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A saponina de Calliandra pulcherrima Benth: CP05

A espécie é um arbusto nativo do Brasil bastante utilizado na região sudeste com finalidades ornamentais (Figura 4 e 5). A planta é empregada também como forrageira, sendo que o seu consumo provoca o aumento da produção de leite em rebanhos de caprinos e bovinos. A população do interior utiliza as folhas da planta em infusão para combater as febres intermitentes de malária (revisado por Taniet al.,1996).

A partir das folhas de Calliandra pulcherrima Benth, obtém-se uma saponina triterpênica (Figura 6), que possui muitas semelhanças com a saponina da QS21 de Quillaja saponaria Molina. Sua elucidação estrutural apresentou duas cadeias oligossacarídicas grandes associadas ao C-3 e ao C-28. Semelhante à QS21, três açúcares compõem a cadeia ligada ao C-3 e 5 açúcares, a cadeia ligada ao C-28 (Marciani, 2003;

Silva et al., 2005). Na cadeia ligada ao C-28, três monoterpenos alternados com açúcares, em lugar dos dois apresentados pela QS21, estão ligados via fucose por meio de uma ligação éster ao C-28. Uma diferença fundamental entre a saponina QS21 e a saponina CP05 é que esta não apresenta nenhum grupamento aldeído no triterpeno (Silva et al., 2005).

Figura 4. Arbusto de Calliandra pulcherrima Benth, destacando-se as folhas

Fonte:http://tropicals.com/pics/garden/200 4/2/2598s.jpg

Figura 5. Flores deCalliandra pulcherrimaBenth

Fonte:http://tropicals.com/pics/garden/2004/

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Figura 6.Estrutura química da saponina CP05

Um estudo preliminar comparativo entre a QS21 e a CP05 como adjuvantes do antígeno FML (Ligante de Fucose e Manose) no modelo murino revelou que o índice hemolítico, a indução de tipos e subtipos de anticorpos e a resposta de intradermorreação contra o lisado de Leishmania donovani foi semelhante para ambas. Porém, a resposta induzida por QS21 foi 1,5 a 2 vezes maior que a de CP05, em IgG total, IgG2a e IgG3. Se por um lado, a QS21 estimulou IgG2a e IgG2b, a CP05 induziu predominantemente IgG2b.

Talvez esta diferença tenha relação com a ausência de aldeído no triterpeno da CP05 (Silva et al., 2005, Chame-Barreto, 2006). Ambas as saponinas QS21 e CP05 se destacam muito pela complexidade e tamanho das suas cadeias glicídicas e presença de cadeias lipofílicas.

Assim mesmo, tanto os grupamentos lipofílicos como o aldeído em C-4 da QS21 são achados inusuais e muito peculiares.

O extenso número de evidências do potencial adjuvante protetor da QS21 (Soltysik et al., 1995; Cox & Coulter, 1997; Kensil et al., 1998; Marciani et al., 2001, Palatnik de Sousaet al.,2004) e as suas semelhanças com a saponina CP05 daCalliandra pulcherrima Benth, de função desconhecida, nos estimularam a iniciar o estudo do potencial adjuvante desta última.

1.5 Leishmanioses

As leishmanioses são enfermidades causadas por protozoários intracelulares do gênero Leishmania. Em 1903, Sir William Leishman e Charles Donovan descreveram a existência do agente etiológico da leishmaniose, a partir de lâminaspost-mortemde baço de pacientes da Índia, que tinham morrido com quadros febris sugestivos de malária, porém sem demonstração dos plasmódios (Ross, 1903).

A leishmaniose tegumentar é uma doença de caráter zoonótico que acomete o homem e diversas espécies de animais silvestres e domésticos, podendo se manifestar através de diferentes formas clínicas e sendo considerada uma doença polimórfica e espectral da pele e das mucosas. Já a leishmaniose visceral é uma enfermidade infecciosa generalizada e crônica, de caráter zoonótico no Mediterrâneo e no Novo Mundo sendo também consideradas diversas formas clínicas, podendo ocorrer desde casos de cura espontânea até manifestações clínicas severas (revisado por Handman, 2001).

