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Recentemente, em 2015, logo após as acirradas discussões sobre o clima global, o PNUMA lançou a Agenda 2030. Trata-se de um “plano de ação para as pessoas, para o planeta e para a prosperidade”, para os próximos 15 anos, fundamentado na Declaração Universal dos Direitos Humanos, na Declaração do Milênio e nos resultados das Cúpulas Mundiais de Meio Ambiente, com objetivo de “direcionar o mundo para um caminho sustentável e resiliente”. (ONU, 2015). A Agenda 2030 conta com 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – ODS, cujos logotipos são demonstrados na figura 2 (ONU, 2015).

Figura 2 – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável - ODS Fonte Imagem: https://nacoesunidas.org/pos2015/agenda2030/

Cada ODS tem uma temática que aborda os aspectos sociais, ambientais e econômicos, e tem distribuídos nas temáticas 169 pontos chave para sua implementação. O quadro 2 demonstra os ODS e suas temáticas.

Quadro 2 – Temáticas dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável - ODS

ODS TEMATICA

1 Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares;

2 Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável;

3 Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades;

4 Assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos;

5 Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas; 6 Assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para todos;

7 Assegurar o acesso confiável, sustentável, moderno e a preço acessível à energia para todos;

8 Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todos;

9 Construir infraestruturas resilientes, promover a industrialização inclusiva e sustentável e fomentar a inovação;

10 Reduzir a desigualdade dentro dos países e entre eles;

11 Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis; 12 Assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis;

13 Tomar medidas urgentes para combater a mudança do clima e seus impactos;

14 Conservação e uso sustentável dos oceanos, dos mares e dos recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável;

15

Proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da terra e deter a perda de

biodiversidade;

16 Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis;

17 Fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável.

Fonte dos dados: ONU, 2015.

As cidades têm o poder de sintetizar, todos os elementos apresentados nos ODS, promovendo impactos positivos, por meio de transformações das construções e gestão dos espaços urbanos em prol do desenvolvimento sustentável (ONU, 2015), ou negativos, potencializando os efeitos das mudanças climáticas (Marengo, 2006).

Buscar mitigar os impactos gerados frente à ameaça das mudanças climáticas e transformar as cidades sustentáveis e resilientes, gerindo de forma significativa as construções e o ordenamento dos espaços urbanos são fatores de suma importância para o futuro das

nações (ONU, 2015). A Agenda 2030 descreve que as projeções de aumento populacional deverão ser levados em conta, implementando políticas urbanas sustentáveis, coerentes as “diferentes abordagens, visões, modelos e ferramentas disponíveis de cada país”, bem como considerado que habitamos uma casa comum, a „Mãe Terra‟, como é denominada em várias culturas, reforçando a pratica do “Agir Local, Pensando Global” (ONU, 2015).

Para esta pesquisa, o ODS relacionado é o de numero 11, que aborda o tema Cidades e Comunidades Sustentáveis, cujo objetivo é “tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis”. Dentre as metas do ODS 11 que estão vinculadas a esta pesquisa, podemos citar: (1) Estimulo a urbanização inclusiva e sustentável, por meio do planejamento e gestão participativa, integrada; (2) diminuir o impacto ambiental negativo das cidades, com especial atenção à qualidade do ar, gestão de resíduos municipais e outros; (3) Reforçar o planejamento e desenvolvimento nacional e regional através de apoio de relações econômicas, sociais e ambientais positivas entre áreas urbanas, periurbanas e rurais.

Para alinhar as ações da Agenda 2030 e analisar os efeitos da urbanização acelerada sob os aspectos socioambientais e econômicos, considerando as prospecções futuras de uma população urbana emergente que passará dos atuais 54% para 66% em 2050 (IPEA, 2016), a UN-Habitat promoveu em 2016, na cidade de Quito, a Habitat III, 3º Conferência das Nações Unidas sobre Moradia e Desenvolvimento Urbano Sustentável sob as temáticas: (1) direito à cidade, (2) moradia para todos, (3) diversidade e inclusão cultural, (4) governança e urbanização sustentável.

Da Habitat III foi compilada a Nova Agenda Urbana, fruto de discussões que vem ocorrendo bienalmente desde 2002 nos Fóruns Urbanos Mundiais vinculados a UN-Habitat, e dos debates ocorridos na Rio+20 (PCS, 2014); e que aprimoradas as pautas na Habitat III resultaram na Nova Agenda urbana.

O objetivo da Nova Agenda Urbana é servir como um Plano de Ação Urbana, utilizado em conjunto com a Agenda 2030 (ONU, 2016), de forma a estabelecer diretrizes para um modelo sustentável de cidade, que funcione para os “negócios, ambiente e pessoas”, a ser cumprido nas próximas duas décadas (WRI, 2017). Com ações-base integradas e divididas em 5 grupos de discussão, atendem ao desenvolvimento urbano sustentável conforme demonstrado no quadro 3 (Moreno, 2016).

