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5 A CULTURA ORGANIZACIONAL DO COMPLEXO HOSPITALAR DA UFC

5.1 O processo de adesão do Complexo Hospitalar da UFC à ESBERH

5.1.1 A implantação da EBSERH no Complexo Hospitalar da UFC

5.1.1.1 Falta de perspectivas

Até o início desta década, os hospitais universitários federais sofriam com financiamento irregular por parte do governo, sucateamento e falta de perspectivas: “os hospitais universitários são considerados, de há muito, há décadas, um saco sem fundo, onde se joga dinheiro em cima e o dinheiro desaparece aqui embaixo”. O subfinanciamento do SUS obrigou as universidades a criarem fundações para administrar os hospitais: “aqui foi uma fundação privada, a SAMEAC, que nasceu com a criação da MEAC, antigamente chamada de maternidade popular – e nunca mais saiu lá de dentro” (E1). O entrevistado E19 discorre sobre a falta de recursos sofrida pelos hospitais:

Nós éramos hospital de ensino, pesquisa e extensão através da assistência. O que aconteceu? O MEC não mandou mais dinheiro para o ensino, o dinheiro que entrava no hospital era do SUS, que era pra custeio. E a verba que era pra vir para o ensino, dentro do hospital, vinha para a universidade e não vinha para o hospital universitário – isso numa política intencional para que o HUWC se mostrasse um elefante branco como sempre os reitores passaram essa ideia, que não tinha dinheiro – porque realmente não tinha – mas mesmo assim, o HUWC com todas as carências chegou ao topo onde chegou numa conjuntura muito adversa (E19).

O entrevistado E1 aponta que “a condição de funcionamento que os hospitais universitários foram largados por anos a fio deixou a infraestrutura deles arrasada”. Uma das consequências dos poucos recursos resultava em condições precárias para uma boa assistência aos pacientes, conforme entrevistado relatou:

Quando assumi aqui, tinha gente que não tinha onde sentar, não tinha cadeira para os funcionários sentarem, lá nas áreas de espera dos pacientes tinha longarina quebrada, pacientes sendo acidentados porque sentavam em cadeiras que quebraram. (E1)

Até 2013 a gente tinha um déficit muito grande de pessoal, era muito sobrecarregado e não havia perspectiva de mudança disso, de concurso, existia um negativismo muito grande entre os que faziam. A gente vinha muitas vezes aqui pra trabalhar e não conseguia porque não tinha material – eu sou anestesista e o centro cirúrgico, muitas vezes, eu chegava aqui e a cirurgia era suspensa. (E7).

As condições difíceis também se refletiam no ambiente de trabalho. “Por que não fizeram no passado, por que não quiseram? Porque não tinha como fazer.” (E1). O entrevistado E2 confirma: “não é falta de comprometimento de quem estava antes, realmente não tinha condições, não recebia as atenções que precisava”.

O entrevistado E10 aponta que “a gente trabalhava muito no ‘apagar de incêndio’, em que cada unidade se preocupava com sua ilha e a gente deixava de ter a visão do todo”. Atividades como mensuração de indicadores não pareciam prioridade: “eu não posso falar especificamente porque eu diria que essa época da SAMEAC... em resposta, não tinha” (E13), “não tinham critério que a gente tem hoje em termos de indicadores” (E14), “Eu acho que nem existiam formas de mensuração ou de ter essa maturidade” (E16). “E a gente não tinha perspectiva nenhuma”, assevera o entrevistado E7. Os relatos a seguir corroboram a situação:

Não é que não fizesse com segurança, mas era mais intuitivo que técnico (...) no passado a gente trabalhava mais proativamente que preventivamente. É como se antes trabalhássemos com o “quê”, não com o “como” (E17)

Era um trabalho que se fazia porque gostava, mas sem muita burocracia, sem necessidade de atas nas reuniões, como a gente hoje tem todo um cuidado de catalogar, de gerar evidências, tem uma visão diferente, os objetivos são alcançados de forma mais clara e mais estruturada. (E16)

Os aspectos empíricos explicam posturas que não são mais aceitas hoje pelos órgãos de controle: “a SAMEAC, como ente privado, comprava no mercado e aplicava para o hospital com o recurso que era destinado por conta do contrato” (E2). O entrevistado E3 confirma a informação: “Com relação a abastecimento, a gente não precisava fazer licitação, nem pregão, nem nada. A SAMEAC comprava como qualquer empresa privada. Ia fazer pesquisa de mercado, naturalmente, pra ver melhor preço, melhor produto e fazer essa compra como entidade privada mesmo”. O entrevistado E2 prossegue enumerando um rol de procedimentos para ilustrar:

