4. A POLÍTICA EXTERNA DE NÉSTOR KIRCHER (2003-2007)
4.1 A RUPTURA COM O PASSADO X MODELO DE AUTONOMIA
Para entender o caráter da ruptura da política externa de Néstor com as demais, principalmente em relação à política adotada na década de noventa, com destaque para o governo Menem, faz-se necessária uma abordagem acerca da política externa aplicada por este governo.
Como outros países, a Argentina buscava adaptar-se à instabilidade do cenário internacional pós-guerra fria para reduzir o risco de ficar isolada do resto do mundo. O que marca de forma diferenciada a atuação da Argentina dos demais países sul-americanos é que, com o início do governo Menem, o país define rapidamente um projeto de atuação internacional e uma agenda de política externa bastante pragmática. Essa agenda tem como objetivo principal o desenvolvimento do país e a inserção no cenário econômico internacional.
A política adotada pelo governo Menem baseia-se na teoria do “realismo periférico” 84, assim definida pelo cientista político Carlos Escudé.
Consoante essa teoria, a Argentina adota os Estados Unidos como prioridade número um da sua agenda de política externa. O apoio político aos norte- americanos em diversas ações internacionais, em troca, garantiria à Argentina o apoio (mesmo que intencional) da principal potência do Continente ao seu plano de estabilização econômica. Isso tinha dois significados: primeiro, manteria a credibilidade econômica no âmbito doméstico. Segundo, mostraria aos investidores internacionais que a Argentina era um país confiável. Quanto a essa segunda “prova”, de tornar o país mais atrativo aos investimentos internacionais, uma outra medida é tomada pela Argentina: a prioridade de aprofundar o Mercosul, e mais precisamente, incentivar o relacionamento bilateral com o Brasil. Além disso, não era mais possível à Argentina ignorar o alto grau de interdependência econômica que mantinha com o Brasil85.
A política externa argentina passa, portanto, a considerar duas prioridades complementares: Estados Unidos, no plano político-estratégico, e Brasil, no plano econômico-comercial. Ou seja, a Argentina continua considerando os Estados Unidos como seu principal aliado no plano político internacional e, por isso, apoia diversas iniciativas norte-americanas no plano internacional sem receber benefícios imediatos em troca, mas na intenção de manter-se próxima à principal potência mundial. No plano econômico, mantém o apoio ao Brasil, como o fez nas negociações da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA).
O Brasil seria considerado, dessa forma, um parceiro confiável no que diz respeito ao âmbito econômico, isto é, um parceiro que ajudaria a Argentina no seu projeto de inserção econômica internacional, fortalecendo através do Mercosul sua posição nas negociações dos fóruns multilaterais, como a Organização Mundial de Comércio (OMC). Nesse sentido, poderíamos afirmar que a Argentina, através da definição de uma política externa realista, estaria utilizando o Brasil para reforçar sua posição internacional.
84
O „realismo periférico‟ é assim definido por Carlos Escudé (“La política exterior de Menem – sustento teórico implícito”. América Latina Internacional, 8(27), jan-mar. 1991: “essa política está fundamentada
no fato de que um país dependente, vulnerável e pouco estratégico para os interesses vitais dos Estados Unidos, como a Argentina, deve eliminar suas confrontações políticas com as grandes potências (...).
Maiores informações em: Escudé, Carlos. Pasado y presente de las relaciones argentinas con los hegemones occidentales. Buenos Aires: Centro de Estudios de Política Exterior (CEPE), 1998.
85
ONUKI, Janina. A inserção internacional da Argentina e o Brasil. Disponível em: <http://cdi.mecon.gov.ar/biblio/docelec/dp1086.pdf>. Acesso em: 15 set. 2011.
Em relação aos Estados Unidos, a Argentina adotou a posição clara de atuar ao seu lado. Embora muitas vezes os custos sejam considerados altos para o país, o apoio em geral tem um significado político importante para a manutenção da posição argentina como um aliado estratégico da maior potência mundial e para a conquista de benefícios no sentido de posicionar-se como um país atuante.
Assim, o governo de Menem decidiu enfrentar o problema de desenvolvimento argentino através de um conjunto de políticas públicas desenhadas mais em função de uma melhor inserção na nova ordem econômica mundial, que no desenvolvimento autônomo. Dessa forma, a política externa, como uma política pública, formou parte dessa estratégia, adquirindo um caráter altamente dependente. Isso significa dizer que a questão socialmente problematizada foi a crise do desenvolvimento econômico e, nessa direção, foram articuladas as políticas públicas e a política externa86.
Substancialmente, o governo seguinte (1999-2001), de Fernando de La Rúa, não modificou os lineamentos da política externa estabelecidos por Carlos Menem. Continuou-se a aproximação com o Brasil, mas a relação com os Estados Unidos continuou sendo a diretriz principal na estratégia internacional do país. De fato, a decisão de manter as relações com os Estados Unidos, dentro do marco político, foi uma das linhas de continuidade entre o governo "menemista" e o da Aliança, do presidente de La Rúa, mantendo relações estreitas com Washington e marcando fortemente o lado econômico na política externa argentina87.
