5 A CULTURA ORGANIZACIONAL DO COMPLEXO HOSPITALAR DA UFC
5.1 O processo de adesão do Complexo Hospitalar da UFC à ESBERH
5.1.2 A adaptação cultural dos servidores da UFC e empregados da EBSERH
5.1.2.6 O papel da Reitoria e o sentimento de abandono
Durante as entrevistas, foi indagado especificamente aos entrevistados qual o papel da Reitoria no que tange à adaptação de seus servidores do Complexo Hospitalar à nova administração trazida pela EBSERH. Muitas respostas apresentaram esse papel associado à ideia de abandono dos servidores. Optou-se, então, tratar as duas unidades de registro juntas.
Alguns relatos, de subseções anteriores, consideraram o papel da Reitoria correto (E8, E17), outros sentiram certa omissão, enquanto alguns entrevistados teceram algumas considerações à Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas – PROGEP. O entrevistado E13 sintetiza:
A gente aqui dentro tem uma perna na PROGEP, mas não existia uma interação maior entre PROGEP e Reitoria em si com os hospitais universitários. Com o professor Henry isso até melhorou, ele é médico, mas eu não considero que houve empecilho nem da reitoria nem da PROGEP à entrada nos novos colaboradores. Nós já estávamos cedidos à empresa, a mudança da cultura institucional em ter um superintendente e não mais dois diretores... a cultura de ter os dois hospitais juntos já começou a existir com o reitor e quando a gente passou para a gerência da EBSERH, todos os pactos já tinham sido feitos (E13).
Em meio aos elogios à decisão do Reitor, foram citadas críticas, como falta de clareza do novo papel dos servidores:
Acho que não ficou muito claro o papel dos servidores aqui dentro. A reitoria não fez nenhuma questão ou movimento para deixar isso alinhado na cabeça deles, e aí os mais antigos não se sentem mais à vontade, acham que realmente é aquilo, que vai ser privatizado, há uma série de coisas que confundem. Não tá claro, falta clareza, ‘o que é o papel do RJU’ aqui dentro? (E21)
Para alguns entrevistados, o papel da Reitoria é passível de críticas. “Cada vez mais distantes. Do complexo hospitalar, a Reitoria e a PROGEP foram muito distantes. E hoje em dia ainda é”, afirma o entrevistado E20. “O papel da UFC e da PROGEP foi horrível”, lamenta o entrevistado E7. “Vou ser muito sincero. Vejo omissão total. Só vi a reitoria no começo da EBSERH”, relata o entrevistado E12. “Vejo um pouco de ausência desses órgãos. É mais a busca dos servidores em relação a respostas do que eles estarem interessados em como estamos” (E16). “Não culpabilizo a PROGEP, acho até que entre mortos e feridos todos se salvaram. Se era confuso pra gente, imagine pra eles também administrar esse sentimento de insatisfação, acho que eles se saíram até bem” (E17).
Houve muitas dúvidas quanto a quem se responsabilizaria pelos processos dos servidores na área de Gestão de Pessoas. Seria a Divisão de Gestão de Pessoas dos hospitais, que era chefiada por uma servidora ou seria a PROGEP? Esse tipo de dúvida passou a impressão, segundo os entrevistados, de que os servidores foram abandonados pela Reitoria.
“A reitoria foi tão facilitadora que entregou mesmo. Todo mundo que a gente chega pra reclamar, ‘você vai resolver com a EBSERH’. As Pró-reitorias, principalmente, cortaram totalmente o vínculo. Nem pra receber uma doação da UFC a gente consegue, pois é como se a gente fosse outro órgão”, lamenta o entrevistado E4.
“Hoje eu vejo os servidores se integrando, mas ainda não totalmente. Hoje são a minoria. Acho que há uma dificuldade muito grande, às vezes eles meio que ficam sem saber que vínculo tem. Eu sou da universidade, às vezes tenho dificuldade de saber onde estou” (E17). “Eu achei, ainda acho, os funcionários RJU ficaram muito à margem”, afirma o entrevistado E10, que pontua:
Eu sou EBSERH porque estou cedida, mas de fato eu sou RJU. E todas as medidas tomadas aqui o foco é EBSERH, como a reitoria tá mais longe, a EBSERH tá aqui dentro, o servidor de certa forma se sente mais segregado, não no dia a dia nem pela chefia imediata, mas existe um distanciamento da PROGEP em relação aos funcionários do hospital. Como a EBSERH tá mais próxima, o pessoal da EBSERH se sente mais acolhido (E10).
A PROGEP continuou sendo citada pelos entrevistados: “O RJU tá meio que, não vou dizer abandonado, mas eu acho que tá meio assim, eles estão se sentido meio que jogados
de um lado para o outro, sem pai nem mãe, porque quando buscam ajuda lá, são jogados pra cá.”, conclui o entrevistado E21.
O sentimento de abandono não partiu apenas da PROGEP: “eu acho que houve uma certa divulgação na universidade, no todo da universidade, de que todos os servidores, como era o plano, seriam cedidos, não teria mais elo com a universidade, a EBSERH ia tomar conta do todo”, conjectura o entrevistado E4, que continua: “a legislação não permitiu a cessão dos servidores, mas muitos ainda não entenderam isso na universidade”. O entrevistado continua, relatando que “aconteceu da gente fazer um pedido no Pici e eles disseram que não podiam fazer concessão à EBSERH, esquecendo que o complexo é da universidade, que é um contrato com a EBSERH. Poucas pessoas lá na universidade entendem essa situação” (E4). O entrevistado E1 citou relato semelhante na unidade de registro O Sindicato.
A representante do Sindicato é taxativa: “a sensação que a gente tem no HUWC não é nem de filho bastardo, é de filho abandonado mesmo” (E19). O Sindicato assumiu o compromisso junto aos servidores de resolver esta situação: “aí foi que a gente, o sindicato, começou a ir pra cima pra tentar reverter isso porque estávamos completamente abandonados” (E19).
“Hoje, depois de tanta peleja, o sindicato também se envolveu nisso quando percebeu que muitos da universidade não estavam entendendo que os servidores não estavam cedidos, também se envolveu pra dar essas explicações por lá, porque houve uma melhorazinha no entendimento”, afirma o entrevistado E4, corroborado pelo relato da representante sindical:
O Pró-reitor de Gestão de Pessoas da época botou na cabeça dele que nós éramos cedidos para a EBSERH, mas nós não éramos, não pode ter cessão automática, a cessão era só para cargo de chefia, Nós não podemos, nós teríamos que ser cedidos voluntariamente. Aí o que ele fez? Ele implantou uma cultura de que não tínhamos nada a ver com a reitoria, nos abandonou lá e trouxe isso para o reitor e a reitoria absorveu isso junto com a PROGEP” (E19).
As representantes do Sindicato afirmaram que a partir de 2017, com a mudança do Pró-Reitor de Gestão de Pessoas, houve uma aproximação e diálogo maior com os servidores do RJU do hospital. “Eles começaram a perceber que ainda tinha trabalhadores da UFC dentro do hospital por conta da pressão política que o SINTUFCE fez e a pressão jurídica também. Mas mesmo assim, ainda é ruim, a gente ainda tá com muita dificuldade no hospital na questão da gestão, quem nos representa?”, afirma a representante do Sindicato, que finaliza: “nós tivemos essa dificuldade grande, nos sentimos ainda abandonados, só não está pior porque o SINTUFCE tem tido essa posição de ir mesmo para o enfrentamento e trazer a responsabilidade da universidade para com a gente e que haja essa diferenciação” (E19).