ordem secundária, dado as suas implicações na forma e equipamento da cidade. É também de grande importância para o desenho da cidade e a sua organização, para a qualidade do espaço e comodidade“. (LAMAS, 2014).

ao aspecto formal da rua, Kostof salienta sua natureza institucional, por ser o espaço da cidadania, da troca, do aprendizado, do acolhimento e promoção do encontro do ‘diferente’. “A única legitimidade da rua é como espaço público. Sem a rua, não há cidade” (KOSTOF, 1992, p. 194, tradução nossa). A rua como espaço público é um local de sociabilidade e fundamental para o exercício da cidadania.

Conforme Kostof (1992) é possível localizar a primeira rua consciente na história em Khirokitia, no sul do Chipre, no sexto milênio a. C. Uma espinha de comunicação, construída de pedra calcária, conduzindo do início ao fim da colina (vide figura 1).

Figura 1 – A primeira rua da história: Khirokitia, 6.000 a.C.

Fonte: KOSTOF (1992, p. 190).

Uma questão perene com relação às ruas é a existência de separação para veículos e pedestres. No mundo antigo, em Roma, as ruas ofereciam faixas elevadas para pedestres ao longo de suas bordas. A cidade etrusca de Marzabotto, perto de Bolonha, possuía uma rede de vias pavimentadas de 15 m de largura e ruas secundárias de 4,9m, todas divididas entre faixa de rodagem e calçadas. A palavra romana para a calçada era semita, e referências a este recurso datam do século III a. C. (KOSTOF, 1992).

No período pós-romano, como parte da deterioração geral da paisagem viária, calçadas saíram quase que totalmente de uso, até que a sua reemergência no período moderno. Ou seja, a calçada manteve-se uma exceção até tempos relativamente

recentes. A distinção inicialmente era feita por meio de divisão feita por pontaletes de madeira. No plano Evelyn de Londres após o incêndio, além da linha construída ficar mais elevada foram implantadas calçadas nas partes renovadas. (KOSTOF, 1992) (vide figuras 2 e 3).

No século XIX, a calçada é efetivamente consolidada. Em 1822 existiam apenas 267 metros de calçadas em toda a cidade de Paris; por 1848, o total já havia subido para 260 quilômetros. (KOSTOF, 1992).

Figura 2 – Londres no século XVII

Figura 3 – Londres em 1813

Fonte: KOSTOF (1992).

No documento Qualidade do espaço público (páginas 31-35)