4. A POLÍTICA EXTERNA DE NÉSTOR KIRCHER (2003-2007)
4.5 AS QUESTÕES COMERCIAIS DA POLÍTICA EXTERNA
O governo Kirchner pode exibir, como um de seus maiores êxitos, a abertura e a diversificação do comércio exterior. Esse plano foi complementado com uma estratégia de abertura comercial que buscou incrementar substancialmente o intercâmbio comercial argentino com o resto do mundo, diversificando e desconcentrando o comércio exterior do país, gerando negociações simultâneas e permanentes em todos os fóruns de negociação que envolvam a Argentina.
Na cúpula das Nações Unidas, em 2007, o presidente destacou com respeito a sua política comercial internacional:
[...] las negociaciones multilaterales en el ámbito de la Organización
Mundial del Comercio adquiere particular significación ya que de ellas depende la liberalización de los mercados agrícolas sector en el cual nuestro país tiene claras ventajas competitivas, y la obtención de una adecuada flexibilidad para ejecutar nuestras políticas industriales[…]
Essa estratégia é uma raridade da política externa argentina, já que a luta contra os subsídios agrícolas se converteu em uma verdadeira política de Estado, além das particularidades de cada gestão.
A desvalorização do dólar, outro elemento muito presente quando se fala da época pós-crise de 2001, estimulou a recuperação econômica desde 2002, graças à existência da capacidade ociosa industrial (setor que aumentou suas exportações em 129% entre 2002 e 2007) e as vantagens comparativas em matéria agrícola, que cresceu 137% no mesmo período.
Em termos gerais, o volume das exportações argentinas cresceu quase 100% desde 2002 a 2007, passando de 25.650 bilhões de dólares a quase 50.000 bilhões no final do mandato de Néstor Kirchner. A balança comercial seguiu sendo positiva, não somente pelo fim da conversibilidade, mas também pelo aumento dos preços internacionais e dos volumes exportados, mesmo que as importações tenham registrado um aumento maior nos últimos anos.
Foi evidente o aprofundamento e a diversificação dos destinos das exportações argentinas, sendo que as principais áreas de comercialização, como o MERCOSUL, o Sudeste Asiático, NAFTA e a União Europeia, rondam entre 12 e 24%, enquanto que as importações estão menos equilibradas, com uma preeminência do MERCOSUL em quase 37% e um crescente aumento da chegada de produtos chineses.
Essa abertura e diversificação do comércio exterior foi um dos eixos sobre os quais se articulou o definido modelo de acumulação de matriz diversificada com inclusão social, que, graças à participação do Estado, o campo e a indústria, na percepção oficial, geraram um círculo virtuoso, que permitiu alcançar:
[…] el superávit comercial producto del sesgo claramente exportador del
modelo, lo que constituye uno de los pilares básicos que es el de los superávit gemelos, con un tipo de cambio competitivo que ha permitido, precisamente, reposicionar a la Argentina en el mundo […]131
Essa estratégia para o comércio exterior argentino permitiu modelar a base material de uma política externa autonomista, ainda que se notem sinais de assimetrias em relação aos produtos comercializados, que poderiam anunciar um sentido contrário. Para explicar melhor essa situação, tem-se dois exemplos: um do mercado tradicional e outro do não tradicional. No primeiro caso, a Europa Ocidental, ao longo da segunda metade do século XX, foi perdendo lugar privilegiado como destino das exportações, pelo seu papel de contrapeso perante Washington. A prova disso é quando os governos europeus, principalmente Espanha, França e Itália, se converteram nos principais investidores na Argentina e os seus cidadãos nos detentores dos títulos da dívida argentina, aspectos que os levaram a pressionar nos organismos multilaterais de crédito, para satisfazer seus interesses, aprofundando, assim, a assimetria existente.
No caso do crescimento dos mercados não tradicionais, como China e Índia, a realização de missões conjuntas do MERCOSUL132 abriu possibilidades de exportar a esses países, as quais foram continuadas pelas missões bilaterais argentinas.
131
PARLAMENTARIO. Discurso de Cristina Fernández de Kirchner - 2008. Disponível em: <http://parlamentario.com/articulo-1986.html>. Acesso em: 10 out. 2011.
132
Para o aprofundamento dessa questão, ver: ARAÚJO, Ernesto Henrique Fraga. O Mercosul: negociações extra-regionais. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 2007.
No entanto, as exportações com maior valor agregado foram prejudicadas, diante das commodities, mesmo com a diversificação do comércio exterior, levando a outra assimetria133.
Partindo a outra área, o presidente argentino manteve, tanto em suas mensagens ao Parlamento como em vários fóruns internacionais, uma voz crítica em respeito ao papel do FMI, e reclamou sua reforma estrutural. Nesse momento, os Estados Unidos interpretaram um papel essencial de moderador nas negociações com os organismos multilaterais de crédito e o posterior cancelamento da dívida, o que permitiu à administração de Kirchner a saída do default com os detentores dos títulos.
Através de seu discurso, o presidente argentino ressalta:
Hoy podemos decir que el Estado argentino ha ganado autonomía y administra soberanamente las variables de la macroeconomía en la medida que la actual etapa mundial lo permite, con una política económica sólida, ordenada e previsible en un marco institucional estable y democrático134.
Para alcançar uma situação internacional mais estável, as propostas do governo estiveram claramente diferenciadas em dois âmbitos: umas em relação aos detentores de títulos (bonos), e outras em relação aos organismos multilaterais de crédito. Na negociação com os bonistas, impulsionou-se uma proposta de pagamento, sustentada sobre a base de reduzir as taxas e ampliar prazos e vencimentos, que se concluiu no final de 2005.
A estratégia para com organismos multilaterais de crédito, fundamentalmente com o FMI, girou em torno do cancelamento da dívida, sem excluir vários momentos de tensão, nos quais a Argentina utilizou claramente um mecanismo de negociação de custos recíprocos que permitiu avanços significativos nesse tema.
134
KIRCHNER. Discurso ante Asamblea Legislativa en ocasión de Inauguración del 123° período de sesiones del Congreso de la Nación - Março de 2005.
4.6 A PRIORIDADE REGIONAL: UMA POLÍTICA EXTERNA VOLTADA À