Quadro 3 – Grupos de Discussão, Temas e Abordagens da Nova Agenda Urbana

GRUPO TEMA ABORDAGENS DAS AÇÕES-BASE

Grupo 1 Política Urbana Nacional Especificações sobre planos e políticas urbanas que atendam as esferas socioculturais, econômicas e ambientais, baseado em demografia, regionalidade, descentralização e governança em todos os níveis.

Grupo 2 Legislação Urbana: regras e regulamentos

Transformar a cidade em um local inclusivo, equitativo, saudável, seguro e com infraestrutura de qualidade.

Grupo 3 Planejamento e Projeto Urbano

Estabelecimento de planos com fomento a qualidade de vida social, estimulo econômico e de preservação ambiental, alinhados a funcionalidade e morfologia urbana como ordenamento do solo, espaços públicos (inclui-se aqui as áreas verdes), mobilidade, logística, abastecimento hídrico, saneamento e gestão de resíduos. Grupo 4 Economia Urbana e

Finanças Municipais

Investimentos que promovam a requalificação do uso do solo e a reconstrução de áreas da cidade, estimulando a geração de emprego e consequentes receitas.

Grupo 5 Extensões / Renovações Urbanas Planejadas

Elaboração de projetos de requalificação dos espaços e de uso misto, baseados nos aspectos culturais, a imageabilidade e pertencimento local.

Fonte: Elaborado pela autora

Segundo World Resources Institute - WRI (2017), o aspecto mais positivo da HABITAT III foi o consenso global sobre o desenvolvimento sustentável urbano, em equilíbrio com a Agenda 2030 e o Acordo de Paris, mas o grande desafio será o implemento da Nova Agenda Urbana em nível regional, sobretudo no Brasil, pois nossos modelos de cidades ainda são voltados ao automóvel e é imperativo que sejam criadas cidades para pessoas. A figura 3 é uma proposta de estratégia de trabalho apresentada pela WRI, e demonstra a relação entre as três frentes de planejamento urbano, rumo ao urbanismo sustentável, sobretudo em relação ao engajamento de redução de emissões de GEE.

Figura 3 – Integração das Frentes de Planejamento Urbano Fonte Imagem: Modificado de wricidades.org/

Com base na figura 3, podemos verificar que o Planejamento do Uso do Solo e do Desenvolvimento Econômico, o Planejamento da Ação Climática e o Planejamento de Mobilidade devem ser incorporados num Planejamento Estratégico Integrado – ISP.

Neste contexto entra o conceito das cidades compactas defendida por arquitetos como Jan Gehl e Richard Rogers. Bonfiglioli (2011) descreve que as cidades compactas promovem a redução de GEE, por ser ter seu planejamento urbano integrado a diversos fatores, como demonstrado na figura 3, reduzindo especialmente o deslocamento casa – trabalho. O autor descreve que seis pontos que podem contribuir para um bom planejamento urbano, sendo: (1) Espaços Multifuncionais e Criativos integrados a critérios de paisagismo locais; (2) Oferta de Comércio, Serviços e Instituições como hospitais e escolas, próximos a moradias, contrapondo o zoneamento setoria; (3) Habitar o centro, especialmente de forma socialmente equitativa; (4) Oferta de empregos próximos as moradias evitando o deslocamento; (5) Instalação de corredores verdes, promovendo melhoria na qualidade de vida; (6) Incentivar o transporte alternativo, como uso de bicicletas.

Segundo o último Relatório “Perspectivas da Urbanização Mundial: Revisão 2014”, produzido pela Divisão de População das Nações Unidas, espera-se que em 2030 haja 41 megacidades com um contingente de 10 milhões de habitantes e que em 2050 a população urbana ultrapasse os 6 bilhões (DESA, 2015). São Paulo figura entre a 4ª colocação, com cerca de 21 milhões de habitantes. O relatório indica que se bem geridas, as cidades poderão oferecer oportunidades socioeconômica e promover qualidade de vida. Para tanto, é imperativo que sejam estabelecidas politicas publicas urbanas voltados a Sustentabilidade com aplicação efetiva (DESA, 2015).

Todas as inquietações aqui expostas demonstram que são crescentes as discussões pertinentes às características do ambiente construído e sua influência na qualidade de vida das populações (Del Rio e Siembieda, 2015), e refletem a realidade atual da sociedade onde todas as frentes de ação devem buscar cumprir a máxima do “Agir Local e Pensar Global” fomentada na ECO 92, pautados na ética, solidariedade e educação.

É verificado que o atendimento e o implemento da sustentabilidade, agora orientada para a morfologia urbana, devem ser relacionados a procedimentos e técnicas, alinhadas a Politicas Urbanas, de forma a aprimorar a pesquisa, os projetos, o planejamento e gestão das cidades (Breuste & Qureshi, 2011), num contexto multidisciplinar profundo e dialético (Gehl, 2015), tendo por base que a cidade é temporalmente mutável e modelada por diversos sistemas de organização e apropriação do território, práticas políticas, vivências socioculturais, fluxos demográficos, percepções e ações cotidianas (Del Rio, 1990).