4.4 AS DUAS GESTÕES DE VILMA DE FARIA E AS REVISÕES DO PLANO
4.4.1 A saída de Aldo e a volta de Vilma, “A Guerreira”
O ano é 1996, exatamente dois anos após a promulgação do novo Plano Diretor da cidade. A gestão de Aldo está próxima de chegar ao fim. A partir desse momento inicia-se um novo ciclo eleitoral, objetivando o Executivo e o Legislativo Municipal.
69 O objetivo desta parte da pesquisa não é focar ou detalhar o perfil político de Vilma de Faria, mas sim explanar alguns elementos fundamentais de sua gestão que impactaram na gestão e no planejamento urbano de Natal.
Alianças são feitas, convenções partidárias discutem nomes para os cargos. A cidade volta a discutir políticas públicas e seus pragmatismos com ênfase. Abre-se uma nova janela de oportunidades, junto aos novos candidatos.
Com efeito, na corrida eleitoral em Natal deu-se uma campanha disputadíssima para o Executivo, onde três candidatos se destacavam: João Faustino70 (PSDB), Vilma de Faria (PSB) e Fátima Bezerra (PT).
De antemão, Tinoco apoiou o candidato João Faustino (PSDB)71. No entanto,
ao final de sua gestão, Aldo estava em declínio. Ele sofria críticas pesadas da mídia natalense72 e da opinião pública, principalmente por conta de problemas pontuais e
cruciais de administração do orçamento municipal e de recursos humanos. Além disso, sua dificuldade de manter uma governabilidade constante e a fragilidade em seus arranjos políticos prejudicaram todas as suas chances de constituir um legado político e de planejamento. Observando uma janela de oportunidades políticas com momento adverso do prefeito, Vilma de Faria e Fátima Bezerra apresentaram-se, em 1996, como candidatas da mudança, aclamando-se como oponentes da gestão de Aldo Tinoco e, consequentemente, da candidatura de seu apadrinhado político. (CAPISTRANO, 2007, p. 64).
Fátima Bezerra73, que nunca tinha exercido nenhum cargo Executivo, adotou
um discurso de ruptura com os grupos políticos que já estavam no poder. Ela seria a voz do povo, seria a verdadeira mudança. Fátima se colocava como a única candidata da mudança, se antecipando ao discurso de outros candidatos que poderiam se utilizar do mesmo discurso.
Vilma, embora tenha apoiado Aldo no pleito anterior, montou um discurso onde se colocava como uma candidata redimida que iria “governar Natal outra vez”
70 Foi Deputado Federal e Senador (Suplente de Garibaldi Filho) pelo RN. Faleceu em 2014. 71
São poucas as informações sobre o jogo político das eleições de 1996. É necessária uma pesquisa específica acerca dos motivos da preferência política de Aldo Tinoco para que seu substituto fosse um candidato do PSDB e não do PT ou PSB.
72 Na avaliação do jornalista Joaquim Pinheiro, "Aldo Tinoco não foi um bom prefeito, rompeu com indicadora dele [Vilma de Faria], e não era político na essência, era um técnico, e prefeito precisa aliar política e técnica pra desenvolver um bom trabalho". (GAZETA DO OESTE, 24 de out de 2015. p. 3). Disponível em: <https://issuu.com/zenitech_info/docs/24-10-2015>. Acesso em: 08 dez 2017. Já em entrevista ao autor, em 2017, e ao portal No Minuto, em 2011, Tinoco se defendeu ao afirmar que sua gestão foi a melhor que Natal já teve e que sua administração foi jogada contra a população potiguar por forças oligárquicas que não concordaram com seu estilo de gerir a cidade.
74 da melhor forma possível, com os mesmos pressupostos de sua administração
anterior (1989-1992) – deduzindo que fez uma ótima gestão75 – para tornar a cidade
um lugar melhor do que na administração do então atual prefeito. Vilma se colocava como a mudança com a competência e a experiência que a diferenciava em relação ao gestor anterior e a qualquer candidato (CAPISTRANO, 2007, p. 64).
Com efeito, devido à sua imagem enfraquecida, Aldo selou o fim de sua carreira política ao não conseguir fortalecer Faustino (PSDB) e levá-lo ao segundo turno. Desta forma, Bezerra e Faria disputariam a vaga no Executivo municipal de Natal.
No enfrentamento direto entre as duas mulheres – algo inédito em Natal – Vilma utilizou-se bastante do discurso exaltando a condição feminina, talvez pelo fato de Fátima “não ser vaidosa” (FOLHA DE SÃO PAULO, 1996). Logo, Vilma se definia como mulher nordestina de fibra, detalhando que para ser prefeita precisava “ser guerreira [...], ser uma mulher que não se intimida, que vence obstáculos. Mas também uma mulher com sensualidade, pureza e idealismo” (FOLHA DE SÃO PAULO, 1996). A partir dessa estratégia política nasce a narrativa de que Vilma era uma mulher guerreira, “com uma história de coerência e lutas nos mandatos que exerceu” (ALMEIDA, 2006, p. 146).
Nas urnas, como demonstra a tabela 4, Faria, com o apoio do PFL de José Agripino Maia, venceu Bezerra e tornou-se a primeira mulher a ser prefeita de Natal por duas vezes.
Tabela 4 – Resultado da Eleição para prefeito de Natal - 2° turno
Partidos Candidatos Votos
PSB Vilma de Faria 136.396 mil
PT Fátima Bezerra 127.531 mil
Fonte: TSE, 1996.
74 Fonte: STYCER, Maurício. Vilma Maia agora é Faria. Folha de São Paulo, São Paulo, quarta-feira,
2 de outubro 1996. Disponível em:
<http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1996/10/02/caderno_especial/27.html>. Acesso em: 09 dez 2017. 75 Almeida (2006, p. 146) destaca que Vilma, em sua gestão, obteve 92% de aceitação popular (O POTI, 1996). Para a autora, isso “demonstra uma avaliação positiva da população em relação à sua capacidade de administrar a coisa pública”.
Por fim, em 1° de Janeiro de 1997, Vilma de Faria assume o Executivo municipal. O início de sua segunda gestão em Natal, diferentemente de Tinoco, abraça o puro pragmatismo e busca manter relações cordiais com suas bases. Ela, logo de início, nomeia 23 cargos comissionados, onde cinco eram familiares da governante. O PSB, seu partido, ocupou várias secretarias e os demais partidos que a apoiaram também foram contemplados com cargos, embora em um número menor (ALMEIDA, 2006, p. 147). Portanto, a partir de sua experiência administrativa e política, adquirida em sua gestão anterior e em sua carreira política, a prefeita optou em trabalhar com uma equipe dividida entre gestores técnicos e gestores indicados por seus aliados políticos. Esperta e atenta às movimentações, ela buscava duas coisas: ter governabilidade e conseguir pleitear o seu projeto de governo, gestão e administração sem enfrentar divergências, pressões e os graves problemas que o seu antecessor sofreu.
4.4.2 Reforma Administrativa no governo Vilma (1997-2001): A transformação do