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5 A CULTURA ORGANIZACIONAL DO COMPLEXO HOSPITALAR DA UFC

5.1 O processo de adesão do Complexo Hospitalar da UFC à ESBERH

5.1.1 A implantação da EBSERH no Complexo Hospitalar da UFC

5.1.1.4 A SAMEAC

Os entrevistados E1, E3 e E12 salientam que a SAMEAC foi um grande problema na época da implantação da EBSERH no complexo. “Havia cerca de 700 empregados da SAMEAC nos dois hospitais naquele momento. Era um grande problema para o hospital, não para nós, era pra Reitoria, para o MEC” (E12). “Um fator que foi negativo, e que atrapalhou, atrasou essa evolução foi a existência da SAMEAC, que estava aqui há meio século, que era a rigor uma empresa privada que não precisava fazer processos licitatórios”, afirma o entrevistado E1, que ainda aponta o fator cultural que atrapalharia o início da EBSERH: “uma empresa privada tem seus meios de operar, de funcionar, para aquisição de bens, de insumos, contratação de pessoal. E a empresa pública tem uma política diferente” (E1).

A questão cultural também foi apontada como fator negativo pelo entrevistado E11: A SAMEAC se considerava, até pelas diferenças salariais, quase funcionários de segunda classe, eles estavam ali mas não tinham muito compromisso. O que aconteceu também é que essas pessoas entravam, não tinham concurso, iam ficando

por ali e se tornavam verdadeiros funcionários públicos depois de um certo tempo porque não podia botar pra fora, não tinham quem substituísse, então aconteceu muito disso aí. A gente tinha sérios problemas de falta de comprometimento – não com todos, tinham pessoas maravilhosas, mas a gente sofria (E11)

O problema, para alguns entrevistados, estava no fato de que, para os concursados da EBSERH entrarem, os empregados da SAMEAC teriam de sair: “quando as pessoas da EBSERH chegaram aqui, elas vieram para ocupar um lugar, de um servidor aposentado ou terceirizado que foi demitido” (E18). “Existia o medo da demissão dos funcionários da SAMEAC, que de fato ocorreu, e a entrada dos funcionários da EBSERH na medida que eram contratados profissionais de todas as áreas, porque a SAMEAC era considerada ilegal por ser uma sociedade anônima” (E14).

O contrato com a SAMEAC não acabaria quando a universidade assinou com a EBSERH. Como é que ia tirar de uma vez 700 pessoas daqui de dentro da SAMEAC? Ia fechar os hospitais. A EBSERH só fez o concurso em maio de 2014, começou a chamar em agosto de 2014 e contratar a partir de 1º de setembro de 2014. A SAMEAC fazia tudo aqui dentro, ela tinha pouca gente na assistência, mas a administração era inteira dela, o contrato com ela iria até fevereiro de 2016. (E1) A saída da SAMEAC não teria apenas impactos administrativos e operacionais. Havia vínculos emocionais:

No começo foi bem complicado porque a SAMEAC saiu e estava aqui presente há muitos anos (...) Então eu pude observar que uma parte das pessoas se sentia profundamente incomodada por aquele vínculo ser rompido mas ao mesmo tempo, apesar de haver algo mais emocional do que de razão, as pessoas verbalizavam que entediam que os profissionais que estavam na SAMEAC não haviam feito o concurso e que o justo era que de fato essas vagas fossem ocupadas por concursados. Porém tinha o lado emocional muito forte. Você via o colega de 20, 25 anos de trabalho com você ser retirado da possibilidade de trabalhar com você, se ele não tinha falta, se ele tinha compromisso, entendia a instituição e cumpria as obrigações” (E17)

O processo de desligamento da SAMEAC se estendeu até meados de 2016, data em que o contrato da instituição com a UFC se encerrou. Todos os empregados foram indenizados. O entrevistado E5 faz um relato sobre o desfecho das demissões:

Todas as pessoas foram indenizadas. Disso aí vou dizer uma coisa, a universidade foi honesta, extremamente honesta. Toda vez que as pessoas diziam que não ia ter dinheiro, eu dizia que a universidade vai pagar. Eu nunca duvidei da universidade. Uma vez tivemos uma reunião na procuradoria do trabalho, em que o Pró-Reitor que substituiu o Prof. Henry disse que o dinheiro viria, as pessoas duvidaram. Eu disse que o Pró-reitor não iria mentir para o procurador do trabalho do ministério público, ele não é doido. Em nenhum momento, nem sonhando eu cogitei a universidade não pagar. O pagamento foi rápido. O dinheiro chegou em dezembro, o contrato acabou em fevereiro, foram aproximadamente dois meses. As audiências que aconteceram depois disso foi a questão da reintegração ou então pessoas que ficaram. Com relação a pagamento, pagou a estabilidade de sindicato, estabilidade de cipeiro, estabilidade de pessoas de federação, estabilidade de gestante, a universidade depositou todo o dinheiro, quem tinha 300 mil pra receber, recebeu seus 300 mil(E5)

O entrevistado E20 considerou que o quadro de pessoal da SAMEAC poderia ter sido absorvido de alguma forma. Esse entendimento foi levado a sério por vários trabalhadores da SAMEAC, “tanto que o processo da SAMEAC ainda tá rolando na justiça, tem gente lutando e não tiro o direito deles de lutar” (E3). “Ainda tem umas 100 pessoas da SAMEAC que não pediram demissão, não saíram, continuam resistindo amparados por uma greve, isso tá na justiça ainda. Essas pessoas não nos olham com bons olhos” (E12).

Nem todos os empregados da SAMEAC perderam seus empregos. Muitos tentaram o concurso. Um entrevistado que era da SAMEAC e teve aprovação no concurso afirma que “todo mundo da SAMEAC queria passar na EBSERH. Eu fiz parte da SAMEAC e realmente foi muito difícil a saída dela do complexo, seria bom que todos da SAMEAC tivessem passado no concurso” (E18). Outro gestor na mesma situação relata:

Com a chegada da EBSERH, todo mundo concursado, acabou aquela história de dizer que era um monte de gente que não trabalhava e recebia salário. Infelizmente era a impressão que se tinha, as pessoas não sabiam que a gente tava aqui trabalhando todo dia. Com a EBSERH todo mundo concursado, aqui legalmente contratado, e isso foi muito bom. Na minha visão do todo, tô aqui há muito tempo, acabei gostando muito, tô aqui há vinte anos, pra mim foi uma coisa muito positiva. Chegou ao ponto de uma médica, durante o exame admissional de um colega que passou perguntar a ele ‘como é que foi isso, como é que vocês passaram lá e ninguém passou em outras unidades’? A gente estudou, né? Fez grupo de estudo, fez curso, tentou e graças a Deus deu certo. Infelizmente para os outros não deu. (E12). O entrevistado E12 ainda relata que “muita gente que saiu da SAMEAC voltou em outra empresa, terceirizado, estão aqui novamente” em empresas que prestam serviços terceirizados aos hospitais. “As pessoas vão lá, levam currículo, eles veem que a pessoa trabalhou aqui e conhece a ferramenta – ao invés de treinar a pessoa nova, pega a que já conhece, já trabalhou, tem boas referências e acabou que muita gente da SAMEAC continua trabalhando aqui de forma terceirizada” (E12).