A partir de 2001, em razão da crise econômica e da extrema vulnerabilidade externa, o governo de Duhalde buscou ajuda dos Estados Unidos. Essa ajuda nunca se concretizou e a Argentina passou da posição de ser o modelo a ser seguido, durante os anos noventa, a um exemplo a não imitar, dez anos depois. Apesar dos dez anos de relações “carnais” 88
, Washington manteve uma posição de frieza distante e não fez nenhum esforço para ajudar a Argentina.
86
EISSA, Sergio. Ni constante ni tan inconstante: política exterior argentina en democracia. Buenos Aires: CAEI, 2007.
87
EISSA, 2007, passim.
88
Durante o governo Menem, 1989-1999, o presidente muitas vezes se referia às relações da Argentina com os Estados Unidos como “relaciones carnales”, definição que caracteriza as relações entre os países durante a década de noventa. Maiores informações em: ARNSON, Cynthia J. Relaciones Bilaterales entre Argentina y Estados Unidos. Disponível em: <http://www.wilsoncenter.org/sites/default/files/LAP_argentina_sp.pdf>. Acesso em: 20 set. 2011.
A desvalorização que se voltou mais convergente à economia argentina e a política mais protecionista do governo permitiram um entendimento melhor com o Brasil. Não foram somente os fatores econômicos que facilitaram a aproximação entre Brasília e Buenos Aires, mas o governo de Fernando Henrique Cardoso sustentou desde o primeiro momento que o FMI não poderia ser insensível à crise argentina e que o Brasil seguia confiando politicamente em seu principal sócio do MERCOSUL. O governo dos Estados Unidos buscou travar a aproximação entre os dois países, tal como publicamente manifestaram os presidentes. Em 2002, as relações da Argentina com os Estados Unidos mostravam um distanciamento evidente. Essa situação se agravou com a rejeição do Congresso argentino ao outorgar a imunidade das tropas norte-americanas, que queriam operar no território argentino em exercícios conjuntos com as Forças Armadas89.
Após essa breve contextualização, pode-se destacar, conforme Corigliano90, que a política externa de Néstor Kirchner possui elementos de continuidade com as políticas de seus antecessores, mas também possui características distintas, pois pretende responder a desafios e oportunidades diferentes daqueles que enfrentaram os demais governos. O híbrido específico da política externa de Kirchner evidencia a justaposição de duas variantes periféricas da corrente realista e duas da idealista/liberal, como aponta o autor. A primeira é a variante ingênua do realismo geopolítico, que consiste em uma noção tradicional de autonomia, entendida como liberdade de ação de um Estado em relação aos demais atores estatais e não estatais. Segundo essa noção, um Estado é mais autônomo quanto menos depender do fluxo de crédito internacional ou dos investimentos estrangeiros, principalmente quando estes procedem do imperialismo norte-americano.
Ainda conforme Corigliano, a segunda é a variante pragmática do realismo, que parte de uma concepção de autonomia diferente da anteriormente citada, e entendida de duas possíveis formas. Uma, como bom ou mau investimento e o uso dos graus de autonomia limitados de que uma nação dispõe. Tal forma de entender a autonomia é congruente com a definida pelo enfoque do realismo periférico, de Carlos Escudé, e as medidas de desarmamento, não proliferação e atração de capitais externos adotados pelo governo Menem.
89
EISSA, 2007.
90
CORIGLIANO, Francisco. Híbridos teóricos y su impacto en la política exterior: el caso de los gobiernos de Néstor y Cristina Kirchner. Buenos Aires: Boletín ISIAE, 2008.
Trata-se de um conceito de autonomia, que tem relação com o perfil de cooperação que os governos de Kirchner adotaram com os Estados Unidos, nos dois temas mais sensíveis da agenda: terrorismo e narcotráfico. Essa autonomia tem estado presente nos movimentos do pragmático Roberto Lavagna, ministro da Economia do governo Kirchner, que buscou aliviar os focos de tensão comercial com o Brasil em um contexto de estancamento do MERCOSUL e da fragmentação regional, particularmente a partir de 2003.