As leishmanioses são infecções endêmicas em 88 países, sendo 72 destes países em desenvolvimento. Estima-se que exista uma prevalência de 12 milhões de casos de leishmaniose no mundo atualmente (WHO, 2006). O número de novos casos de várias formas de leishmanioses por ano é estimado em 1,5 milhões dos quais 500.000 são de leishmaniose visceral. Dos casos de leishmaniose visceral, 90% encontra-se em Bangladesh, Índia, Nepal, Sudão e Brasil, enquanto que 90% dos casos de leishmaniose cutânea encontram-se em Afeganistão, Brasil, Irã, Peru, Arábia Saudita e Síria (WHO, 2006). No Brasil, aproximadamente 90% dos casos humanos de leishmaniose visceral se concentravam no Nordeste até 1993. Em 2002, 64,02% dos casos correspondem ao Nordeste sendo que a epidemia se estendeu pelo Norte (14,12%), Centro-Oeste 8,22% e Sudeste (13,63%) do país (MS-SINAN, 2003).

1.5.1 A Leishmaniose visceral no Mediterrâneo e nas Américas

A leishmaniose visceral é causada por várias espécies: Leishmania (Leishmania) donovani e a Leishmania (Leishmania) infantum no Velho Mundo e a L. (L.) chagasi nas Américas. A leishmaniose visceral humana nas Américas e no Mediterrâneo é uma zoonose de canídeos. Os parasitas são transmitidos de raposas e canídeos silvestres a cães peridomiciliares e destes aos seres humanos nos ambiente domiciliares, através de picadas de insetos flebotomíneos. No Mediterrâneo, a doença é causada por L. (L.) infantum e o principal vetor é o Phlebotomus perniciosus. Entretanto, no Novo Mundo, a doença é causada porL. (L.) chagasi e é transmitida pelo inseto flebotomíneoLutzomya longipalpis (Guargaet al., 2000). A emergência da leishmaniose visceral zoonótica (LVZ) constitui um severo e preocupante problema de Saúde Pública.

Recentemente se reconheceu a identidade da L. (L.) infantume da L. (L.) chagasi.

Mediante o estudo e o auxílio de técnicas enzimáticas e genéticas concluiu-se que as diferenças entre amostras de L. (L.) infantum e deL. (L.) chagaside diversas procedências são muito restritas. Desse modo, L (L.) chagasi passa a ser sinônimo de L. (L.) infantum (Maurícioet al., 2000).

O ciclo biológico do parasita é heteroxênico, desse modo, durante o seu desenvolvimento apresenta dois estágios: uma forma flagelada extracelular denominada promastigota (móvel e alongada com 10-20 µm), que se desenvolve no hospedeiro invertebrado do gênero Lutzomya (Novo Mundo) e Phlebotomus (Velho Mundo) e uma forma amastigota (esférica com diâmetro de 3-7 µm de diâmetro), que prolifera dentro de fagolisossomo de macrófagos. Os promastigotas são inoculados na pele do hospedeiro vertebrado, juntamente com a saliva, no momento da picada do vetor e são fagocitados por células do sistema monocítico fagocitário (macrófagos, monócitos e células dendríticas), diferenciando-se em formas amastigotas. Os parasitas intracelulares multiplicam-se por divisão binária e chegam a romper os macrófagos infectados. Ao romper a célula, tais formas são liberadas para infectar outros macrófagos e outros fagócitos, assumindo uma localização final, na pele, no baço, no fígado, na medula óssea e nos linfonodos. O ciclo se fecha quando os flebotomíneos picam os reservatórios vertebrados e ingerem as formas amastigotas. Finalmente, os amastigotas atingem o tubo digestivo do vetor, onde após

passarem por várias etapas diferenciam-se em promastigotas infectivas (Awasthi et al., 2004).

A leishmaniose visceral é a forma mais grave da doença, sendo sua evolução gradual e podendo atingir crianças e adultos. É uma doença crônica e freqüentemente letal se não for tratada logo após o aparecimento dos sintomas. Também é conhecida pelas seguintes denominações: febre de Dum-dum ou esplenomegalia tropical, na Índia; calazar infantil ou anemia esplenomegálica, na Bacia do Mediterrâneo e calazar, leishmaniose visceral, calazar americano ou neotropical, nas Américas. Os sintomas em humanos podem ser caracterizados por febre prolongada, mal-estar, anasarca, anemia, linfoadenomegalia generalizada, hepatoesplenomegalia, hipergamaglobulinemia, caquexia e progressiva imunossupressão celular. Também pode ocorrer evolução assintomática, aguda, subaguda ou crônica da doença. O tempo de incubação é variável, desde dias até anos (revisado por Handman, 2001).

A co-infecção de Leishmania e HIV têm ocasionado reativação da doença em pacientes assintomáticos ou de pacientes considerados curados de leishmaniose. Isso indica que o parasita pode ser considerado um oportunista. Isso pode levar, geralmente, resistência ao tratamento, assim como, aceleração no progresso da AIDS (Robertset al.,2000).