Aqui existia um setor de compras que ao mesmo tempo que fazia o processo interno de cotação e referenciação de preços, fazia também a licitação – tinham o contato interno e externo, que hoje não pode existir (...) Outra preocupação que não se tinha era que a SAMEAC, por não ser um ente público, não precisava se preocupar com determinados trâmites. Aquilo que se conseguia dentro desse universo de dez mil itens – a gente tem bem mais – aplicar os trâmites públicos de licitar, de cumprir os ritos, cumprir prazos, referenciar preços de acordo com o que a norma diz, que é chato, é burocrático, não havia estrutura para comprar os itens usando os ritos.” (E2) Tudo isto se mostra muito problemático: “isso caracterizava, de acordo com os órgãos de controle – não sou eu que estou dizendo – que isso era uma maneira de burlar os

processos licitatórios e as compras públicas. Um dos motivos que o TCU criticou esse modelo de contratação.” (E2). As consequências disso não tardaram a aparecer, quando a nova administração assumiu:

Quando as pessoas da EBSERH começaram a assumir as chefias, encontraram essa dificuldade. “Onde tá o processo desenhado para eu comprar os itens que o hospital precisa”? A gente começou a procurar, abrir as gavetas, não existia. E a informação mais importante: “O que comprar”? Não se tinha essa informação. Existiam aqueles itens mais populares e mais óbvios, como seringa, luvas, algodão, esparadrapo, antibiótico, mas e aqueles mais específicos? (E2)

A falta de uma ação centralizada, unificada e planejada, na forma de um planejamento estratégico, foi citada por dois gestores, um de cada hospital. O entrevistado E13, gestor da MEAC, afirma que “nunca tinha visto aqui na maternidade, nem mesmo no período em que eu já era diretor, o planejamento estratégico”. O entrevistado E7, gestor do HUWC, vai ao encontro desta ausência: “vamos dizer que antes a gente não tinha, ou se tinha – estaria sendo injusta com as gestões anteriores – existia um planejamento estratégico, mas digamos que ele não era tão publicizado assim e não buscava tanto envolvimento das pessoas”.

Outro ponto abordado pelos entrevistados foi a existência das “chefias informais”. Os setores precisavam funcionar e, “de chefias formais, apenas a alta gestão. Todos os outros eram informais” (E7) mas nem todas eram remuneradas: “as informais eram em grande quantidade, pelo número de enfermarias. Porque aí tem chefias médicas, de enfermagem e assim ia. Ficava entre ônus e bônus, muitas tinham só dor de cabeça.” (E4). O entrevistado E7 acrescenta: “tirava parte da minha carga horária, tinha que organizar tudo, compras, tudo dentro do serviço sem que eu tivesse nenhum tipo de gratificação e eu fazia no meu horário livre”.

A chefia informal nem sempre significava solução de problemas: “antes as pessoas estavam na chefia por indicação, por amizade, não tinha cobrança nem a pessoa se envolvia” (E10). Há um depoimento que apresenta a precariedade da situação:

Sempre existiram as chefias informais, mas não existia a formal, não tinha nomeação de chefe. Hoje é nomeado. Antes havia a designação: “você vai ser o chefe, você vai responder por isso”. Eu nenhum lugar estava escrito. Não existia uma nomeação formal, existia a designação informal. Então você era chefe disso, chefe daquilo porque foi convidado, mas não se encontra em nenhum lugar escrito, a não ser as diretorias, nem sei se as diretorias tinham realmente algo escrito mesmo. Ia designando pessoas que davam resultado melhor no setor. E a pessoa se autocolocava no seu carimbo que era chefe. Carimbo eu mando fazer em qualquer lugar. (E6)

A escassez de pessoal também era uma das dificuldades enfrentadas pelos hospitais: Todo mundo, a instância superior da universidade, do hospital e acredito que até o ministério da educação sabe que os hospitais precisavam de concurso. Vários anos

sem concurso, servidores se aposentando e falecendo e quem mantinha e substituía esse pessoal era a SAMEAC, mas a SAMEAC tinha um limite, até financeiro. (E3). “Como a SAMEAC não tinha muitos médicos, pois pagava mal, ninguém queria vir trabalhar pra ela”, relembra o entrevistado E1. Uma das soluções, principalmente para o caso da área médica, estava na contratação de cooperativas: “Os caras trabalhavam para as cooperativas, aí ela contratava a cooperativa dos cirurgiões, dos pediatras, dos anestesistas, dos ginecologistas e assim por diante.” (E1). “Primeiro porque antes eu não tinha pessoal, e para fazer com que o hospital funcionasse, vivia a base de cooperativas médicas e de enfermagem. Eu tinha aqui dentro cooperativas de ginecologista obstetra, de pediatra, de anestesista e de enfermagem.”, acrescenta o entrevistado E13. Porém, o uso de cooperativas não era a solução ideal, porque o valor financeiro era alto e não havia comprometimento dos profissionais, visto que nem sempre a cooperativa dispunha do profissional disponível (E13).