Em relação às variáveis idealistas, a variante wilsoniano-periférica do
idealismo91 está vinculada ao esforço da administração em julgar as violações dos direitos humanos cometidas pelos repressores da última ditadura militar argentina e seus cúmplices nas esferas civil e religiosa, cujo esforço levou a solicitar as extradições de tais repressores ante os governos do exterior. Segundo o mesmo autor, a variante
grociano-periférica do idealismo92 levou a diplomacia kirchnerista a confiar na Organização das Nações Unidas (ONU) como um canal através do qual pode pressionar as autoridades de Teherán - Irã por sua cumplicidade nos atentados contra a embaixada de Israel em Buenos Aires, na década de noventa. Ao mesmo tempo, esse componente teórico orientou as iniciativas de Néstor Kirchner tendentes a descumprir situações de conflito regional, como o conflito entre Equador, Colômbia e Venezuela. Nesses casos, a diplomacia presidencial das autoridades da Casa Rosada teve uma característica moderadora, congruente com as versões mais pragmáticas do idealismo, baseadas no poder da norma e no soft power. Assim, esse papel condiz com o que aconselha o realismo pragmático. Uma diplomacia argentina ativamente comprometida com a solução negociada dos conflitos interestatais e humanitários da região, ou fora dela, pode contribuir na melhora da imagem externa da Argentina93.
Conclui-se, então, que tais gestos do governo não são debilitados na prática cotidiana pelo uso de ações de direção oposta, inspirados no realismo ingênuo, ou na fantasia de que o país pode se “ilhar” do mundo e ser imune às forças da globalização, como se estas últimas tivessem um lado exclusivamente negativo.
91
Maiores informações em: CALVO, Facundo. La política exterior de la Argentina hacia Estados Unidos (2003-2011). Disponível em: <http://notasdeuncronopio.wordpress.com/2011/07/07/ensayo- politica-exterior-argentina-hacia-estados-unidos-durante-los-gobiernos-de-los-kirchner/>. Acesso em: 20 set. 2011.
92
Ibidem, 2011.
93
Nesse sentido, é importante recordar que a recuperação econômica argentina, após a crise de 2001, esteve ligada não somente às medidas adotadas internamente, mas também e, especialmente, ao incremento do preço internacional dos produtos exportados pelo país, e que esse fator foi fruto das forças externas.
Néstor Kirchner, já eleito presidente da Argentina em 2003, enfatizou que o que buscava era se distanciar de:
[...] una supuesta autarquía o aislamiento, lo que significa que La Nación
debe recuperar la capacidad de decisión y de discernimiento acerca del modo en que nuestro país debe insertarse en el mundo globalizado, discriminando entre sus elementos positivos, a los que nos sumaremos, y neutralizando el impacto de sus aspectos negativos […]94
Essa decisão demonstrou o corte autonomista que foi reforçado pela escolha de aliança com o Brasil, em termos estratégicos, como já mencionado. Além disso, “la
profundización del MERCOSUR y la relación con los países asociados, Chile y Bolivia, deben ser nuestras prioridades, sobre la base de relaciones equilibradas e igualitarias entre los países”95.
Com o recém-exposto e, através de uma análise comparada, a opção regional foi uma ruptura com o discurso dos anos noventa, que sobre-estimava os Estados Unidos como eixo do relacionamento externo argentino. Na mensagem inaugural no Parlamento, o presidente Kirchner fixou as pautas gerais de sua política externa. Estas possuíam um caráter geográfico, caracterizado como prioridade regional, e outro, conceitual, sustentando na presença de postulados institucionalistas (“fortalecimento do Direito Internacional”), como fortes afirmações em relação às prioridades nacionais, chegando a dizer que sua ação estaria guiada por pensar “el
mundo argentino, desde un modelo próprio”96. O modelo próprio é baseado em um modelo de industrialização com forte tradição peronista, ou seja, “un modelo de perfil
industrialista, pero con matriz de acumulación diversificada” 97.
94
FRENTE PARA LA VICTORIA (FPV). Plataforma Electoral del Frente para la Victoria. Disponível em: <http://www.kirchnerpresidente.com.ar>. Acesso em: 25 set. 2011.
95
FPV, 2003.
96
Maiores informações em: DEMOCRACIA SUR. Néstor Kirchner: discurso de toma de posesión de la
presidencia. Disponível em:
<http://www.democraciasur.com/documentos/ArgentinaKirchnerPresidencial.htm>. Acesso em: 25 set. 2011.
97
Para maiores informações: ARGENTINA. Economía y negocios en Argentina. Disponível em: <http://www.argentina.ar/_es/economia-y-negocios/C630-economia-y-negocios-en-argentina.php>. Acesso em: 25 set. 2011.
Em 2007, o presidente Néstor assinalou, em sua mensagem no Parlamento, que sua política externa:
[...] ha mantenido firme y sostenidamente la inclaudicable defensa del interés
nacional, la protección de la soberanía nacional, la defensa de la democracia, el respeto a los derechos humanos fundamentales, una vocación genuina por el desarme y la no proliferación y la condena a la amenaza de terrorismo […]98
Por essa forma de definir a relação externa argentina com uma forte base nacionalista, como reforça Simonoff, muitos autores assinalam a inexistência de uma política em relação aos Estados Unidos, ainda que, na realidade, esta aparecesse como multilateralizada, tanto desde o ponto de vista político, como econômico99.