4 O ESPAÇO PÚBLICO COMO LUGAR
4.3 A VIDA PÚBLICA
4.3.1 A vida pública na rua: privado x público e comércio x
As interações sociais que ocorrem no espaço público são em sua maioria de caráter predominantemente passivo, isto é, o indivíduo observa pessoas, conversas, comportamentos, vitrines, clima. Contudo, como “[...] está presente, participa em pequena medida, porém definitivamente participa” (GEHL 2006, p.23, tradução nossa). Este fator é um forte atrativo para as pessoas em geral, independente da renda, “[...] muitos ricos ou quase ricos das cidades parecem apreciar a vida nas ruas tanto quanto qualquer um. Eles fazem de tudo, até pagar alugueis fabulosos, para mudar-se para locais com vida exuberante e variada”. (JACOBS, 2014).
A diversidade comercial é um fator preponderante para o enriquecimento da vida pública. Jane Jacobs afirma que a “diversidade comercial é em si imensamente importante para as cidades tanto social quanto economicamente” (2014, p. 162). Neste sentido, a instalação de lojas voltadas para um mercado voltado para variadas rendas, pode promover um fortalecimento da diversidade. Novos frequentadores atraídos pelas compras de valor mais acessível podem propiciar num primeiro momento maior diversidade social, e futuramente também maior diversidade cultural e populacional, pois:
[...] onde quer que vejamos um distrito com um comércio urbano exuberantemente variado e abundante, descobriremos ainda que ele também possui muitos outros tipos de diversidade, como variedades de opções culturais, variedade de panoramas e grande variedade na população e nos frequentadores. É mais do que uma coincidência. As mesmas condições físicas e econômicas que geram um comércio diversificado estão intimamente relacionadas à criação, ou à presença, de outros tipos de variedade urbana (Jacobs, 2014, p. 162).
Com o declínio da cultura pública, ou seja, quando a vida pública passou a ser entendida como moralmente inferior, usando as relações familiares como padrão. Privacidade e estabilidade pareciam estar unidos na família. A legitimidade da ordem
pública foi posta em dúvida. O declínio da vida pública vai se expressar sobretudo no século XX. As ruas e praças da cidade são substituídas por salas de estar em casas suburbanas (SENNET apud MADANIPOUR, 2003, p. 28), os espaços públicos da cidade são abandonados, para se tornar espaços para se mover, não para permanecer (SENNET apud MADANIPOUR, 2003, p. 28). Caminhou-se assim para uma diminuição da sociabilidade e retirada para a intimidade e privacidade do lar como única forma de proteção. (MADANIPOUR, 2003).
De uma certa forma neste espaço assim degradado o carro aparece como uma solução excepcional, ao ofertar tudo que o espaço público deixou de oferecer, escala humana, conforto, segurança, sombra e proteção. Todos atributos que o espaço público deveria oferecer, mas na maioria das vezes não oferece.
Os princípios do movimento moderno refletem esta visão de espaço público. A retirada das ruas é tão forte que até o comércio vai para dentro do edifício. Há antecedentes na história de comércio em recintos relativamente fechados. É o caso cultura muçulmana onde a cidade não tem um papel importante.
A ideia de abolir a rua como forma urbana e instituição urbana é modernista. Se a rua é o espaço da diversidade do encontro, não combina com o ideário moderno que prega a divisão das funções numa lógica ‘ordenadora’. O ideário moderno propõe que várias atividades tradicionalmente realizadas no espaço público vão para áreas não públicas. Alertam para o perigo de fazer compras ao longo das calçadas e indicam espaços restritos como mais adequados. O perigo de crianças brincarem na calçada, para tal o playground.
A mescla de moradores de diversas faixas de renda, faixas etárias bem como a mescla de atividades econômicas é essencial para a diversidade urbana. Pode ser mensurada por meio das atividades econômicas, bem como padrão e idade dos imóveis.
A mescla de atividades econômicas principais e unidades residenciais gera diversidade de moradores e diversidade de usuários. “A integração implica que várias atividades e categorias de pessoas possam atuar em conjunto, lado a lado. (GEHL, 2006, p. 113) ”.
A integração de várias atividades e funções nos espaços públicos e ao seu redor permite que as pessoas envolvidas atuem juntas e que se estimulem e inspirem umas às outras. Além do mais, a mescla de várias funções e pessoas torna possível interpretar como está
composta e como atua a sociedade que nos rodeia. (GEHL, 2016, p. 113).
Gehl aponta ainda que a “[...] política urbana deve avaliar função por função quais as relações sociais e as vantagens práticas que oferecem. De forma que a separação de funções só seja aceita quando os inconvenientes do agrupamento superem claramente as vantagens”. (GEHL, 2016, p. 114).
No espaço público da rua travam-se inúmeros contatos triviais e corriqueiros entre seus frequentadores. A somatória destes contatos promove “uma rede de respeito e confiança mútuos” (JACOBS, 2014), elemento essencial para o fortalecimento da via pública e cidadania:
[...] A soma desses contatos públicos casuais no âmbito local – a maioria dos quais é fortuita, a maioria dos quais diz respeito a solicitações, a totalidade dos quais é dosada pela pessoa envolvida e não imposta a ela por ninguém – resulta na compreensão da identidade pública das pessoas, uma rede de respeito e confiança mútuos e um apoio eventual na dificuldade pessoal ou da vizinhança. A inexistência dessa confiança é um desastre para a rua. Seu cultivo não pode ser institucionalizado. E, acima de tudo, ela implica não comprometimento pessoal. (JACOBS, 2014, p. 60).
4.3.2 As relações da vida privada com o espaço público da rua em função das
sociedades e classes sociais
O equilíbrio relativo entre a liberdade de ação do espaço privado e a identidade do domínio público, é uma questão cultural que depende das necessidades e atitudes tradicionais de uma sociedade as quais mudam ao longo do tempo.
Algumas sociedades são mais extrovertidas, outras não. No Islã a reclusão da mulher e a santidade da família são motivos suficientes para selar as faixas mais baixas da fachada ou obstruir a vista do transeunte. Mesmo assim a função da rua como teatro para os que estão restritos a casa é essencial. A varanda ou a janela é um suporte de visualização, e assim a casa islâmica perfura a faixa superior por meio de uma treliça finamente detalhada, ocultando o ocupante que usa estas aberturas para olhar para fora.
Os hotéis, ou moradias, das classes superiores em Paris intencionalmente retiraram-se da rua para a parte de trás de um pátio, e assim também as mansões dos ricos, em Londres. Em 1771, um panfleto sobre Londres, provavelmente do arquiteto James Stuart, observava que “para os homens de posição e fortuna, uma
residência com um pátio interior espaçoso é imponente e cômodo, mas a fachada para a rua deve ainda apresentar uma relação com a sociedade em que você vive; uma parede morta de 20 ou 30 pés [6 -9m] de altura, só pode inspirar horror e aversão” (KOSTOF, 1999, p. 198, tradução nossa).
Em ruas com fachadas de vários andares, o status era estabelecido a partir da altura. O conceito de piano nobile, o nível acima da rua o qual garantia privacidade e um alívio das pressões da atividade da rua, foi também familiar a antiga Roma insulae, palácios renascentistas e edifícios parisienses residenciais do século XIX. (KOSTOF, 1999).
Para os chineses de todas as classes, a relação da casa com o espaço público da rua nunca foi importante. As casas são afastadas da agitação da rua por lojas e por suas próprias paredes ou muros. (KOSTOF, 1999).