O diagnóstico da leishmaniose visceral depende muitas vezes do histórico epidemiológico e da clínica do paciente, sendo estes requisitos básicos no diagnóstico diferencial. Contudo, muitas outras doenças tropicais apresentam quadros semelhantes, por exemplo, malária e esquistossomose. A pesquisa direta dos parasitas pode definir o resultado, para isso, pode ser realizada a punção principalmente de medula óssea ou mais raramente, de baço, seguidas de coloração das lâminas com o corante de Giemsa e observação ao microscópio das formas amastigotas (Herwaldt, 1999). Este método é muito agressivo e penoso para o paciente, que pode sofrer complicações como hemorragias.

A sorologia é extremamente útil para triagem de casos e também em inquéritos epidemiológicos (Badaró et al., 1983; Palatnik de Sousaet al., 1995; revisado por Singh, 2006). A dosagem de proteínas e a eletroforese do soro, com alteração da relação albumina/globulina e hipergamaglobulinemia acentuada, são sugestivas. Outros exames como hemograma acusando anemia, leucopenia, monocitose e linfocitose são auxiliares no diagnóstico (revisado por Singh, 2006).

O diagnóstico precoce é de fundamental importância nos casos de calazar, pois quanto mais precoce, melhores as perspectivas no sucesso na terapia e diminuição de casos fatais são esperados. Outro fator importante é a existência de indivíduos na população com infecção subclínica. Estes indivíduos podem ser doadores assintomáticos de sangue infectado com Leishmania gerando o calazar transfusional (Palatnik de Sousaet al.,1996;

Le Fichouxet al., 1999).

O tratamento contra a leishmaniose é bastante difícil e desconfortável para o paciente. Os antimoniais pentavalentes: antimoniato de meglumina (Glucantime) e estibogluconato de sódio (Pentostan), foram as primeiras drogas a serem utilizadas na terapia e continuam até os dias atuais como terapia de escolha no tratamento da leishmaniose visceral. Tais drogas exigem hospitalização para a administração endovenosa e promovem muitas reações adversas. Com o aumento do número de casos de leishmaniose visceral e o aparecimento de resistência ou de recidivas da doença, os antimoniais pentavalentes começaram a apresentar ineficácia em alguns casos, havendo necessidade de novas estratégias terapêuticas para combater a doença. Assim, o uso de Anfotericina B e a Pentamidina foi introduzido na terapia. Muitas novas terapias têm sido sugeridas, chegando a mais de 60 tratamentos testados (revisado por Murray, 2004). Um aminoglicosídeo denominado Paromomicina, também tem sido testado nas regiões do Kênia, Índia e Sudão, e apresentado bons resultados (cerca de 95% de cura) com menor toxicidade (revisado por Murray 2004). Atualmente, a Miltefosina (Hexadecilfosfocolina) originalmente desenvolvida como um agente anti-neoplásico, é uma droga oral que apresenta propriedades anti-leishmania, porém demonstra toxicidade gastrointestinal (Murray, 2004).

1.5.2 Formas de controle

Conforme recomendações da Organização Mundial da Saúde, o controle da leishmaniose é baseado em três medidas (Tesh, 1995):

1) Detecção e tratamento de casos humanos: promove a redução de morbidade e de mortalidade.

2) Sacrifício ou tratamento de cães infectados: Baseia-se nos aspectos clínicos e na sorologia dos animais.

3) Controle do vetor e dos animais reservatórios:combate aos flebotomíneos adultos e larvas. O uso de inseticidas no interior de residências visa reduzir o ciclo peridoméstico e desse modo, a transmissão do parasita, porém esse efeito é apenas temporário, além de ocorrer resistência ao inseticida com o uso prolongado (Tesh, 1995).

Com o ressurgimento da leishmaniose visceral e a sua importância evidente na Saúde Pública, faz-se necessário o desenvolvimento de novas armas de combate à doença.

Nas áreas endêmicas do Brasil, o controle da leishmaniose visceral envolve a detecção de cães infectados por análise sorológica usando ensaios de imunofluorescência (IF) e sacrifício dos cães soropositivos (Borja-Cabreraet al., 1999).

O controle epidemiológico, portanto, ainda se baseia no sacrifício de cães infectados, tendo sido criticado pela sua falta de eficácia (Costa & Furtado Vieira, 2001).

Modelos matemáticos (Dye, 1996) indicam que o desenvolvimento de uma vacina humana e/ou canina constituiria uma forma eficiente de se controlar a doença.

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